Guarda-Chuva

Sim, tomamos o antidepressivo. Cada vez mais de nós: tomamos. Porque não podemos nos dar ao luxo de sermos naturais. Somos animais bastante adulterados pela civilização e evolução tem seu preço. Basta um breve mergulho no trânsito, no trem lotado, no hipermercado, na fila de um banco, para encharcar-nos da química ruim. Isto sem falar no atrito inevitável com o outro e sua peleja.  O animal em nós está acuado. Quer fugir. A mente não deixa. Somos empurrados diariamente para tantos desprazeres que o organismo humano se deprime. É como se dissesse “não vou”, “não quero”. Mas vai, empurrado.  A alminha... ai a alminha, espremida na agenda, se retira. E desanimamos. Mas não podemos parar, senão a manada passa por cima. Então, tomamos o antidepressivo. Porventura não usaríamos o guarda-chuva quando chove? Não seria mais natural molharmo-nos?  A evolução cria remédios para seus efeitos colaterais e os tomamos. Vamos amortecendo aquelas partes da nossa superfície para as quais este mundo é insuportável. Nos damos o direito a joelheiras químicas quando o tombo é parte do pacote. Quisera eu ter a coragem de romper com tudo que me oprime e restaurar em minha vida uma naturalidade perdida sei lá eu em que pedaço da infância, ou talvez antes, em tempos remotos incivilizados. Quisera eu agarrar minha integridade físico-psico-espiritual e operar na minha existência a transformação assustadora que a maldita consciência pede. Consciência, armarinho da dor.  Não precisaria de antidepressivo... nem de roupas, nem de carro, nem de casamento, nem de emprego, nem de filtro solar. Salto mais que gigante, mesmo para quem se dissecou em tantas terapias. Dou o braço à civilização, acerto o passo com a manada e engulo meu antidepressivo.  Não fico milagrosamente feliz. Mas deixo de ficar inutilmente infeliz.  A química se reequilibra e a civilização segue.
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Comentários

  1. Perfeito para uma segundona dessa dona Safo!!! Bórasimbóra!!!!! Bj Henrique

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  2. Prezada Nana,
    Algumas dúzias de luas atrás, tomei ciência da verdade profunda contida numa seqüência de tirinhas de Charlie Brown. Charlie divaga com Linus a respeito de sua depressão, sobre a importância de assumir uma postura pessoal correta ante aos problemas e aos fracassos. Linus expõe sua filosofia de vida : "Nenhum problema é tão grande ou tão terrível que não possamos fugir dele!".
    Na seqüência, indignado, Charlie Brown, lhe pergunta, "aonde iríamos parar se todos resolvessem fugir dos seus problemas, hein? Hein? Hein?!" Linus ficava imóvel e pensativo durante todo um quadrinho, para depois arrematar: "Pelo menos eu acho que estaríamos todos indo na mesma direção!"

    Desafortunadamente, a vida às vezes tem disso, fica emocionante como um bingo sem prêmio.

    Será que foi daí que Julio Bressane tirou o "Matou a Família e foi ao Cinema"? Ou que o Herzog tirou o final de Stroszeck (sei lá como se escreve)?

    Mané

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  3. Nanna, é isso aí, minha amiga, a civilização segue dopada, mas por trás da escrita da senhorita Safo, tem um clarão que teima em aparecer!
    Bj
    Davi - BH

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