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Maracujás de Gaveta

A cada ano que passa caminhamos, levados pelos braços da dona ciência, para uma velhice mais longa. Vamos, obrigatoriamente, viver mais. Há uma determinação científica de não deixar que a gente morra.  Então é preciso dar conta de viver mais. Para os que morriam na Idade Média aos trinta anos, podia-se dizer que partiam no auge. Não será assim conosco. Quando enfim deitarmos no caixão estaremos muito, mas muito velhinhos.  E apesar dos cremes e pílulas milagrosas, não será fácil ser velho.  E talvez a gente precise ir se preparando para isso aos poucos, pagando uma aposentadoria para a alma, entendendo um motivo maior para se estar vivo onde caiba o velhinho que seremos. Porque vai chegar o tempo de ir se despedindo lentamente de tudo que nos ensinaram a chamar de poder. Exercício brutal e forçado de desapego daquela pele lisinha, daqueles cabelos castanhos, daquelas pernas ligeiras, daquela mão firme.  Seremos mais lentos e o mundo não nos chamará tanto.  E o telefone não tocará tanto. E o dia se estenderá imenso à nossa frente. E não teremos mais tantas demandas atropelando a passagem das horas. Os músculos flácidos, a pele meio despencada, o esqueleto frágil, o cérebro às vezes lento e confuso: mas vivos, participantes das rotinas do mundo. Fico pensando na cama de tolerância que precisamos ir construindo para quando chegarmos lá.  Pois é nela que deitaremos a noite. Travesseiro de paciência imensa com nós mesmos. Paciência que muitos não terão na terceira vez que disserem algo ao nosso ouvido mouco. Capacidade de nos respeitarmos naquele diminuir para acabar. Humildade para pedir ajuda.  Um bom colo em nós mesmos para sentar. Quantos berços precisamos construir para nos acolherem na velhice? Mas é cedo para pensarmos nisto. Sempre é cedo. E velhice só acontece com os outros.  Nós passamos o bloqueador solar religiosamente e (alguns) pagamos a previdência. E ignoramos o mais que podemos (incomodados) os velhinhos que nos cercam e os que iremos ser.
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Comentários

  1. Amiga, pelo amor de nós mesma, daria para fazer "providência divina" de quando gostaríamos de partir? Do modo como você desenhou, me senti não um maracujá, mas caramujo cansado. bjs

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  2. Essa estatística está realmente presente em nossas vidas. Ano passado trabalhei com meus alunos do cursinho esse mesmo tema que o ENEM havia explorado. Faz-se extremamente necessário começarmos a pensar num futuro, que terá menos crianças e mais idosos.
    Parabéns!!!

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  3. Muito bom! Gostei demais do seu blog. Parabéns!

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