Pular para o conteúdo principal

Merda Dita


Um amigo documentarista me veio com perguntas irrespondíveis sobre o amor. Documentaristas são seres que nos cutucam, e nos alvejam, e nos sojigam com perguntas, um saco. E o pior, eles empurram as perguntas contra o nosso conforto até que a gente escorra para fora da carapaça e fale qualquer merda. Às vezes uma verdade profunda que carregamos em nós pode ser uma merda sem tamanho.  Para os outros. E eu falei. Sugeri que toda mulher gosta de leve de um canalha. Minha nossa. Está lá gravado e eu conheço o sadismo dos documentaristas. Ele vai usar. Digamos que eu tenha tentado colocar a questão de algum ponto de vista antropológico-psico-cultural, digamos que eu tenha buscado justificar de alguma forma intelectualmente linda a minha declaração, mas nada impedirá que ele edite e deixe apenas a frase nua e crua e abjeta: sim, nós mulheres gostamos de um canalha de vez em quando. Um primitivo que nos arraste pelo cabelo, um macho troglodita que nos mande calar a boca. Um grosso, estúpido, que só quer nos comer sem palavras. Pronto, estou morta. Ninguém mais me atenderá ao telefone. Minhas amigas  irão abaixar os olhos decepcionadas, ou porque eu penso, ou porque eu disse. Talvez, se eu matasse o documentarista antes do mal consumado? Não posso. É meu amigo. Então resta tentar plantar aqui um pé de colete a prova de balas para o futuro. Vamos ao canalha. Ele não é o covarde, o misógino que bate. Mas é agressivo. Seu forte não é a civilidade, é a virilidade. Ele é alfa, é dominante. Se ele te quer, não vai pedir licença, vai pegar, e passar no peito com força. Se não quer te soltar, não solta. Pode berrar. Aquela sua conversa mole de meus sentimentos, você tem medo, você está projetando, seu egoísta... Esquece. Para ele soa como snurf-smug-grofsk-xubilubis.  Uma boca mexendo inútil que ele vai fazer calar com métodos pouco ortodoxos. Na cama ele é o bicho. E na sala também. Ele deixa suas amigas indignadas. Sim elas leram "O Pequeno Príncipe". E você jura, mais uma vez, que foi a última vez, até que ele te cerca no banheiro feminino e te empurra contra o azulejo. E invariavelmente, quando ele sai te deixando em companhia das suas pernas bambas, você chora.  E xinga ele de canalha. E corre pra terapia pra falar dele. Mas aí aparece a salvação. Sim, aquele amigo de uma amiga que é uma gracinha, que é super bonzinho, um amorzinho de pessoa e tem cara de ursinho. Sim, ele te quer. E você anotou o telefone dele num papelzinho, sim num papelzinho bem pequenininho que você enfiou em algum lugarzinho, minha nossa, onde foi? E você vasculha a bolsa, o carro, o quarto. E fica de ligar pra amiga pra conseguir o número de novo. Mas agora não, que você tem um milhão de coisas pra fazer. Amanhã. Semana que vem. Na encarnação que entra. E aí o canalha liga. Quer te comer, o filho da puta, só te comer. E você veste sua melhor calcinha.  E eu pergunto ao crápula, ao pulha do documentarista que me pegou distraída: seu documentário não era sobre amor???
*
*
*

Comentários

  1. Isso explica muita coisa...

    ResponderExcluir
  2. Vou amanhã me matricular no ju jitsu...

    ResponderExcluir
  3. Adorei o novo layout do e-mail!
    Seus textos são show! Parabéns!

    ResponderExcluir
  4. Nannaaaaaa ... dá pra vc mandar o telefone do TAL canalha, please!????

    ResponderExcluir
  5. Isso que é mulher, não aquela bunda-mole que caía no primeiro bofetão...

    ResponderExcluir
  6. Sim, sim, os canalhas! Curam esse nosso desejo babaca de mulher moderna, de ser mais macho que um macho! O foda é qdo a gente acha que precisa de terapia intensiva, e resolve se casar com um...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Não tem conta Google? Assine, clique em ANÔNIMO e em PUBLICAR. É fácil! Bjooo.

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Amar não basta. Gravo a mensagem no whatsapp e envio para a amiga. É uma faca no estômago, eu sei. Tantas pessoas se separam se amando. Eu mesma já fui embora arrastando o coração pelos cabelos umas duas vezes. Doloroso demais. Cruel demais. Mas acontece de as possibilidades se esgotarem, de fato. Acontece de precisarmos estar sós naquele trecho da estrada. Acontecem estradas diferentes com interseções que nunca mais se repetem.  Acontece de a dor ficar insuportável. E então a morte se impõe, mas nem sempre a aceitamos de pronto. Acontece de, primeiro, tentarmos blefar o adeus. Vivenciar o fim com a certeza de que o navio não deixou o porto. Ir sem ir. Começa o vai e vem sofrido: separa e uiva de dor, volta e uiva de prazer. Nada como voltar do fim: uma bomba de serotonina. Mas a volta não é inteira, não é a que planejávamos, e logo a falta se apresenta, e a dor retoma o palco e ensaia um novo adeus. Amar não basta, amiga. É preciso amar-se junto. Senão o outro vira eterna ameaça de …

Estranha Paz

Ah, esta paz de me sentir só que dá até medo. Estou sentada no restaurante, indecentemente só. Não pertenço a nenhum quadro. Nenhuma moldura me contém. Não sou sua mãe, sua esposa, sua amante, sua amiga. Sou folha seca na ventania lindamente desgovernada. Que medo de enlouquecer e sair vagando pela rua. Largar o carro. Ir andando até uma rodoviária. Comprar uma passagem para o nada. Virar pessoa desaparecida, forasteira, perder as referências, escafeder, sumir do mapa. Todos viajaram. Faz uns dias que estou só. Devolvida à minha pureza sem demandas. Sem idade, sem rugas, sem pressa, sem expectativas. Este prazer na solidão que me assusta. Só eu no restaurante atrás de uma caneca de chope. Um cara no piano tocando jazz. E não falta nada. Meu Deus, preciso confessar e é terrível: não falta absolutamente nada.  * * *

O fim da geração jeitinho

É difícil criticar um quadro estando dentro dele. Mas, vamos lá: eu pertenço à geração jeitinho. A uma das muitas gerações jeitinho. Fui paulatinamente estragada por um excesso aprendido de condescendência. Tenho amigos médicos, dentistas, motoristas de ônibus, publicitários, atores... nascidos e criados na cultura do jeitinho. Crescidos na catequese implacável do jeito correto de fazer as coisas, mas ouvindo, lá no fundo, o canto da sereia do jeitinho. Em caso de deslize extremo, complexo, ele estaria lá, sempre à mão e eu sempre soube: o jeitinho. Pra tudo existe um: eu me tranquilizava. O “não” é um troço elástico, manipulável. Depende de quem eu sou, quem eu conheço, da minha patente, de quanto eu tenho, do meu cargo. Sou da geração que endossa privilégios, focada em me tornar um dos privilegiados e não em acabar com eles. Tentando um emprego público para me acomodar, não para servir ao público. Olhando o serviço público com a lente distorcida do privilégio. O salário caiu na con…