Operária

Sou culpada por cada linha que escrevo. Bem no fundo, debaixo de todas as capas e véus de autora que me disfarçam, esconde-se a operária que precisa carregar sacos de batata no porto ou abastecer diariamente uma caldeira com carvão para sentir-se digna. Eu carrego bem talhados em minhas costas os mandamentos do proletariado onde nasci. Bíblia do eterno sacrifício, da conquista pela dor, da necessidade do esforço, preferencialmente o físico. Ostento, feito tiara de ouro, minha coroa de espinhos de mártir trabalhadora. Gosto de reclamar em voz alta que virei a noite na labuta ou liquidei mais um final de semana em nome do ofício. Na lida do quebra-pedra sinto-me em paz, irmã dos meus próximos. Mas, se me enfio no ócio salutar às mentes criativas, se me entrego uma manhã inteira à contemplação da paisagem para dela extrair um poema, corro feito louca dali para o açoite. Eu engrosso a horda dos inimigos sutis dos orgasmos existenciais. Gente que olha a fartura com preconceito e acha que a pobreza lhes confere assim uma aura de profundidade. Condicionados para a escassez: se produzem fartura em suas vidas, guardam, não se permitem desfrutá-la. Eu aprendi a julgar o artista em mim culpado por sua relação direta e indissociável com o prazer. Sim, ele é o maldito dionisíaco a corromper o universo da produtividade onde o ser humano se esfola diariamente em busca de resultado. Trato meu artista com o ranço de tristeza dos pais classe média que ouvem do filho que ele quer ser ator. E assim, me incorporo solicita à boiada dos que assistem calados as verbas para a cultura irem de 0,2 para 0,06 por cento. E assinto  com o político que acha artista bonitinho feito foca e até admite que temos lá nossa função decorativa. Assim escrevo meus textos: arrastando asas coloridas de borboleta feitas de chumbo. Levo no bolso uma chave rara de abrir universos mas escolho tomar parte ao longo do aríete de derrubar porta de castelo. E chega de escrita inútil que a caldeira precisa arder. 
*
*
*

Comentários

  1. Nannuska,
    Viva sua luta de classes. E que o seu artista vença porque é ele que vem me sacudir dessa pasmaceira toda. Você é necessária!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Não tem conta Google? Assine, clique em ANÔNIMO e em PUBLICAR. É fácil! Bjooo.

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Para o meu fantasma

Estranha Paz