Pula

Para criar é preciso descriar. Desmanchar o sólido do cotidiano. Colocar uma bomba no café da manhã, ou uma flor. Para criar é preciso jogar fora. Gente apegada não visita as camadas profundas do criativo. Aquela grande ideia pode ser uma boia enrolada nos tornozelos. Criar é buscar a pérola na fenda abissal do oceano. Criar é expor-se, resvalar no ridículo sem pudor. Estar aberto ao ridículo. É deixar sair: o banal, o chavão, a rima pobre, a obviedade. Suportá-los. Criar é dar conta do seu ruim.  Encará-lo. Desmistificá-lo. Na mesma fila das lâmpadas queimadas está a gestalt luminosa. Criar é ter paciência com o lago estático do inconsciente. Esperar o grande peixe morder. Criar é exercício. É engrossar a musculatura da imaginação e da técnica diariamente. Provocar o universo, cutucar a mesmice porque ela está ali feito casca escondendo o novo. O mundo urge criativos. Mas o mundo roda feito liquidificador de almas numa mesma toada monótona. E rodamos juntos em baias padronizadas com a missão da criatividade nas costas. E eu te digo: criar é destruir a ordem do mundo. É ter prazer no subversivo ainda que por alguns segundos. E está magicamente acessível. Então levanta já daí e vai lá fora. E pula. Bem alto. Melhor ainda se os amigos de baia puderem ver. Ou pula sozinho diante de si mesmo. Pula apenas, vira sapo. E sente o prazer e as consequências de descriar-se.
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