O Monstro Sou Eu

Quiseram as moiras que eu ganhasse a vida com comunicação. Na propaganda aprendi a manipular imagens: photoshop da alma das pessoas e das empresas. E sou boa nisso. Eu, sou a artesã que conserta a frase do candidato, do executivo, com minha real compaixão humana e a faço soar doce. Trabalhei com marketing político, dentro das minhas pequenas possibilidades de concessão moral, mas tenho dúvidas se ainda irei para o céu. Usei e uso meu dom da poesia, minha varinha mágica, para dourar pílulas pálidas, ensiná-las a ser furta-cores. Ajudo a fabricar o mundo platônico com  textos bonitos e politicamente corretos e imagens irretocáveis em que vivemos. O universo outdoor. Entendi rápido a lição triste: o parecer bom é mais caro que o ser bom.  Gastamos mais com o discurso que com a essência. A imensa bondade que se faz no anonimato pesa nada perto da minúscula bondade que se publica. Contra a maldade essencial do homem criamos a ditadura do bom, das ONGs, das instituições culturais, dos humildes e solidários de fachada. Ser legal, ser ecológico, ser compreensivo, ser parceiro, virou lei. E como não somos tão legais assim, precisamos defender a tiros nossa imagem ideal mesmo que, no tiroteio, morra o autoconhecimento. Se questionam nossa correção e impõem um espelho entre nós e a imagem fabricada, metemos o pé no espelho. Vivemos num mundo de instituições e pessoas que preferem a maquiagem ao ensinamento da cicatriz. Exterminadores compulsivos de reflexos. Nesta toada do mundo outdoor, ascético, inodoro, correto, sufoca-se a sombra humana que todos carregamos. A inata, inerente, essencial sombra humana e seus erros e vícios e egoísmos e hipocrisias e maldades. Vamos nos acostumando, perigosamente, a evitar o contato com a merda que sai de nós, que fabricamos diariamente, que faz parte de nós. Incentivados pelo marketing, pelos moralistas de plantão, pelos paranoicos do politicamente correto, pelos religiosos xiitas, lavamos compulsivamente as mãos e dizemos: o mal está lá fora.  Não. O mal está em mim. Todas as maldades e pequenezas de que o homem é capaz estão em mim. E, embora eu geralmente não faça, saibam que sou capaz de coisas terríveis. Eu sou o monstro humano. Deixem minha jaula exposta. Às vezes está trancada,  às vezes não. Mas o que me salva da barbárie não é a mordaça, a coleira, o tapume. É o doloroso mas compassivo espelho onde me encontro. Ama-me corajosamente ou, na noite que engole todos, precisarei devorar-te.
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Safo volta em janeiro. Vai pra Minas engordar.
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Comentários

  1. QUE DELICIA DE ACONTECIMENTO PARA MIM E PRA ESSA MORNA TARDE DE DOMINGO. VALEU! OBRIGADO, SAFO, POR MAIS ESSA . ATÉ A PRÓXIMA

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