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Tenham Filhos


Eu que era moderna, eu que era independente, eu que tinha projetos, planejamentos estratégicos, orçamento programado, eu que ia ser uma grande profissional de alguma coisa, eu que ia viajar pelo mundo, que era um eu imenso cheio de coisinhas para fazer onde não cabia mais nada, de repente, recebi na minha barriga três minúsculos seres que há um ano e quatro mêses só fazem crescer... Não é verdade, eles também fazem chorar, fazem pedir colo, fazem sujar mais de 20 fraldas por dia, fazem tomar baldes de leite, fazem ficar gripados e pegar viroses esquisitas, fazem correr em direção aos buracos, aos vãos, às escadas, às portas abertas e já fazem movimentos decididos em direção ao cimo das mesas, aos vasos de porcelana, às plantas venenosas, às portas de armários que escondem milhares de perigos. Fazem precisar de coisas que precisam de dinheiro que nunca é pouco. Fazem devorar meu tempo com sua necessidade absurda de atenção e carinho. Fazem gritar quando querem alguma coisa totalmente alheios à virtude ainda não aprendida da paciência. E ainda fazem acordar à noite porque a famigerada chupeta fugiu-lhes da boca.
Outro dia uma amiga que ainda não é mãe veio perguntar-me se tinha valido a pena. Pensei na minha paz perdida, na minha certeza perdida, na minha silhueta perdida, no meu sono perdido, na minha estabilidade que foi para o espaço. Pensei com força em tudo isto apalpando minhas olheiras e meus músculos muito doloridos das costas. Olhei de rabo de olho para o medo que ganhei de não dar conta, ou de que uma destas criaturinhas se machuque ou evapore no ar. Olhei para os olhos da minha amiga ali meio assustada como se a maternidade fosse sim esta coisa estranha que nos ataca em algum momento da vida, que pede sacrifícios e concessões infinitas, que nos arranca de nós e joga na correnteza de um rio sem margens, sem barrancos... Olhei para ela olhando para mim e esperando a confirmação de tudo isto. Olhei para a maternidade dela confinada ao quartinho dos fundos porque com este mundo, com estes homens, com esta violência, com este custo de vida, com este emprego, não dá para ser mãe. E falei... Coisíssima nenhuma! Ser mãe é bico. Ser mãe é lindo. Ser mãe é incomparável. E ser pai também deve ser. E vale a pena ter filho, vale a pena tentar ter filho, vale a pena adotar criança, vale a pena ter cachorro que faz cocô no quintal, vale a pena ter plantas que pedem água e não deixam a gente viajar, vale a pena escolher um só e se casar, e alugar uma casa com jardim e grama pra ser aparada,
vale a pena ter laços que às vezes nos prendem e tiram da gente aquela ilusão de que éramos livres, de que éramos
soberanos, de que estávamos seguros.
Sim senhores, a todos que possam duvidar, aos que me viram deprimida e assustada, aos que me acompanham nesta peleja, quero dizer, para que a vida não se acostume numa comodidade pequena. Estou dura, cansada e não tenho idéia do que vem por aí, mas valeu a pena tudo, principalmente ser mãe de trigêmeos. Parafraseando o poeta: se a alma não é pequena sempre vale, se a alma é pequena está aí uma oportunidade maravilhosa de crescer. (Obs: Hoje meu trio já tem 4 anos.)
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