Me Leva

Pessoas não levam cachorros para passear. É justamente o contrário. Amanhece o dia em São Paulo e a rua vai se enchendo de cachorros puxando seus donos pelas guias. Passinho, passinho e afunda o fuço no chão em um misterioso centímetro quadrado de preciosidade inexplicável. E o dono ali, preso pela cordinha, olhando absorto, entregue ao seu quadrúpede e também atarracado ao pedaço de chão. Somos seus humanos. Ninas, Lulas, Pagus, Lunas, Lolas, Jucas, Brisas, Pitus, Neguinhos, nossos proprietários. Todo e qualquer cachorro carrega o dom de tornar o ser humano um animal melhor. Ou nos fazem mais humanos ou escancaram nossas desumanidades, nossos abandonos. Andando atrás deles, exercitamos o coração de muitas formas. Cachorro faz a gente conhecer vizinhos que habitualmente ignoramos, isolados em nosso castelo. Enquanto um cheira o cu do outro, os seus humanos aproveitam pra se olhar, se dizer oi.  Cachorro faz nosso cérebro descansar num sorriso enquanto corre atrás do rabo. Cachorro faz a gente se distrair do próprio peso e rolar na grama do parque quando somos obrigados a levá-lo para passear. Jogamos o pauzinho para ele, em troca de um mísero rabo que abana, e mergulhamos no terreno esquecido da generosidade, do acolhimento, do amor gratuito, e ficamos misteriosamente felizes com aquela promessa peluda de estorvo que, na maior parte das vezes, sequer traz  o pauzinho de volta.  Ter cachorro é terapêutico, é profilático, é libertador, e dá trabalho.  Filhos dão trabalho, jardins dão trabalho, grandes amores dão trabalho, feijoada dá trabalho e aquilo em que nos acomodamos pode ser o mais morno e silencioso deserto. Então, eu sugiro aos que estão acomodados em suas caixinhas brancas e organizadas que se amarrem a um cachorro, bomba incontrolável de afeto. Talvez ele coma seu sofá, ou macule sua ilusão de liberdade, talvez ele faça xixi no seu tapete persa e pule na calça intocável da sua visita, mas, se a porta do peito estiver aberta, seu coração se projetará nele, com uma intensidade que só acontece no reino a prova de razão dos bichos, o amor dos bichos, que se perdeu em nós. E será bom como se coçar ou deitar ao sol de barriga para cima. 
*
*
Este é o meu Lula, mais admirável do que muita gente.
*

Comentários

  1. Ele é lindo e doce. Eu tb tenho uma lhasa apso, que encomoda bastante, mas me traz uma felicidade que não tem preço...

    ResponderExcluir
  2. Lhasa é meio bicho de pelúcia, né? Aquela coisinha que parece brinquedo. Adoooro.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Não tem conta Google? Assine, clique em ANÔNIMO e em PUBLICAR. É fácil! Bjooo.

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Para o meu fantasma

Estranha Paz