Mulheres Carecas

A amiga enfartou e fiquei brava. Mulheres não usavam enfartar. Mas estamos conquistando a igualdade num mundo onde ainda prevalece a lógica do macho. Sim: a gente também sabe dar porrada, a gente também é foda. E logo vamos conseguir ficar carecas, aguardem! Trouxemos a nossa barraca e montamos na planície do macho. E estávamos avisadas: planície é território de guerra não é cozinha, viu fofa?! Tudo bem, a gente aguenta.  Engolimos o choro, subimos no salto, e aprendemos a mijar pra marcar o território. Mijar de salto alto é dureza, mas está escrito no manual do sistema em vigor: tem que marcar o território. Aqui é meu, ali é meu, acolá é meu. Marcou? Agora tem que expandir. Isto querida, levanta a saia e vai mijando cada vez mais pra lá. O concorrente mijou? Corre e mija em cima. E lá vão elas, conquistando o devido respeito no Machomundi. Ainda ganham menos, afinal ele está melhor aparelhado pra mijar no alvo, a vantagem anatômica. Ela mija espalhado, complica. No mais, estão iguaizinhas a eles. Não. Piores. Porque elas partem pra cima de salto e tailleur. E maquiadas. E com maquiagem boa daquelas que não sai se chorar escondido. Na lei do macho, as unhas devem estar bem pintadas antes de enfiar na luva de boxe. Falta de feminilidade não pode, dá até justa causa. Feminilidade neste esquema não é um estado, é uma forma. Então ela se traveste de trator mas com uns adesivos de flores, um trator lilás, e se lança ladeira abaixo. O feminino mesmo, continua não cabendo. Esperneou e foi aceita no clube do bolinha desde que as crianças sejam bem criadas, a casa continue limpa e a comida quente. E ela abraça tudo, seu cérebro feminino multitarefa não conhece limites. Pula feito louca só no saltão e no tailleurzinho de função em tarefa e troca o pneu enquanto dita um receita de risoto ao telefone para a empregada. Mulher Maravilha dando pernadas nos vilões com aquele colant enforcando a cintura. Nem pode respirar e tem que salvar o mundo. Mas os homens a reverenciam, a estrangeira que virou primeira ministra, presidenta. Não por sua capacidade mediúnica de ler o outro, carregá-lo dentro de si, tornar-se um com ele: ser dois no mesmo território. Mas devido a sua disposição de trocar este talento por um lugar no sistema operacional do macho. Ir também à guerra, não para puxar o gatilho, mas para dizer ao atirador onde doerá mais. Vencer. Conquistar. Ser o alfa. E quando finalmente for alfa,  se não enfartar no caminho,  ganhar um troféu de metal caro que não saberá onde enfiar, ainda a espera de flores com carinho e outras doçuras inconfessáveis. Pensando bem, minha amiga enfartada teve sorte, meteu uns stents no coração e acordou. Soldados morrem. Princesas sempre acordam.  
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Para a amiga de coração enorme e remendado, uma bronca com amor.
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Comentários

  1. Pronto, agora já tenho certeza do figurino da minha cena! ah, sim, eu também vou estar em cena!
    Eu escrevendo coisas aqui e quando vou ler vc, já tá escrito, e melhor escrito, é claro!

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  2. Pinicando aqui de curiosidade.

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