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De Volta à Superfície


Viktor Iyagushkin
Estou deitada lendo poesia. Passarinhos enlouquecidos de alegria piam lá fora. Mamãe está na UTI mas está bem. Cancelada minha despedida. Raios de luz denunciam a superfície próxima. Apalpo meus braços e pernas gelados e endurecidos pelo esforço. A nova casa está de pé, está em ordem. As crianças se arrastam pelo chão de cimento queimado e o cachorro espichou-se ao sol sobre o deck que fizemos construir. Empurro a água com força para baixo, para a fossa abissal que visitei. Todos os trabalhos foram entregues e os exames do filho foram providenciados. Meu marido chegou e parou o carro na garagem grande que sempre quis. Um raio de sol explode no meu olho submerso. É quase superfície, eu sei. Experimento, embriagada de mim, o dolce far niente esquecido. Minha filha avança escada acima mas toma outro rumo no corredor. Não vem. Tudo conspira para o silêncio sepulcral em minha caixa poética. Só os passarinhos me provocam com seu dueto minimalista. Nem quadro há na parede branca. Só o livro do poeta desconhecido me fazendo cócegas no juízo. Poeta morto. Escreveu sobre a casa que nunca está pronta. Homem genial de São Borja. Minha casa parece pronta, mas não está. Lanço-me na superfície, finalmente, na volta o mar nunca é o mesmo. Tanta coisa ficou para sempre lá embaixo. Boio de barriga para cima. E vejo o céu. Tudo foi resolvido e nada foi. A casa nunca está pronta. Súbita e esmagadora compreensão de mim. Tantos mergulhos para então ver o céu. Mãe viva, casa erguida, trabalho feito, filho, marido, cachorro, tudo parece em ordem e não está. Só a poesia faz sentido. Viro a página e encho os pulmões de poesia, me preparo: em mim superfícies não duram.
*
Para Apparicio Silva Rillo.
*
*

Comentários

  1. A superfície é ilusão a Verdade mesmo só é vivida e encontrada nas profundezas, que por despreparo nos parece sombria, mas que de fato a cada mergulho e emersão trazemos nossos arquétipos à luz, a Luz da Verdadeira Consciência do Eu. Bj : )

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    1. Pois é Tori, mas num é mole não. Tô querendo boiar um pouco, ler revista Caras! Hehehe. Ainda com medo das suas agulhas! Bjooo

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  2. Oh, senhorita Safo, como escreves bem.
    Muitas vezes, fico imaginando q vc não existe, não.
    Não é possível que esta pessoa que pensa assim, exista mesmo, em carne e osso e que tenha uma casa, um cachorro e um quintal.
    E o nome dela não é Clarice, nem nd.
    Inacreditável.
    Sylvia Manzano

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    1. Sylvia, a mulher que tem casa, cachorro e quintal às vezes também duvida que escreva isso. Rsrsrs. Beijo e obrigada pela companhia.

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    2. Gozado, vc dizer q duvida q foi vc q escreveu. Eu tb sinto parecido em coisas q eu escrevo. Eu penso: ué, mas eu não sabia isso...
      Escrever é estranho, né?
      No meu caso, eu costumo dizer, que é minha mão q escreve, não eu.
      Bjo

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    3. Possessões poéticas. Rsrsrs

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  3. Concordo com a Sylvia e tenho o privilégio de conhecê-la.

    Às vezes precisamos de placidez, mesmo sabendo que ela foge rapidinho rsrsrs(quem tem três filhos sabe bem disso).

    Beijo!

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    1. Estou agarrada na minha o quanto posso. Bjoca.

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  4. Também fico impressionada com o que você escreve! Leio e fico pensando, pensando, pensando na frente do computador, até que uma das filhas me chama para a realidade (hehe)!
    Abraço

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    1. Obrigada. Me faz tão bem este canal. Beijo meu e dela.

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  5. Synara Rillo29/9/12 13:50

    Ola. Muito me alegra estar aqui em teu bolg lendo o que vês e sentes da vida. Prosa poética e crônicas sagazes. Bom te ler. Quem me apresentou teu bolg foi a Vera Vivas da Cal, amiga virtual com quem fez que outra troco e-mails e pareceres sobre a vida.
    Ah, sou filha do Apparicio Silva Rillo, a quem dedicas essa prosa ( crônica). Obrigada pela citaçao ao meu pai.
    Bom, serei tua leitora a partir de agora. Já estas nos meus favoritos.
    Abraço fraterno
    Synara Rillo

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    1. Synara, que bom ter sua companhia aqui. Seu pai veio iluminar o blog, eu é que agradeço. beijo.

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