O Banco

Em frente ao quartel militar há uma praça e um banco onde não se pode sentar. Na praça há vários bancos idênticos, mas naquele não se pode sentar. Um soldado passa o dia de pé ao lado do banco vigiando. Não fala, e de nada adianta tentar arrancar dele o motivo pelo qual o banco deve permanecer vazio. Ele não sabe, é um militar, cumpre ordens, não pergunta.  Também dentro do quartel imponente às costas do soldado, ninguém pergunta. Um supõe que o outro saiba e o outro sabe que não saber pode ser perigoso e todos supõe que a razão existe e deve ser forte. Então se calam e aquiescem diante da ordem que é publicada todos os dias no quartel e designa eternamente um soldado para guardar o banco e impedir que algum incauto, por força da ignorância, venha a se esparramar sobre ele. Frequentadores da praça trocam entre si teorias mirabolantes que explicam o inexplicável banco proibido. Ali teria pousado o traseiro do Marechal Deodoro da Fonseca quando passou em revista ao quartel. OU. Ali o Papa João Paulo II teria descansado em sua peregrinação pela cidade. OU. Ali um famoso poeta modernista teria sido assassinado a tiros. OU.  Ali Elizabeth Taylor e Richard Burton teriam se sentado de mãos dadas numa suposta visita ao país.  Camadas e mais camadas de mito vão se formando década após década sobre o comum banco de cimento e transformando-se em verdade, em lei, na cabeça dos homens. Até que um jornalista intrigado resolve fazer uma pesquisa sobre o fenômeno. E fuçando nos arquivos empoeirados e amarelados da instituição, desenterra a primeira ordem de destacamento de um soldado para vigiar o banco. Ali, a chave do mistério guardada há mais de quarenta anos como um colar de esmeraldas na gaveta de um navio submerso: tinta fresca. Pintaram o banco e destacaram um soldado para evitar que pessoa menos atenta se sujasse nele. Por uma distração, destas que sobram em órgãos públicos, a ordem nunca foi cancelada e seguiu sendo burocraticamente expedida todos os dias, e cegamente acatada, até virar lenda. Assim também nascem tabus, preconceitos e neuroses. Vigiamos bancos porque um Deus mandou ou porque carregamos o medo anacrônico e infundado de que alguém venha a sentar-se nele. Não comemos carne de porco, não mostramos o tornozelo, e, paradoxalmente, reclamamos da solidão, rígidos e armados ao lado do nosso banco. E hipnotizados pela infância psicológica ou da civilização, não mergulhamos em nossas pastas suspensas atrás do papelzinho amarelado que nos daria a liberdade. Construímos fantasias eloquentes e nos apegamos a elas e até nos sentimos importantes, poderosos, especiais, diante dos nossos bancos vazios.  Naquela praça não há mais soldado e o banco foi devolvido à sua função de acolher o vai e vem humano. Mas ainda há quem não sente, apavorado pelo vazio que a liberdade trouxe.
*
*
*

Comentários

  1. Ainda ontem questionei uma lei que privilegiava os militares. Quando fui olhar a data de criação, adivinha? 1968

    Até hoje a tal lei vigora e e ensinada nos cursos de Direito. É um absurdo!

    Lindo texto! Ainda temos muito a mudar.

    Bjo!

    ResponderExcluir
  2. Pois é. Vamos mudando dentro que já ajuda. São Paulo te espera de novo. Pode vir sem o Brenos. Rs. Bjão

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Não tem conta Google? Assine, clique em ANÔNIMO e em PUBLICAR. É fácil! Bjooo.

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Para o meu fantasma

Estranha Paz