Nem Gente

Planchon Ludwig
Observo a morte de grandes mitos da música ainda jovens, meteoros consumidos em seu próprio fogo, e entendo o delicioso poder da loucura, ou da droga e do álcool, loucura temporária e induzida, de nos catapultar direto da realidade parametrizada e morna para a nebulosa hiperconceitual do inconsciente coletivo. A viagem. Traspassar esta barreira do humano, mergulhar no magma repleto de percepções e sensações grandiosas que podem elevar ao paraíso ou matar. Eu sempre fui covarde diante das drogas e do álcool. Medo de perder o controle. Talvez porque perdesse muitas vezes o controle desde criança em episódios mais tarde chamados de síndrome do pânico. Talvez porque, antes dela, já temesse o descontrole e a síndrome fosse só consequência.  Eu fui guiada para o lado de lá pela dor.  Minha inadaptação ao mundo, minha repulsa aos cenários e aos personagens da história, me lançaram para o lado de lá. Uma espécie de loucura branda marcada pela cotidiana dificuldade de respirar. Loucura homeopática, quase sempre administrável com um ou outro comprimido, corridas no parque, terapia. O meio do caminho: nem tão doida que morra e se imortalize, nem tão normal que se adapte. Não sideriza, não faz o concurso público. E dói. Eu me aboletei na ponte entre os artistas esquizofrênicos e os diretores de empresas, e visito, esporadicamente, uns e outros. Levo mensagens daqui pra lá, tento apresentá-los, tudo gente, eu penso. E pago o preço de não beber todo o álcool que queria, não lotear meu corpo entre homens e mulheres, não matar por prazer e não perder-me nos braços do mar abissal e incontrolável a ponto de enxergar sereias. E fico na ponte a espera de escolher um lado porque penso: ponte é caminho, não fim. Fico entalada no canal sem nascimento. Sem presente. E de repente uma Gestalt me salva: sou a mulher da ponte, pertenço aos dois lados,  não posso escolher. Sou a mulher da ponte, guardo a passagem para que não se feche, e carrego as mensagens.  Este é o meu presente.  Sou a mulher da ponte. Não. Não sou nem mulher nem homem nem gente. Eu sou a ponte.
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Comentários

  1. Anônimo5/5/12 23:36

    Mulheres como vc, sei, não.
    Talvez tenham que ficar na terceira margem do rio mesmo.
    Seu texto é de uma tal preciosidade, que sei, não.
    Onde ficaria?
    Onde caberia?
    Sylvia Manzano

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    Respostas
    1. Syvia querida, desconhecida, que bom tê-la.

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