Pular para o conteúdo principal

Ciência Menino


Underwood&Underwood/CORBIS
Camille Paglia, pensadora norte-americana, disse que a ciência é invenção do homem para se proteger do insondável feminino. Ciência é coisa de homem. Eu tenho certeza absoluta. Fosse coisa de mulher já teriam inventado uma pílula que acabasse instantaneamente com a TPM e não existiria esta máquina que espreme um seio até achatá-lo como uma lâmina, inspirada na tortura medieval de bruxas, para fazer uma mamografia. Nenhuma menina na doçura de seus doze, treze anos, conheceria a cólica menstrual, pois seriam todas vacinadas contra esta aberração da natureza ao nascerem.  Parto com dor também teria sido abolido há milênios e daríamos a luz num espasmo de prazer deitadas em colchões de macela cobertos com lençóis acetinados. E logo após o parto, seria aplicado na barriga da mulher um poderoso cosmético reparador que devolveria a ela o aspecto dos dezessete anos. A pílula para não engordar seria distribuída gratuitamente pelo Ministério da Saúde junto com o anticoncepcional instantâneo, que precisaríamos tomar uma única vez e quando fosse iminente e certa a relação sexual. E nenhuma, mas absolutamente nenhuma mulher teria que passar pelo trem fantasma da menopausa. Nossos ossos seriam sempre fortes, a pele sedosa e brilhante, a cintura delgada, e apenas o desejo, com seu poder intacto, incendiaria sem licença o nosso corpo. Nos shoppings e supermercados haveria, ao lado dos caixas eletrônicos, máquinas de estabilizar hormônios, e só a miséria, o egoísmo e a burrice humana seriam capazes de alterar nosso humor. Menstruação viria  se a gente quisesse, afinal não moramos mais numa caverna nem precisamos de uma chance de engravidar a cada mês. E quem sabe o mundo fosse mais mãe para todos. Se Einstein, Lavoisier, Newton, Darwin, Copérnico, Mendel, Freud, Galileu, Chomsky, Kepler, Hawking, Nicolelis, fossem mulheres, talvez todos os governos do mundo já possuíssem máquinas de estimulação de áreas do cérebro responsáveis pelo diálogo, a compaixão, o amor, capazes de terapia em massa que dessem fim a tantas estúpidas guerras. E não precisaríamos perder nossos maridos e filhos em troca de terras e poder.  Mas a ciência é menino. E eu estou com uma TPM dos infernos. Um monstro insensível a tabelas, gráficos, equações, microscópios, argumentos lógicos e ponderações brilhantes. A ciência que se dane e os homens que me suportem.
*
*
*

Comentários

  1. E o que você me diz de uma boa depilação com cera quente , numa tarde de verão ??
    É também um sofrimento feminino ... Mas a TPM ainda é só nossa ! Que inferno !!!

    ResponderExcluir
  2. Somos muito mais resistentes à dor. Para a maioria esmagadora dos homens arrancar os pelos só em sessão de tortura. Rsrsrs. Bjão

    ResponderExcluir
  3. Milady Nanna, sobre isso eu li uma reportagem em "O Globo" (ninguém é perfeito...) sobre uma alemã chamada Emily Noether (1882-1935). Por um lado, ela confirma seu texto. No tempo do kaiser, as universidades, por lei, eram verdadeiros clubes do bolinha; ela só pode estudar matemática na Universidade de Erlangen (onde fica este lugar?) como ouvinte, mas era tão brilhante e foi tão bem que acabou recebendo um título equivalente ao de bacharel. Por outro lado, desmente um pouco seu texto: a partir da Teoria da relatividiade de um menino chamado Einstein, Emily Noether elaborou um teorema matemático, chamado Teorema de Noether, que hoje é considerado fundamental para a física moderna.
    É possível que você encontre no site d'"O Globo" uma cópia desta reportagem, publicada em papel em 7 de abril último. Mas duvido.
    Ah, sim: como homem é um bicho canalha mesmo (e não posso me desvincular desta canalhice própria da espécie), gostaria de fazer uma autopropaganda (quer coisa mais canalha do que isso?): já está no ar o nº 8 da revista SOMBRAS ELÉTRICAS, que este semvergonha aqui edita (http://sombraseletricas.webnode.pt/). Neste número, há um artigo deste semvergonha que vos fala, chamado "Noite, névoa, trovoadas e outras manifestações meteoro-bestialógicas" (http://sombraseletricas.webnode.pt/long-shot/noite%2c%20nevoa%2c%20trovoadas%20e%20outras%20manifesta%c3%a7%c3%b5es%20meteoro-bestialogicas%20antonio%20paiva%20filho/), sobre a situação da cultura em nossos dias. Leia e me diga o que acha. Beijim.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá querido sem vergonha, é claro que elas dão seus pulinhos na ciência como dirigem caminhão e invadem territórios machos aqui e ali. Mas é pouquinho, né? Vou lá ler seu texto apesar de já estar deprimida com a situação da cultura em nossos dias. Beijo e obrigada por vir.

