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Alguma coisa acontece no meu coração

Helio Ishii
Ir embora de São Paulo. Sonhamos eu e minha empregada.  Pobre cidade passagem, cidade grana, cidade sem filhos. Oásis de fartura obrigatório para nordestinos e mineiros como eu.  Onde tudo acontece. Chegamos e amamos São Paulo mas queremos deixá-la. Amamos a cidade canalhamente. Nosso lugar é lá de onde viemos. Lá a esposa. Aqui a amante excitada, barulhenta, colorida, imensa. Lá o berço quente. Aqui montanha-russa. Toco meu carro pelas veias acidentadas de São Paulo esbarrando na loucura coletiva dos motoristas. No trânsito de São Paulo, desacredito da civilização humana.  Somos o pior de nós. Prédios brotam feito erva daninha nas margens das ruas sufocando São Paulo. Ninguém se importa. Cidade especulação, todo mundo quer arrancar dela até o último centavo.  Já não aguenta, já não suporta, mas os homens querem mais. E ninguém a defende. Há tempos os prefeitos de São Paulo também estão de passagem. Abraçam a vitrine inigualável e evitam seu lado aberração monstruosa.  Políticos de carreira que são, não resolvem nada, vão tocando até o próximo degrau. Sem o pendor genuíno daquele que ama e cuida. São Paulo é para eles, para mim, para minha empregada, meio, instrumento,  máquina caça níqueis, corpo de cimento e asfalto pra ser usado. Enterramos seus rios, vendemos seus parques, entupimos seus poros com nossa fome de ocupar. Virou cidade cinza de gente neurótica trancada em caixas geladas de vidro espelhado. Caleidoscópio humano onde ninguém se vê porque tem a cara enfiada na pressa. Abarrotada de belezas afundadas na fuligem. Cidade para os cegos que nos tornamos. E eu quero pegar meus filhos e ir embora. Poupá-los da dureza, da violência, da histeria de São Paulo. Mas não posso. Estou presa qual Minotauro ao labirinto. E São Paulo ri. Talvez minha empregada se safe mas eu afundarei com São Paulo, com o que fiz dela fora e dentro de mim. A canção está errada: São Paulo é espelho mas Narciso não quer se ver.
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Comentários

  1. Anônimo1/4/12 21:58

    São Paulo: ame-a ou deixe-a...
    Belo texto, Nannu. Sensível como sempre.
    Um beijo,
    Paula Nigro

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