Postagens

Apenas Um Chapéu

Imagem
Eu te desejo menos roupas pra escolher. 3 mudas dentro de um armário feliz. 3 mudas são mais do que suficientes para você viajar o mundo. Uma no corpo, uma lavando, uma na mala. Eu te desejo a paz de ter apenas 3 mudas de roupa. Eu te desejo menos pratos pra escolher. O prato do dia e uma versão sem carne. 2 tipos de prato bastam pra matar a fome da alma. Eu te desejo não ter o mundo a devorar e estar sempre com fome. Eu te desejo menos seguidores, menos admiradores e, por isso, menos grana.   Um abraço verdadeiramente amoroso é a conexão de vida mais rara que os metais raros e que te falta. Eu desejo uma vez por dia um olhar que te sustente em paz no vácuo das efemeridades com a infinitude do amor. Gratuito, imprecificável, onde toda humanidade te fará companhia. Eu te desejo menos pessoas para escolher. A coragem de baixar o cardápio humano e encarar sua solitude e o roteiro da existência onde os grandes encontros já estão marcados antes do existir. Eu te desejo a serenidade de e...

Comida do Sistema

ETERNAMENTE VIGILANTE ETERNAMENTE AMEAÇADA AFERRADA A UMA BALANÇA A TODO INSTANTE SERÁS MELHOR MANIPULADA PREGADA A UMA CONSTANTE IMPOSSÍVEL NUM UNIVERSO DE VARIÁVEIS QUE TE ARRASTAM SERÁS DOCE E CONSUMÍVEL E NO CONSUMO ADESTRADA ETERNAMENTE DISTRAÍDA PELO ESPELHO QUE TE MOSTRA SEMPRE A MULHER ERRADA QUE LÁ MORA OU ATRÁS TE ESPREITA SERÁS CARNE DA NOSSA SEITA ONDE O LUCRO NÃO FAZ DIETA E DEVORA TUA AUTOESTIMA COM AS SOBRAS DO TEU PLANETA PRA ALIMENTAR O DESAMOR   E SEJA COMO FOR EU TE GARANTO E TE CONDENO NÃO SERÁS NUNCA SUFICIENTEMENTE MAGRA TE LANÇO NO BERÇO ESTA PRAGA TE DIMINUO E TE VIOLENTO E FAÇO DA TUA DOR MEU ALIMENTO.

Meninos Gigantes

Imagem
Isso não é legal, cara. O menino de 16 anos puxou a frase do fundo trêmulo da garganta num gesto heroico que só outro menino entenderia. A roda de amigos se calou, um silêncio profundo e constrangido enquanto O cara, também um jovem como ele, com postura dominante, encarava perplexo. O menino arriscou mais um avanço com o olhar altivo, mas a voz ainda vacilante. Não é legal falar das meninas assim. Os demais se entreolharam como se ali uma nova ordem tentasse nascer para um triste mundo adoecido. Frágil, cambaleante, como um potro recém-nascido tentando um primeiro equilíbrio sobre as patas. O líder do grupo, surpreendido como um turista frente à erupção de um vulcão adormecido, sem repertório, só pôde estufar o peito e dar um passo à frente repetindo o cacoete desgastado de poder que conhecia. Um a um os amigos foram abaixando as cabeças, mergulhando o rosto novamente naquela verdade que também os machucava e não se lembravam de ter escolhido. Isso não é legal, cara. Outro moleque, ai...

Coberta Velha

Imagem
A crescida é invisível. O moleque devia ter seus 5 ou 6 anos quando sacou esta constatação filosófica, abismado com a marcação que a tia de Belo Horizonte fazia da sua altura no batente da porta e que ia mudando a cada férias. Por um longo tempo na viagem humana, o corpo cresce enquanto estamos distraídos. Grita um pouco na adolescência, mas seios e pelos seguem avançando a esmo e surpreendendo nossos olhos a cada manhã no espelho do banheiro. A crescida do corpo é invisível. A crescida da alma também é. Estive hoje me debatendo com minhas misérias muito revisitadas. Meu apego, minha necessidade de controle, meu comodismo em seguir querendo me enfiar na camiseta do passado que não serve mais. O calor e o conforto das faltas conhecidas. A crescida lá me puxando para a estrada. Eu querendo me enrolar feito um gato sobre a coberta velha e cheia de ácaros e dormir embalada pelo cheiro de sempre da casa. Eu, nesse aparente estagnar, invisivelmente crescendo. Entendendo na espera que o coraç...

