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Cinco Letras

Uma amiga me contou que somos sortudas pois em nós a gordura se acumula nas coxas e na bunda. Uma puta sorte. Muito pior quando se junta perto dos órgãos vitais. Que bacana, pensei, e vim pra casa tentando me consolar com a descoberta. Ser uma tanajura feliz. Mas nada. Meu órgão vital para estes assuntos é cinzento e cheio de dobrinhas e mora dentro da minha caixa craniana. Ele pensa. E está em choque diário e direto com minha bunda, não importa a distância que os separe. Bunda que não cabe mais naquela calça que o cérebro teima em guardar como uma forma sutil de tortura. Ela, a amiga, abriu o livro da dieta de pontos e calculamos juntas, no estacionamento da padaria, nossa massa corporal. A tabela não teve pena: eu estou com sobrepeso e ela gorda. Cinco balas de revólver no peito ardem menos que estas cinco letras. A amiga deixou-me com minha bunda na porta de casa e saiu desesperada atrás de óleo de cartamo. Dizem que faz milagres contra a gordura localizada. Amanhã voltaremos a correr, entraremos numa nova dieta, esconjuraremos os carboidratos e a carne de porco, tudo será abençoadamente integral, nadaremos em oceanos de alfaces, rúculas e agrião (com pouco azeite!). Nos dedicaremos obstinadamente, apavoradas pelas cinco letrinhas... até que uma distração, uma quebra de rotina, uma tristeza, ou mesmo o imponderável nos atropele com uma imensa barra de chocolate. Prazer simples, instantãneo e acessível num cotidiano tão árido. Anestesia calórica em barra para nossos rombos da alma. E mais uma gordurinha súbita corra ligeira, no caso da sortuda aqui, para a boa e velha bunda.
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Comentários

  1. Tem uma ótima receita, o nome já é bem sugestivo: ração humana.

    Sempre me falavam, nunca acreditei.

    A caminho dos 30 (40...), você vai ficando mais interessante, mais madura, mais mulher, e muitas fichas vão caindo... A pena é que não somente as fichas caem. O esforço pra manter o bumbum durinho, as pernas torneadas e a barriguinha sarada se multiplica numa velocidade cruel.

    Por um momento desejei que as fichas não caíssem.

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