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Re-Ligada

Quanto mais eu vivo, menos gosto de religião.  Entenda-se como religião aquele portal que eu abri para falar com Deus e que me faz um ser melhor que o outro e me dá poder. Detesto. Não falo de espiritualidade. Estou longe do ateísmo. Espiritualidade é outra coisa, não faz de ninguém "iluminado", superior. Religião neste mundão de nosso Deus tem sido uma máquina de dizer que o outro é diferente, inferior, equivocado. Tanto faz se é porque ele usa decote ou porque come carne. Honestamente, tanto faz, porque toda interdição religiosa é ao mesmo tempo ordenadora e estúpida. Interdição religiosa divide o mundo entre os que fazem e os que não fazem, aglutina mas segrega. Minha turma, os equivocados. A interdição ordenadora diz "não matarás". Por que senão meu vizinho humano, também filho de Deus, poderia me enfiar a faca num momento de irritação.  E não estou falando de cortar o pescoço de uma galinha, ele cortaria o meu.  E ele o faria, porque nós, seres humanos não somos um bicho bonitinho. Somos bonitinhos no espelho da cultura, depois de muita educação e um bocado de religião. Bacana. Interdição ordenadora. Mas o problema é que o ser humano ordenado tem pendor para subir no banquinho e se achar um tantinho mais perto de Deus porque segue as regras divinas. Ele foi incumbido de apontar o caminho para o paraíso. Às vezes acintosamente, gritando no meio da praça,  e noutras com uma sutileza assustadora. Nas mãos ele tem os ensinamentos exclusivíssimos e a interdição, é a base religiosa. Cheio de boas intenções, claro. "Não matarás" certo? Alguém discute? Pois eu digo, matarás também se for preciso, se chegar o seu limite, porque como bicho és preparado para matar e até um predador. Mora em você o prazer da fera quando vence a caça. Você meu amigo, faminto, saliva diante do churrasco.  Na morte do bicho, assim como do pé de mandioca, está o prazer da sua sobrevivência. Tem coisa mais cruel que arrancar a raiz de uma planta e ver suas folhinhas murcharem até a morte? Mas é via de mão dupla: na sua morte humana está o prazer da sobrevivência do planeta. Os micro-organismos te matam sem pena e os vermes te comem, e graças a Deus, adubam o solo para as mandiocas. É cíclico, natural e se chama vida.  Ah, mas você é muito chique para virar adubo, você será cremado e lançado sobre um rio.  Você é elevado. Você habita o lugar sagrado, que você diz, é ali ao seu redor, e recebe as mensagens do altíssimo que resolveu botar ordem no galinheiro humano. Só que a mensagem divina atravessa um filtro judeu, muçulmano, cristão, hinduísta e para os escolhidos de cá chega não use decote, para os escolhidos de lá, não coma porco, para os escolhidos do meio,  não coma vaca... Mas  todos, é claro, seguem a favor da compaixão, do amor ao próximo, do respeito universal, da harmonia entre os povos. Que só não acontece porque um filho da puta desgraçado, que  precisa em nome de algum Deus mudar, teima em sair à rua usando um decote. Daí para vamos matá-lo, é um pulo. Amém.
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Comentários

  1. Concordo. E lembro a piada do comerciante de bebidas que faturava uma grana preta vendendo caixas e mais caixas de uísque, conhaque, absinto, pinga, saquê, vinho, cerveja e vodca para o Céu. E do Inferno, só recebia uns pedidos pequenos merreca (se comparados aos do Paraíso). Encafifado, um dia foi tirar satisfações com o Diabo sobre o baixo consumo de alcool, afinal, que raio de Inferno era aquele?
    Entre resignação e desânimo, o Diabo respondeu: É que aqui, só quem bebe sou eu mais uma meia dúzia..., o resto é tudo evangélico!
    Ainda no tema: recomendo um filme bom e que passou despercebido: A Chave do Sucesso/ The Big (ou Great?) Kahounna. Com Kevin Spaacey e Danny De Vito, e ótimos diálogos.
    Pergunta: Por que ao tomar um frango ou perder um gol, jogador de futebol também não aponta pro Céu?
    Bj.
    Mané

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