Mães e Pais

Imagem
Este é para mães e pais que vão errar, quando vasculharem o quarto e quando deixarem de entrar, quando respeitarem o espaço e se faltar abraço na distância, quando trabalharem demais pra pagar a escola bacana e quando não conseguirem a grana pra comer. Este é para pais e mães que estão errados quando frustram, limitam e dizem não e quando dão demais. Este é para mães e pais. Este é pros malabaristas que caminham no fio da navalha do amadurecer sem traumatizar, do libertar sem adoecer, do amar sem enfraquecer, do bancar o menos tentando o mais. Este é para mães e pais. Pra quem tranca a porta pra chorar porque não pode não dar conta. Pra quem aponta o erro sem tirar o amor. E vai carregar pra sempre a dívida se tudo falhar e a dor se o filhote não sobreviver, e a dúvida de ter ou não falhado. Fadado a doer o tropeço do outro. Fadado a ter clareza quando é tudo fumaça. E jurar que passa sem nunca ter certeza. Este é para o ser que, dando a vida, dá a morte sem querer. E dando a morte ao ...

O Macaco Nu

Imagem
O homem viu atrás do arbusto o que parecia muito ser uma possibilidade de crítica. Entendam, uma crítica pode ser um bicho pequeno, mas pode não ser e devorar a gente. A crítica no subterrâneo do homem não era um bicho pequeno. Ela estava ligada ao impossível pressuposto de que ele, talvez também um bicho muito pequeno, não podia ser fraco, não podia errar, não podia distrair-se, não podia tropicar, não podia rir de si mesmo sob pena cruel da retirada do amor. Então, o instinto de autossobrevivência do homem entrou em standby por segurança. Eriçou os pelos das costas, retesou os músculos e colocou seu hiper foco no bicho atrás do arbusto que sim, agora ele tinha absoluta convicção de que era uma crítica. Entendam, o homem não podia deixar que ela crescesse dentro do peito e desenvolvesse mandíbulas fortes e cheias de dentes e avançasse sobre o pequeno bicho indefeso que ele não podia ser.  O homem estava ameaçado. O homem precisava contra-atacar.  Li uma vez em um livro do bió...

Seu Céu

Imagem
Um dia minha filha me chamou e me disse que precisava ir morar numa estação de pesquisa no meio do Polo Norte. Sentia que se houvesse uma chance de ser feliz seria no meio do gelo, numa paisagem toda branca e vazia. Então ela me abraçou chorando e arrematou que naquele lugar, infelizmente, a comunicação era impossível, as visitas eram impossíveis e que só havia passagens de ida. Olhei o paredão da represa à minha frente segurando toneladas de dor e disse que ela devia ir aonde o coração mandasse.  Nunca teria dito outra coisa e ela sabia. Partiu com seus olhos castanhos e profundos e seus cílios enormes de boneca que emolduraram minha figura emudecida. Quando embarcou no navio em direção à um possível céu, vi atrás de mim a represa se romper. A dor me arrastou pra bem longe de quem eu era e lavou todas as minhas ilusões. A única que me atrevi a guardar como um mimo é a de que a menina está lá, no Polo Norte, no meio do nada, do gelo,  e agora é feliz. * * Amo você, Pituca.

