Sem Provas Cabais

Deborah Barlow
Confessemos. A gente tem um prazerzinho mórbido com o lado ruim do outro. É o que alimenta nosso exercício incontrolável da fofoca. Eu fofoco como quem coça uma frieira. É ruim e é bom. Quando exponho a ruindade do outro, reafirmo meu lugar de superioridade, ainda que momentânea, ainda que sob determinado aspecto. É o tribunal cotidiano rolando em voz baixa pelos cantos. Somos fofoqueiros natos. Sabemos que é feio, mas precisamos expor o outro em suas mazelas num ato de cumplicidade com um terceiro para nos salvar. Fofoca é inevitável. O lado feioso, repugnante, manco do outro, me hipnotiza. E quando ele escapa da fachada bem comportada do outro e mostra seu rabinho, exulto. Meu cérebro foca imediatamente naquela ruindade e começa a trabalhar sobre ela, alimentá-la. Então o terceiro se encosta para ajudar nos contornos hiper-realistas da pintura do monstro. Ele têm informações acessórias que comprovam e reforçam a ruindade exposta. A fogueira está linda e ele trouxe mais lenha. E ficamos eu e o terceiro fascinados com os estalos da brasa e as chamas bruxuleantes. É um egoísta, se acha o máximo, ouvi dizer que,  não tem um pingo de autoestima, apanha da mulher, tem um caso, eu não queria dizer nada, mas. Eu queria sim. Queremos denunciar a bruxa do outro e vê-la arder. E tudo bem. É um ritual da cultura. Eu vou continuar fofocando de vez em quando, não muito, e sem dar à minha fofoca ares de sentença divina. A fofoca ameniza a convivência com minha própria feiura. É terapêutico.  Mas depois eu vou escolher aquele lado melhor do outro, aquilo tudo que ele fez de bom e de legal e o tanto que ele tentou acertar e caçar uma essência boa que, acredito, ele tenha. Tentarei a todo custo protegê-lo de mim e das minhas projeções, inocentá-lo, salvá-lo. Não porque eu seja boazinha, eu sou defeituosa, fonte rica e inesgotável de fofocas. É que cada humano que executo diminui a fila na qual também estou rumo ao paredão. E o mundo carece tanto de bondade que não posso me dar ao luxo de fuzilar ninguém sem provas cabais de ruindade majoritária e irreversível.  Fofoca feita, guardo meu quadro de monstro e vou atrás do outro sem orgulho em busca de sua bondade.  Acho sua bondade e me agarro com força a ela e, quase sempre, na enxurrada de ruindade do mundo, boiamos os dois. 
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Comentários

  1. Muito, muito boa! Sempre lembro de suas crônicas no dia a dia e, quase sempre, recorro às suas constatações. São sempre leves e sábias. Muitos beijos :)

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    Respostas
    1. Oi poetinha, eu também gosto da companhia dos seu poemas. Vamos juntas. Beijo.

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