Sinto, logo existo

Penso demais. Penso até acreditar que sou aquela que pensa. Descartes me perdoe: sou mais. O pensar em excesso polui minha existência com achismos, mágoas, paranoias, delírios de grandeza que vêm dela, a senhora mente. Ela reina na existência humana e fabrica incessantemente pensamentos para controlar o mundo: teorias e verdades. Fulano é assim e assado, preciso urgentemente fazer isso, mamãe fez aquilo comigo. Enquanto vagamos hipnotizados pela mente no mundo dos pensamentos, a vida presente se esvai. Não vejo a vida acontecer no aqui e agora: o calor morno do meu corpo, o vento balançando de leve as folhinhas do flamboyant lá fora, um passarinho cantando no caos urbano, o ar frio expandindo meus pulmões, sensação de estar vivo. Nada. Vagamos no passado ou no futuro pensando. É como uma máquina que nos controla e nos ilude. E ergue castelos e barreiras em torno do ego, guarda-costas feroz da individualidade. E passamos a acreditar que o pensado é o real. Não é. O pensado passa pelo filtro dos nossos medos, das nossas defesas, da nossa raiva, está quase sempre contaminado.  Amortece em nós um saber maior que temos, que parece vir do nada e que a mente não consegue compreender com suas medidas. Saber que vem da rede infinita que formamos com todos os seres e coisas. Saber que se sente. Às vezes chamado de intuição. E segue obsessivo, o pensamento, pensando até porcarias sem tamanho, claramente doentias, que chegam a assustar. Então é demais, basta: mando o pensamento calar a boca por alguns segundos. Simples, assim. Nem quero levá-lo à terapia para entender suas razões, suas mensagens deformadas. Mando apenas que se cale, que vá assombrar porco, como dizia minha Vó.  O pensamento viciado insiste mais algumas vezes, já esvaziado do sentimento que não dei a ele. E penso sem acreditar no pensado, rindo de mim mesma e da minha coleção de pensamentos bobocas. Então ele vai murchando e finalmente some por debaixo da porta que nem fantasma. E, por alguns instantes, tudo fica luminosamente vazio, branco, cor que atribuímos à paz.
*
*
*

Comentários

  1. É. é isso!
    Tô ficando redundante dizendo que os teus textos são muito, mas muito bons, né?
    Penso, logo você existe intensa!
    Avante!
    Beijo

    ResponderExcluir
  2. Nanna!
    Minha mente é eu estamos exatamente como seu texto. Só não estou conseguindo chegar à Paz! :(
    Bjs

    ResponderExcluir
  3. Chico Neto6/4/11 16:43

    Aqui, como é qe vc consegue entrar dentro de mim e descobrir meus grilos? Penso um monte de seus pensamentos também... e já que pensamos um monte de coisas parecidas, que tal um pensamento coletivo onde a gente se despensa sozinho e se repensa junto!
    Bjs

    ResponderExcluir
  4. Anônimo6/4/11 19:41

    eu quero a paz também! Incrível como esse texto poderia facilmente ter nascido em mim...

    ResponderExcluir
  5. Adriana Aleixo10/4/11 23:32

    Realmente ás vezes é melhor abstrair o pensamento. É melhor sentir...

    ResponderExcluir
  6. Prezada Nanna,

    Sóóciologia é a resposta.

    Bj.

    Mané

    ResponderExcluir
  7. Nossa, agora chega, vc sou eu! Nunca li tantas coisas na sequencia que eu mesma poderia ter escrito!

    Fora os pensamentos sobre cachorros e terapetuas, parecemos compartilhar todos os outros... vou parar pq cansei de ter que comentar todos os textos!

    Mas vou voltar!

    Espero que não me ache uma louca, é o blofs lunf da identificação num mundo cheio de gente que (nos meus devaneios de grandeza acho) não tem nada de interessante a compartilhar!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Não tem conta Google? Assine, clique em ANÔNIMO e em PUBLICAR. É fácil! Bjooo.

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Para o meu fantasma

Estranha Paz