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O Esquisito


Aquele homem barbudo, cabeludo, enrolado num pano é muito esquisito. A sirene tocou e a luz vermelha do meu sensor de gente esquisita está doida, piscando. Aciono o sistema de proteção de esquisitices ultramoderno capaz de criar uma película mental isolante hiper-reflexiva repelente de seres não naturais, sobrenaturais ou alienígenas. O único que vem com quatro ampolas auto-injetáveis de bom senso sintético. Aplico-me as quatro. E fico muito bem acomodada em minha trincheira conceitual, esparramada no meu conjunto estofado de convicções em couro legítimo, quando vem de lá uma mensagem do homem barbudo. Eu, por descuido ou curiosidade leviana de um momento de ócio, leio. Horror! Lá está, no meio das palavras do homem, integrada, abraçada, enroscada tal qual cobra no ninho, boiando encharcada como rosquinha no café com leite... alguém que se parece... comigo mesma. Afundo mais o nariz na mensagem... Sim, sou eu, sem dúvida. Queixo apoiado no chão, sigo lendo na esperança de desfazer o engano e desmisturar-me dele: o sem sentido homem barbudo e cabeludo enrolado num pano. E quanto mais leio, mais escorrego barranco abaixo rumo aos seus pés descalços. No texto não há cabelos, barbas, roupas ou outros signos distrativos que não as letrinhas do alfabeto que me servem de escada para o céu. E somos um só. Incluída no inesperado, desassossego minha alma. Vou longe ver o barbudo de perto e constato empiricamente: é um cara simples. E até faz coisas de gente normal que ficam muito esquisitas nele. E tem uma risada sobrenatural quando deixa a cabeça cair pra trás com os olhos fechados e parece querer engolir o teto. Delicado feito borboleta, firme feito montanha, misterioso e claro feito haicai. Deus e velho amigo. Aproveito o espaço que ele abriu no meu cerrado para fazer acordos com uma ou outra parte esquisita de mim. E volto diferente. Não em volume, mas em profundeza.  Não mudei o figurino, não estou de barba nem cabeluda, e talvez você nem note. Mas o homem agora mora no meu escuro. E não é mais homem. É uma luz que pisca, que voa, que adoça a noite. E que eu chamarei de vagalume. 
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Para Sri Prem Baba.
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