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De volta ao fogão

No domingo não tem mais empregada. Faço titubeante o movimento de volta ao lar: aos filhos, ao fogão, às vassouras. O nascimento dos trigêmeos assustou e espantou minha dona de casa já insegura para o alto de uma árvore chamada trabalho. Criada para ocupar meu lugar no competitivo universo masculino, aprendi rápido o perigo de afundar nas dependências da casa relacionadas à alimentação e à limpeza. O pavor de ser engolida pela mulherzinha de antanho tornou breve e esporádica minha relação com a cozinha e a área de serviço.  Pedaços assustadores da casa que carregam o ranço da desvalia feminina. Lotados de preconceitos. Lugares do trabalho invisível. Busco encontrar neles, surpreendentemente, o meu conforto. Livro-me da empregada e me coloco em missão de reconhecimento, avanço sobre os armários da cozinha e mergulho em tapewares e garrafas térmicas e xícaras sem asa e pacotes de farinha vencidos. Descubro, entocados no fundo dos armários, os sinais do meu abandono, da entrega absoluta da casa às empregadas, restos e pedaços de comida e objetos inúteis, rastros da minha ausência. Mapeio a localização das coisas: a caixa de velas, as pilhas, as rolhas, os araminhos de amarrar o saco de pão, os pregadores de roupa, miudezas estratégicas do mundo doméstico. Quero sabê-los. Descubro dois cabos de panela bambos e invisto com uma chave de fenda em seus parafusos. Agora são minhas panelas que voltam direitinhas para a gaveta. Abro a geladeira e encaro suas prateleiras em busca do almoço. Ovos e legumes me olham de lá cheios de mistério. Peço socorro a nossas avós no céu. Elas que além de limpar, lavar, passar, cozinhar, ainda costuravam a roupa dos filhos e faziam o pão. Heroínas anônimas. Suplico um cadinho de luz para minha dona de casa. Me acodem com uma ideia de molho de macarrão. Encho um cálice de vinho e canto enquanto amasso os tomates contra o alho dourado.  Barriga encostada no fogão, sinto o prazer de esquentar o ventre. Domingo não tem empregada, é dia de eu me haver com este personagem insuspeito que mora em mim, mulher da casa, antiga, descartada, amordaçada em mim. Me deixar gostar dela. Dar ré na evolução até um ponto mais confortável para o meu feminino. Domingo não tem salto alto, não tem notebook, não tem reunião nem agenda, não tem feed back nem follow up, descanso disfarçada sob um avental de plástico. 
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Comentários

  1. Perfeito ! A retomada da nossa cozinha / área de serviço pode ser lúdica . Linda , como suas palavras .

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    Respostas
    1. Adri, e o pior é que tô adorando! KKKK!

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  2. Anônimo7/2/12 11:28

    Faca com amor que vc vera como e delicioso cozinhar para quem se ama.Se vc quiser te ensino a fazer a caipirinha de maracujá rsrsrd

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  3. DAQUI DO TRIBUNAL NÃO CONSIGO TE RESPONDER OU COMENTAR EM SEU BLOG, MAS VOU TE DIZER UMA COISA, NÃO TEM COISA MELHOR DO QUE FAZER CAFÉ DE COADOR AOS FINAIS DE SEMANA, SAIR ANTES DE TODO MUNDO PRÁ COMPRAR PÃO QUENTINHO E TOMAR COM SEU CAFÉ COM LEITE E DEPOIS PREPARAR NEM QUE SEJA UM BIFE E SALADA NO ALMOÇO....
    AÍ VEM A FILHA E DIZ: MAMÃE SEU ARROZ É O MELHOR ARROZ DO MUNDO!!!!!!!!!!!!
    ELA JÁ SABE QUE TUDO É FEITO COM AMOR SAI MAIS GOSTOSO....
    O MAIS LEGAL É QUANDO ELA PÕE O BANQUINHO PRÁ SENTAR AO MEU LADO E VAI ME PASSANDO OS INGREDIENTES!!!!
    JÁ TIVE ESSA SUA SENSAÇÃO MAS NUNCA SOUBE DESCREVÊ-LA TÃO BEM COMO VC DESCREVEU.....!!!!!!!!!!!!!
    É HORRÍVEL, É PENOSO, VER COMO DESTROEM AS NOSSAS COISAS....
    LÁ EM CASA, TODOS OS TUPEWARES TEM QUE FICAR EMPILHADOS COM TAMPAS E TODAS AS TAMPAS VIRADAS PARA O MESMO LADO, É UMA PEQUENA BOBAGEM MAS FAZ MUITA DIFERENÇA NO ESPAÇO E NO VISUAL.
    NÃO DEIXO EMPILHAR NADA, SENÃO VIRA UMA FAVELA.
    A MESMA COISA COM AS TAMPAS DAS PANELAS, CADA UMA COM A SUA!!!!!!!!!!!
    VÁ EM FRENTE E SE QUISER, TE PASSO UMAS RECEITAS MUITO, MAS MUITO FÁCEIS E QUE OS TRÊS OU PELO MENOS AS DUAS PODEM TE AUXILIAR!!!!!!!!!!!
    BEIJOCAS

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