      Excluir
  4. Acho que se a ciência fosse uma menina, ela não resolveria nada! Não acharia solução pra coisa alguma, ela não seria ciência! Se fosse uma menina que regesse o lugar do conhecimento, ainda haveria caldeirões fervilhantes e poções que serviriam tanto para cólica quanto para trazer de volta a pessoa amada, e ninguém acharia isso uma charlatanisse. A cura do câncer? Não, não haveria ninguém pesquisando a cura do câncer. Não haveria câncer! Já que não haveria furo na cada de ozônio, agrotóxicos, transgênicos, antidepressivos, cremes rejuvenescedores, hormônios para evitar filhos, hormônios para evitar ciclos...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ai Luisa, eu queria achar o caminho de volta pro meu caldeirão. Ando tão científica.

      Excluir

Postar um comentário

Não tem conta Google? Assine, clique em ANÔNIMO e em PUBLICAR. É fácil! Bjooo.

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Amar não basta. Gravo a mensagem no whatsapp e envio para a amiga. É uma faca no estômago, eu sei. Tantas pessoas se separam se amando. Eu mesma já fui embora arrastando o coração pelos cabelos umas duas vezes. Doloroso demais. Cruel demais. Mas acontece de as possibilidades se esgotarem, de fato. Acontece de precisarmos estar sós naquele trecho da estrada. Acontecem estradas diferentes com interseções que nunca mais se repetem.  Acontece de a dor ficar insuportável. E então a morte se impõe, mas nem sempre a aceitamos de pronto. Acontece de, primeiro, tentarmos blefar o adeus. Vivenciar o fim com a certeza de que o navio não deixou o porto. Ir sem ir. Começa o vai e vem sofrido: separa e uiva de dor, volta e uiva de prazer. Nada como voltar do fim: uma bomba de serotonina. Mas a volta não é inteira, não é a que planejávamos, e logo a falta se apresenta, e a dor retoma o palco e ensaia um novo adeus. Amar não basta, amiga. É preciso amar-se junto. Senão o outro vira eterna ameaça de …

Para o meu fantasma

Adeus e obrigada. Foi bom girar nos seus braços nesta valsa inesperada. Obrigada pela Duquesa, pela Gata Borralheira, pelo pai e pelas crianças minhas que você nem sabe que me deu. Obrigada pelo espelho onde pude pentear a minha vaidade, pelo lugar de destaque na sua corte que pude chamar de pouco. Foi doloroso ver meu tirano no seu, mas foi como um parto. Dor valiosa de onde nasci novamente. Obrigada por tudo que você nem sabe que foi. Por ter ido tão fundo em mim sem nunca ter deixado a superfície das suas vontades. Por ter me notado. Por ter chamado meu nome. Por ter evitado o meu mergulho e me devolvido a mim. Coloco este agradecimento e este adeus numa garrafa e lanço no rio de nome universo. Incógnita, me despeço. Remeto este adeus agradecido à sua alma que há de me escutar numa dimensão distante. Adeus e obrigada pelas provocações de menino, por acordar o meu menino, por dançar comigo esta dança breve, desatenta, mas necessária. Verdadeiramente, obrigada, segue seu caminho. Ab…

Estranha Paz

Ah, esta paz de me sentir só que dá até medo. Estou sentada no restaurante, indecentemente só. Não pertenço a nenhum quadro. Nenhuma moldura me contém. Não sou sua mãe, sua esposa, sua amante, sua amiga. Sou folha seca na ventania lindamente desgovernada. Que medo de enlouquecer e sair vagando pela rua. Largar o carro. Ir andando até uma rodoviária. Comprar uma passagem para o nada. Virar pessoa desaparecida, forasteira, perder as referências, escafeder, sumir do mapa. Todos viajaram. Faz uns dias que estou só. Devolvida à minha pureza sem demandas. Sem idade, sem rugas, sem pressa, sem expectativas. Este prazer na solidão que me assusta. Só eu no restaurante atrás de uma caneca de chope. Um cara no piano tocando jazz. E não falta nada. Meu Deus, preciso confessar e é terrível: não falta absolutamente nada.  * * *