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Aquele Abraço

Algumas vezes, nos momentos de excessivo cansaço, uma cena fantástica vem à minha cabeça, como uma memória atávica amorosa. As raízes de uma árvore me abraçam, com candura, suavemente, literalmente me abraçam. E meu corpo encontra a paz como se estivesse pousado num colo de Vó. Esta cena desenterra sempre em mim uma saudade do tempo em que eu nada era, só um bom pedaço de vazio. Não, eu não acredito e duendes, nem fui catequizada por alguma seita bicho-grilo de comedores de alface. Estas imagens vieram na mala da minha memória quando aportei, 43 anos atrás, na maternidade Sarah Kubitschek em Belo Horizonte. Estranho pedaço de vivência não vivida mas vívida, intensa, real. Talvez herança de um macaco pelado morto há milhares de anos a quem estou ligada por uma secção de DNA. Nele perpetuada a natureza, primeiro grande Deus, generoso, colérico, pai-mãe do alimento e do trovão e a árvore onde subíamos eu e meu filhote macaco fugindo de um predador ou atrás de uma fruta doce. Ou talvez não. Antes disso. Quando éramos, segundo Drummond, hipóteses não formuladas no caos universal. E eu era a natureza, sem cortes, sem solução de continuidade e boiava no amor natural. 
Assisti Avatar ontem e corri para a porta de casa para abraçar a árvore. Chorando. Uma coisa totalmente ridícula para o vigia da rua que me espreitava de longe e para tantos contemporâneos modernos de 2010... mas totalmente em dia com o calendário atemporal do universo.
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Comentários

  1. Quando assisti Avatar, queria encontrar com um índio na minha frente e pedir desculpas pelos meus antepassados...

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