A ovelha

O amigo jogou a sua crença na mesa como se fosse um royal flush num jogo de poker: o homem é o lobo do homem. O amigo é uma autoridade acadêmica com muitos títulos, mas acima de tudo é alguém que amo. Tarefa ingrata contestar uma crença, principalmente quando o seu dono também é dono de tanto conhecimento. Saber demais pode ser a melhor armadilha para a ilusão de se estar certo. Mas a única possível e humilhante constatação a que retorno sempre é: seres humanos estão tragicamente submetidos a uma incerteza infinita. Karl Popper,  filósofo austríaco dizia: "quanto mais aprendemos, mais articulado se torna nosso conhecimento da própria ignorância.” Vivemos mergulhados na angústia devastadora do não saber eterno e nos resta fazer escolhas. “O homem é o lobo do homem” é uma escolha do meu amigo. Na mesa do restaurante, ela me empurra outra vez a olhar pra dentro, para o lobo e a ovelha que somos, todos, cada um de nós. Essencialmente bons, essencialmente maus? Corro desta vez para Einstein: "A experiência mais bonita que podemos ter é o mistério.” Não quero responder esta pergunta. Escolho uma terceira opção onde certamente existem infinitos caminhos que brotam no nada, de acordo com o inquiridor. E me respondo assim todos os dias: carrego o lobo e a ovelha, mas me sinto melhor morrendo como ovelha. E não é uma questão de bondade intrínseca. Simplesmente, não sou capaz de experimentar o prazer da vitória do lobo. Acho o lobo sapiens ridículo, patético, equivocado, pequeno. Humanos têm muito a aprender com os canídeos. Como não admirar as ovelhas humanas quando alcateia do parvo lobo bípede opera na lógica estúpida da auto extinção? O planeta em que o homem é o lobo do homem é uma realidade criada diariamente a partir de crenças humanas disfarçadas de certezas e onde ovelhas devem morrer de formas terríveis. É a realidade final? Mistério. Ignoramos. Então me permito criar outra realidade para nós: a de que existo temporariamente neste planeta escola para escolher minha ovelha. A cada crueldade, a cada desumanidade, em nome de nada, me tornar o lobo. E o mais surpreendente da história é que o amigo também coloca tijolos nesta realidade. Na prática, enquanto fenômeno existencial singular, contradiz com atitudes humanas generosas a própria premissa. Seria possível amá-lo de outra forma? Olho para ele, sentado à mesa na minha frente, com meus olhos de ovelha, que devem parecer ingênuos e inúteis. O que vejo? A dor alimentando uma crença que empodera a equivocada alcateia dos poderosos na sua ilusão do impossível: ser o lobo que venceu.  

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IMAGEM ACIMA: A obra que retrata uma ovelha cercada por lobos é a pintura "Agnus" (2022), criada pelo artista russo Konstantin Korobov. O Cordeiro: Simboliza Jesus Cristo ("Agnus Dei" ou Cordeiro de Deus), representando a inocência, a pureza e o sacrifício pacífico que não reage à violência do mundo.

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Comentários

  1. Talvez prefira ser ovelha. Com toda a certeza, dentre as opções, ovelha. Talvez não saiba nem ser lobo, com toda a certeza, não. Não carrega dentro de sí a capacidade de sê-lo com toda sua "impiedade" que aliás; perdoada diante a confissão. Não julgo nem a ovelha, nem os lobos e nem o amigo ... nem a mim. Nanci

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