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Aperta o K

Encontrar ficou difícil, impossível, fácil é desencontrar. Instalei um ícone do Facebook na minha área de trabalho: janela ilusória para o outro. Um pop-up avisa que fulana curtiu um troço que eu falei e beltrano comentou minha nova foto do perfil. Saudade de fulana e beltrano. Estão vivos, parece, a pop-up me disse que sim. Devem estar com alguns cabelos brancos já. O que vejo são fotos, todas ótimas. Em nenhuma ele está vomitando no banheiro do boteco ou ela tem o rimel escorrendo de tanto chorar.  A profundidade humana emocionada se foi, restou a quantidade. Tenho três mil amigos ou mais. Todo dia adiciono um ao nada. E a cada mês faço um esforço focado de colocar um deles diante dos meus olhos e atrás de uma xicrinha de café. Em geral, eles não podem, ocupados, lotados. Carregados enxurrada abaixo como eu, feito toco flutuante que vai esbarrando aqui e ali em gente que não escolheu. Um desses amigos, que tive o prazer de encarar em um almoço numa mesinha de calçada sob o sol de inverno, me disse que as pessoas têm apertado muito o K nas suas postagens. Ele não acredita mais que tantos Kas sejam risadas de fato. Suspeita que tem gente apertando o K sem mover um único músculo da cara. Porque virtualmente é muito fácil estar presente. Só afundar uma tecla ou o dedo no botão do mouse. E me mostro ali para o outro. Marco presença. Marco pontos. Exposição imediata e indolor do ego fantasiada de relação. Sim, eu estou com você embora não gaste nunca cinco minutos do meu tempo para ouvir a sua voz.  Não reclama, eu te adicionei e te curti e até te compartilhei e caso você não tenha prestado atenção postei lá que estava numa viagem de trabalho cheia de reuniões, então me deixe em paz na rotação hipnótica do meu liquidificador. Eu não posso. E poderei menos daqui a cinco anos. É só olhar para trás, se der, se tiver tempo, pra ver que estamos evoluindo para o nosso dentro escuro e solitário. Solidão que excomungamos. Porque queremos mesmo é a pele do outro. A risada com seus quinze músculos faciais e movimentos do tronco, dos braços e das pernas, comprovadamente contagiosa. Mas somos um bicho condicionado que aprendeu a apertar uma barra pra ganhar água. E o pior é que nós nos achamos o máximo. Nós somos os super ratos brancos. E vamos apertando barras e botões e teclas, cada vez mais rápido, iluminados por uma tela fria de LED, porque a água é cada vez mais difícil de ganhar. Até ficarmos velhinhos demais para conseguir com a mão enrugada e trêmula fazer o cursor do mouse clicar no maldito link. E o sistema liquidificante não nos chamar mais e não nos der mais nada a fazer. E então morrermos com os olhos vidrados em um telefone mudo sobre um criado mudo sobre um coração mudo, enquanto nosso neto, na sala ao lado, aperta o K.
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Comentários

  1. A eterna obrigacao de ser feliz, sorridente, rodeado de "amigos" do facebook. Isso tudo com fotos de viagem de todos os paises. Sempre me incomodou mas ninguem nunca partilhou da mesma opiniao. Tem muito K sobrando e vida real faltando...

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  2. Ai Carolina, corre, pega o telefone, chama aquela amiga pra vadiar! Beijão e obrigada por estar aqui.

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  3. Meus olhos se encheram d'água. Não tenho facebook por essas razões óbvias. Um ranking de egos e aparências.
    Tenho amigos de mais de 20 anos com os quais sempre falo e encontro e também escritores blogueiros, pessoas com as quais troco ricas experiências literárias. Isso sim é bão demais...

    Quando vi que o texto re sobre facebook, fiquei com os dois pés atrás, mas vc sempre me encanta.
    Bjo!

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    Respostas
    1. Eu resisti ao Facebook mas depois achei que poderia ser uma ferramenta boa. Hoje vejo que somos facilmente viciáveis e é preciso e saudável obrigar-se a se desligar destes fios. Bjoca.

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  4. Anônimo1/7/12 22:09

    Oi Nana, o facebook me parece muito uma máquina do tempo na qual dispomos de amigos de várias épocas, colegial, faculdade, ex-namorados, etc e então acessamos um comentário dirigido à qualquer um destes e nos transportamos à aqueles anos em que o contato c/ aquela pessoa perdeu-se no passado!! Nos iludimos com a sensação back to sixteen pois o peso da idade não está visível, nem ouve-se um mãããe à toda hora atravessando a conversa, somos apenas nós perdidos em lembranças e sensações que ficaram para trás... sendo assim ficaria impossível trazer esta realidade para tomar uma xícara de café! ...mas você aceita uma? Bjo

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    1. Eu aceito. Em padaria. Sou viciada em padaria. Hehehe.

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  5. Respostas
    1. Tem também hehehe e hahahaha e rsrsrsrs e um tal de ahauahhauaha que eu gosto. Cadê você que se enfiou no mato?

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  6. Adorei!!! Mas nao tem como fugir dele.

    Super sensível e real, cousa de Nanna.

    Beijo!

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    Respostas
    1. Tem como fugir um pouquinho, vá! Vá naquele botãozinho vermelho e aperta o off. Bjoca.

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  7. Eu tenho uma raiva desse kkkkk...
    Às vezes, escrevo coisas tão profundas ... rs ... para meus sobrinhos principalmente e vejo em notificações que tem resposta.
    Vou ler e é: kkkk.
    Puta que pariu, com perdão da má palavra.
    Eu tb sou viciada em padoca, sentar numa mesa na calçada, tomar um café fumando e ficar olhando o povo passando, mas fui obrigada a desistir da minha, pq não pode mais fumar, nem na calçada, pq tem toldo.
    Fumante é tratado como criminoso atualmente.
    Mas já descobri outra padaria que não tem toldo e pode fumar.
    E eu tenho um ótimo álibi: sou escritora de livros para crianças e jovens e "preciso" observar o comportamento humano...rsrs

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  8. Voltando para mostrar seu texto ao Lindinho.

    "Tem a manha"

    Breno

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  9. Ai Nanna! Que dor! Que texto trágico, niilista!!!! Socorro!


    Por falar em café...

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