Estupidez

Em junho deste ano meus ouvidos adoeceram. Fartos da balbúrdia do mundo que alimento. Não lhes basta o silêncio solitário da meditação, querem o meu silêncio no tiroteio verbal cotidiano. O silêncio. Necessário. Urgente. Produzi-lo. Falar menos. E menos. Até nada. Desviciar-me em falar. Desviciar-me em comandos, em comentários. Receber as provocações do mundo e calar. Não reagir, não rebater, não repicar. Calar. Produzir silêncio para o conforto do mundo. Abrir mão do status de máquina afiada de pensar e cuspir palavras. Deixar de dar feedback, de dar fé, de depor. Calar meus achismos e, se possível, nem chegar a achar nada sobre esta sua escolha, esta sua atitude, este seu novo amor. Só balançar a cabeça de leve e aceitar. Muda. Parar de tentar remediar o mundo com minha fala. Parar de terapeutizar o mundo. Aquietar nas coisas como são, na beleza do que é. Dar tempo aos olhos de encontrar a beleza que jaz antes que o pensamento borre tudo com suas expectativas e a fala contamine a cena com meu eu. Abandonar os modelos, perceber a tolice das explicações diante do êxtase ensurdecedor das experiências. Calar as experiências. Livrar-me da ânsia doentia de compartilhá-las, de trazer o outro para mim. Parar de chamar o outro. Meu Deus! colocar um minúsculo silêncio na avalanche diária de propaganda que vende eu, que vende paz, que vende coisa, que vende céu.  Calar a boca e dentro dela tanta verdade volátil, tanta certeza fugidia, das quais o mundo não precisa. E não publicar este texto. Calar este texto. Ou publicá-lo com o nome de estupidez. 
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Comentários

  1. que bom que publicou. Que a auto censura não prevaleça. Érima

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    1. Hahahaha. Érima eu carrego um bicho publicador que não sossega. Obrigada!

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  2. O brilhante texto me fez lembrar dos "Três Macaquinhos Sábios" japoneses: Mizaru (o que não vê o mal), Kikazaru (o que não escuta o mal) e Iwazaru (o que não fala o mal) e juntos personificam o provérbio: "Não veja nenhum mal, não escute nenhum mal e não fale nenhum mal"... contraditório e estúpido eu ou qualquer um comentar algo, logo abaixo deste texto que aborda o "Calar-se"...

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    1. Ah se eu conhecesse os bonequinhos! Teria usado para ilustrar o post. Obrigada por vir sempre e me trazer mais! Beijos Tori.

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