Coragem cenográfica

Imagem
A coragem do extremista é cenográfica. Serve só ao espetáculo. Coragem de gritar ódio em direção à muralha da própria bolha que sempre vai devolver-lhe o eco. E até quando explode abraçado a uma bomba, ele é o que menos se arrisca, protegido pelo conforto de habitar um universo simplório dividido entre o bem e o mal. Poupado pela preguiça emocional de poder ser indiscutivelmente do bem. Preservado pela ideologia que ele transformou em redoma inexpugnável. O extremista nunca corre riscos de verdade porque nunca corre o risco de se expor à verdade do outro. É o mais assustado dos seres, onde o medo fez sua melhor obra. A coragem mesmo está naqueles que se arriscam na metade do caminho onde os mísseis dos dois lados caem e são capazes de parar de correr no meio do estouro da sua própria manada. E abrem mão do espetáculo para trabalhar no terreno mais anônimo, menos midiático, menos imediato, menos lucrativo da construção de pontes. * * Às vezes me falam pra descer do muro. Eu vim destruir...

Chega de Show

Imagem
Zé Cenoura montou seu cirquinho poderoso do mal. Movido pela cenoura gigante e pontuda que habita seu inconsciente, Zé Cenoura equipou o cirquinho do mal com coisas pontudas que ameaçam. Ele tem uma técnica infalível aprendida com o clã cenoura onde habitam os Zés da comunicação do cirquinho do mal: berrar atrocidades no alto-falante do mundo. Manter o ser humano assustado e distraído. Vender culpa pra quem está frustrado e achando a cenoura pequena. Tá frustrado? Tá sem grana? Tá sem emprego? A culpa é do vizinho, do preto, do gay, do latino, do chinês, do extraterrestre e Zé Cenoura tem sempre uma solução simples, drástica, miraculosa, que já foi tentada e não deu certo mas não importa desde que você acredite mais uma vez que existe  uma solução simples, drástica, miraculosa para os problemas. O que importa para Zé Cenoura é o show do cirquinho do mal, tirar do guarda-roupinha sua fantasia de herói e correr pela sala com o braço erguido e o punho levantado no ar,  super Zé C...

Pode Acabar

Imagem
Não é mais sobre a guerra. Nenhuma guerra. É sobre a Terra, toda a Terra. Por que não é mais sobre quem estava certo, quem ganhou, quem venceu. É sobre a espécie que sobreviveu. Não é mais sobre o dono da autoridade, quem tem o cargo pra mandar. É sobre assumir a autoria de pequenas   crueldades. É sobre a capacidade de autorizar essenciais alegrias. Não é mais sobre recursos a explorar. É sobre  a sabedoria de  recusar-se a explorar, mudar o curso. Nem é sobre a urgência de cada reciclagem. É sobre a inteligência de ouvir a mensagem vital e se curvar humildemente ao ciclo natural. Não é mais sobre o poder que nos trouxe até aqui. É sobre reinventar o poder pra seguir sem apodrecer. Não é sobre o crescer é sobre o parir. Nem sobre o ter, é sobre o sentir. É sobre consumir sem adoecer. É muito sobre o que virá e ao mesmo tempo é sobre o já, o agora. E não é sobre a dor que vem de fora, o inimigo que ameaça. É sobre se saber o predador e sempre a caça. E não é sobre ser sal...

Meio Ovo

Imagem
Nunca está bom. Sempre falta. Olho cheia de inveja para o jacaré no banco de areia no meio do rio. Plácido. Não falta nada. E quando falta é tão simples, tão reto. Mas eu caí na esparrela de vir ser humano. Um bicho cheio de receitas de ser. Para mim falta tudo. Acordo de manhã precisando beber menos, ganhar mais, encontrar o melhor corte de cabelo, fazer algum curso, meditar, respirar usando o diafragma, ser mais positiva, comer mais ovo, comer menos ovo, comer meio ovo, comer dois ovo, não errar o plural de ovo. Estou sempre errada, inadequada, devendo. Não consigo simplesmente apoiar a barriga no banco de areia e olhar o céu. A barriga que apoio no banco de areia é grande demais, é flácida, é um corpo estranho plasmado no meu abdome, um continente ou conteúdo psicanalítico que não cala e não me deixa em paz. Não sendo um jacaré, preciso evoluir sem descanso: encontrar minhas sombras, desvendar meus traumas, buscar a iluminação mas, claro, com humildade, não muita humildade que pode ...

