Pular para o conteúdo principal

Aqui Jaz

Hoje, de uma pedra, olhei o mar batendo no horizonte. Montão de água esparramada. Em silêncio, encarapitada na pedra, deixei o mar engolir minha cabeça. Eu tenho desde criança esse sonho: ser engolida pela natureza. Birutice. Nos momento de cansaço me controlo para não deitar na terra e me cobrir de folhas secas. Cheirar a terra feito cocaína. Eu sou tomada por estes delírios de fusão com o planeta. Só contemplá-lo, já me recodifica. Ficar olhando a copa da árvore no contra luz do sol, a dança dos galhos no vento, folhinha que despregou de lá e veio rodando forrar o chão. Pronto, o cordão umbilical entre o eu e a árvore foi reestabelecido e converso com ela sem palavras. Sim, os loucos falam com árvores e bichos e sabem que o mar está vivo, e nos observa. O mar olha a mulher de preto com sua mochila nas costas aboletada na pedra e sente saudades dela.   Sabe que está fugida do mundo civilizado e logo irá mergulhar no resort atrás de si rumo ao seu trabalho. É o que ela faz. O que faço. Apresso-me em direção às minhas funções sociais, não me levaram ali para ficar vendo mar. O caminho é um corredor entre as árvores, um abraço verde. Corro para a plenária onde um evento borbulha. Um dia eu volto de vez para ficar e me dissolvo nisto. Terei morrido, pensarão, mas eu sei que estarei lá. 
*
*
*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Amar não basta. Gravo a mensagem no whatsapp e envio para a amiga. É uma faca no estômago, eu sei. Tantas pessoas se separam se amando. Eu mesma já fui embora arrastando o coração pelos cabelos umas duas vezes. Doloroso demais. Cruel demais. Mas acontece de as possibilidades se esgotarem, de fato. Acontece de precisarmos estar sós naquele trecho da estrada. Acontecem estradas diferentes com interseções que nunca mais se repetem.  Acontece de a dor ficar insuportável. E então a morte se impõe, mas nem sempre a aceitamos de pronto. Acontece de, primeiro, tentarmos blefar o adeus. Vivenciar o fim com a certeza de que o navio não deixou o porto. Ir sem ir. Começa o vai e vem sofrido: separa e uiva de dor, volta e uiva de prazer. Nada como voltar do fim: uma bomba de serotonina. Mas a volta não é inteira, não é a que planejávamos, e logo a falta se apresenta, e a dor retoma o palco e ensaia um novo adeus. Amar não basta, amiga. É preciso amar-se junto. Senão o outro vira eterna ameaça de …

Para o meu fantasma

Adeus e obrigada. Foi bom girar nos seus braços nesta valsa inesperada. Obrigada pela Duquesa, pela Gata Borralheira, pelo pai e pelas crianças minhas que você nem sabe que me deu. Obrigada pelo espelho onde pude pentear a minha vaidade, pelo lugar de destaque na sua corte que pude chamar de pouco. Foi doloroso ver meu tirano no seu, mas foi como um parto. Dor valiosa de onde nasci novamente. Obrigada por tudo que você nem sabe que foi. Por ter ido tão fundo em mim sem nunca ter deixado a superfície das suas vontades. Por ter me notado. Por ter chamado meu nome. Por ter evitado o meu mergulho e me devolvido a mim. Coloco este agradecimento e este adeus numa garrafa e lanço no rio de nome universo. Incógnita, me despeço. Remeto este adeus agradecido à sua alma que há de me escutar numa dimensão distante. Adeus e obrigada pelas provocações de menino, por acordar o meu menino, por dançar comigo esta dança breve, desatenta, mas necessária. Verdadeiramente, obrigada, segue seu caminho. Ab…

Estranha Paz

Ah, esta paz de me sentir só que dá até medo. Estou sentada no restaurante, indecentemente só. Não pertenço a nenhum quadro. Nenhuma moldura me contém. Não sou sua mãe, sua esposa, sua amante, sua amiga. Sou folha seca na ventania lindamente desgovernada. Que medo de enlouquecer e sair vagando pela rua. Largar o carro. Ir andando até uma rodoviária. Comprar uma passagem para o nada. Virar pessoa desaparecida, forasteira, perder as referências, escafeder, sumir do mapa. Todos viajaram. Faz uns dias que estou só. Devolvida à minha pureza sem demandas. Sem idade, sem rugas, sem pressa, sem expectativas. Este prazer na solidão que me assusta. Só eu no restaurante atrás de uma caneca de chope. Um cara no piano tocando jazz. E não falta nada. Meu Deus, preciso confessar e é terrível: não falta absolutamente nada.  * * *