Gente Invisível - O Gari

A rua é serpente saracoteando comigo nas costas. Passo minha vassoura no dorso dela, como um carinho.  E ela se deita no mundão. Varre, varre, varre a sujeira. A rua gosta. Seu Porcão passou de carro importado e tacou um bolinho de papel na minha rua. Gente desnecessária. Ah, se eu fosse polícia, encostava meu berro nas fuças do tipo e mandava: come esse papel seu filho de uma Taenia.  Qual o quê, sou pessoa invisível, empurrador de cisco.  Mas tenho o meu saber que ninguém sabe. Que rua tem cotovelo e é onde o cisco se junta. Você sabe? Sabe nada. Que vento é um bicho traiçoeiro que fica a espreita da gente fazer um montinho de cisco pra soprar. Sabia? Sabia não. Eu sei. Vou debaixo desse macacão faz anos. Renovando o limpo que não dura. Minha mulher não gosta de faxina, diz que é serviço inútil.  Gente é fábrica de sujeira. Eu me realizo de ver a guia limpinha, de refazer o bem feito. No mais, na rua, me acho livre. Se o outro não passa, eu passo. É variação eterna de tudo: rua é ebulição. Gente que sobe e desce e entra e sai, fabricando o dia. Eu tocando meu cisco, sou testemunha de tudo. Não deve ser pouco isso. Não deve não.
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