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Jacarés e jibóias

Corro. Melhor na esteira porque ela não me deixa mentir. Ela não negocia, não ralenta. Suo mais na esteira do que entregue à minha própria força de vontade pelas ruas. Calibro para seis quilômetros por hora. E corro. Os primeiros cinco minutos são em direção à lava fumegante do Krakatoa. A morte. O que é que eu estou fazendo ali?? Tô looouca??? Que se dane a silhueta, estou com quarenta e quatro, eu mereço ser gorda, eu quero ser gorda, pronto. Sinto-me com oito toneladas dando pernadas na maldita esteira. Vou parar, é isso, vou parar agora, já... não!... mais um minuto... só mais um. E, de um em um, supero a barreira dos cinco. Tempo para o cérebro me aplicar uma dose de endorfina e começar a ser bom. Quase posso sentir os goles de endorfina sempre que a corrida vai ficando pesada ou sem sentido. E corro  anestesiada. O cansaço vai virando uma leve euforia e as ideias boas brotam dos cafundós da mente. Bendita química. Quero chegar aos trinta minutos mas me peço apenas mais cinco. Vou me distraindo de mim e da minha vontade de encostar num barranco e ver a vida passar.  É verdade eu não quero correr, não eu não quero emagrecer, não, obrigada, eu não quero. Eu quero comer e dormir, em qualquer ordem. Naturalmente. Como um jacaré, um urso, uma jibóia. Nunca vi um jacaré na academia. Eles comem um antílope inteiro e eu só comi uma porção a mais de arroz. Maldita civilização que faz engordar e ter que emagrecer. Mais cinco minutos, já estou chegando nos vinte. Ai que preguiça, cadê a endorfina?? Não posso parar, nem diminuir o ritmo da esteira, é uma questão de honra, sou um ser humano e não uma ratazana. Imagino a fita de chegada lá na frente, a multidão me aguardando, sim, eu lidero a maratona, eu sou maravilhosa, eu sou magra! Corro mais cinco minutos sem sair do lugar empurrada pela imaginação. A mente me oferece a possibilidade de uma maracutaia: vinte e cinco minutos está ótimo. Cem quilocalorias já foram para o brejo. Fico com as outras quarenta e pronto. E depois: não tem ninguém vendo. Sou só eu comigo mesma e esta esteira cretina. Isso: vou desligá-la assim que soar o vigésimo sexto minuto. O que é aquilo? Um enorme Grilo Falante do Pinóquio aparece lá na minha frente me olhando decepcionado. Que meleca. Corro. Corro. Corro. Trinta minutos, enfim. O grilo me dá um tapinha nas costas suadas. E eu posso esquecer que existem esteiras até amanhã. 
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