Pular para o conteúdo principal

Estupidez

Em junho deste ano meus ouvidos adoeceram. Fartos da balbúrdia do mundo que alimento. Não lhes basta o silêncio solitário da meditação, querem o meu silêncio no tiroteio verbal cotidiano. O silêncio. Necessário. Urgente. Produzi-lo. Falar menos. E menos. Até nada. Desviciar-me em falar. Desviciar-me em comandos, em comentários. Receber as provocações do mundo e calar. Não reagir, não rebater, não repicar. Calar. Produzir silêncio para o conforto do mundo. Abrir mão do status de máquina afiada de pensar e cuspir palavras. Deixar de dar feedback, de dar fé, de depor. Calar meus achismos e, se possível, nem chegar a achar nada sobre esta sua escolha, esta sua atitude, este seu novo amor. Só balançar a cabeça de leve e aceitar. Muda. Parar de tentar remediar o mundo com minha fala. Parar de terapeutizar o mundo. Aquietar nas coisas como são, na beleza do que é. Dar tempo aos olhos de encontrar a beleza que jaz antes que o pensamento borre tudo com suas expectativas e a fala contamine a cena com meu eu. Abandonar os modelos, perceber a tolice das explicações diante do êxtase ensurdecedor das experiências. Calar as experiências. Livrar-me da ânsia doentia de compartilhá-las, de trazer o outro para mim. Parar de chamar o outro. Meu Deus! colocar um minúsculo silêncio na avalanche diária de propaganda que vende eu, que vende paz, que vende coisa, que vende céu.  Calar a boca e dentro dela tanta verdade volátil, tanta certeza fugidia, das quais o mundo não precisa. E não publicar este texto. Calar este texto. Ou publicá-lo com o nome de estupidez. 
*
*
*

Comentários

  1. que bom que publicou. Que a auto censura não prevaleça. Érima

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hahahaha. Érima eu carrego um bicho publicador que não sossega. Obrigada!

      Excluir
  2. O brilhante texto me fez lembrar dos "Três Macaquinhos Sábios" japoneses: Mizaru (o que não vê o mal), Kikazaru (o que não escuta o mal) e Iwazaru (o que não fala o mal) e juntos personificam o provérbio: "Não veja nenhum mal, não escute nenhum mal e não fale nenhum mal"... contraditório e estúpido eu ou qualquer um comentar algo, logo abaixo deste texto que aborda o "Calar-se"...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah se eu conhecesse os bonequinhos! Teria usado para ilustrar o post. Obrigada por vir sempre e me trazer mais! Beijos Tori.

      Excluir

Postar um comentário

Não tem conta Google? Assine, clique em ANÔNIMO e em PUBLICAR. É fácil! Bjooo.

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Amar não basta. Gravo a mensagem no whatsapp e envio para a amiga. É uma faca no estômago, eu sei. Tantas pessoas se separam se amando. Eu mesma já fui embora arrastando o coração pelos cabelos umas duas vezes. Doloroso demais. Cruel demais. Mas acontece de as possibilidades se esgotarem, de fato. Acontece de precisarmos estar sós naquele trecho da estrada. Acontecem estradas diferentes com interseções que nunca mais se repetem.  Acontece de a dor ficar insuportável. E então a morte se impõe, mas nem sempre a aceitamos de pronto. Acontece de, primeiro, tentarmos blefar o adeus. Vivenciar o fim com a certeza de que o navio não deixou o porto. Ir sem ir. Começa o vai e vem sofrido: separa e uiva de dor, volta e uiva de prazer. Nada como voltar do fim: uma bomba de serotonina. Mas a volta não é inteira, não é a que planejávamos, e logo a falta se apresenta, e a dor retoma o palco e ensaia um novo adeus. Amar não basta, amiga. É preciso amar-se junto. Senão o outro vira eterna ameaça de …

Para o meu fantasma

Adeus e obrigada. Foi bom girar nos seus braços nesta valsa inesperada. Obrigada pela Duquesa, pela Gata Borralheira, pelo pai e pelas crianças minhas que você nem sabe que me deu. Obrigada pelo espelho onde pude pentear a minha vaidade, pelo lugar de destaque na sua corte que pude chamar de pouco. Foi doloroso ver meu tirano no seu, mas foi como um parto. Dor valiosa de onde nasci novamente. Obrigada por tudo que você nem sabe que foi. Por ter ido tão fundo em mim sem nunca ter deixado a superfície das suas vontades. Por ter me notado. Por ter chamado meu nome. Por ter evitado o meu mergulho e me devolvido a mim. Coloco este agradecimento e este adeus numa garrafa e lanço no rio de nome universo. Incógnita, me despeço. Remeto este adeus agradecido à sua alma que há de me escutar numa dimensão distante. Adeus e obrigada pelas provocações de menino, por acordar o meu menino, por dançar comigo esta dança breve, desatenta, mas necessária. Verdadeiramente, obrigada, segue seu caminho. Ab…

Estranha Paz

Ah, esta paz de me sentir só que dá até medo. Estou sentada no restaurante, indecentemente só. Não pertenço a nenhum quadro. Nenhuma moldura me contém. Não sou sua mãe, sua esposa, sua amante, sua amiga. Sou folha seca na ventania lindamente desgovernada. Que medo de enlouquecer e sair vagando pela rua. Largar o carro. Ir andando até uma rodoviária. Comprar uma passagem para o nada. Virar pessoa desaparecida, forasteira, perder as referências, escafeder, sumir do mapa. Todos viajaram. Faz uns dias que estou só. Devolvida à minha pureza sem demandas. Sem idade, sem rugas, sem pressa, sem expectativas. Este prazer na solidão que me assusta. Só eu no restaurante atrás de uma caneca de chope. Um cara no piano tocando jazz. E não falta nada. Meu Deus, preciso confessar e é terrível: não falta absolutamente nada.  * * *