Poder Maior

Imagem
Chegou a hora de avançar na contramão. Chegou a hora da anti-performance. Onde funciona o vídeo curto, falar devagar e encher de pausas. Onde impera o filtro, imprimir rugas e manchas. Onde a lei é o que vende, soltar borboletas inúteis. Onde negociam perfeição, seios caídos. Onde gritam superação, tombos. Onde me empurram pra frente, sentar. Onde a meta, o humano. Onde o orgulho, desculpas. Onde consumo, autoestima. Onde rede social, abraço. Onde o scroll, o livro. Onde túnel, árvore. Onde a verdade, o amor. Chegou a hora da anti-evolução. Onde o poder, o poder maior. * * *

Meu cadinho preto

Imagem
A origem da minha família mineira remonta a  uma cidadezica do interior, assombrada por conservadorismos e preconceitos, comuns às cidadezicas do interior. Terra de fazendeiros brancos, elite branca do Brasil agrário fundada sobre os alicerces da escravidão. Ali nasceu minha mãe, mulher forte talhada para as linhas de frente. Carregada dos tais preconceitos herdados, já casada e com sete filhos, já morando em Belo Horizonte, cuidou de me afastar dos pretos que moravam num cortiço do lado de casa. Lembro de mim mesma estuporada de alegria dentro de uma bacia grande de latão tomando banho com uma menininha preta. Bacia no chão, o cortiço coletivo, colorido e sonoro me abraçando, a água morninha, o sorriso muito branco da menina... Minha mãe me levando embora. Ali não mais, nunca mais. Fui carregada no colo dela olhando para trás sobre seu ombro para um mundo preto ao qual eu não pertencia. Mas carreguei o rosto redondo e brilhante da menina da bacia. Como se a água do banho tivesse p...

Vida Cachorra

Imagem
Essa cachorra não é uma cachorra É um colete salva-vidas  que coloquei Em nós quando minha filha desistiu de viver Essa cachorra nasceu mais ou menos quando  A menina decidiu partir Essa cachorra ficou maior que eu imaginava Essa cachorra parece mais perigosa do que é Essa cachorra é bruta e machuca quando quer brincar Essa cachorra pode ser feroz e violenta Principalmente quando assustada Essa cachorra me puxa para caminhos que não sei Essa cachorra é o amor ambulante, peludo,  com olhos eternamente pedintes de carinho Fazendo o ficar valer Essa cachorra não é uma cachorra É uma âncora jogada do barco da dor No oceano das possibilidades E foi chamada de Vida Como havia de ser. * * *

Manifesto do Eu Sozinho

Imagem
Eu gostava de política. Gostava da época das eleições. Já encarei votação como final de copa. Tive medo, tive raiva, tive a ilusão de que a solução mágica existia. Fui sonhadora, manifestante de carteirinha, cruzei a avenida Paulista em cima de um carro com uma bandeira do Brasil nas mãos quando ela era da esquerda. Eu era da esquerda. Assistia os debates e acompanhava os jogadores movendo suas peças no tabuleiro e achava alguns brilhantes. Não gostava de vários políticos mas gostava de política. Então trabalhei com marketing político em grandes eleições. O universo escola me levando para aulas que nunca quis e que só depois eu entenderia para que serviam.  Aprendi muito do jogo da política trabalhando nas campanhas e muito mais sobre gente, sobre mim e sobre você. Incapaz de atuar com o distanciamento necessário, não trabalhei mais no marketing político. Mas segui acompanhando os jogos, cada vez menos na torcida, cada vez mais distante do palco, do show, do circo da mídia. E vi a ...

Vale a pena?

Imagem
Vale a pena o ser humano? Vai se extinguir? Vai acabar? O planeta vai engolir? Vale a pena existir? Eu queria poder te contar que a gente vai recriar o caminho e cada um no seu sozinho vai se saber junto. Eu queria te contar que a gente não vê, mas viver não é só isso. Eu queria te acordar para o mistério onde sua grandeza dorme e esta aventura de enxergar através do pequeno. Eu queria ser algum Deus pra te fazer sonhar com todos os seres humanos o mesmo sonho onde você não se confunde com a matéria e abraça a matéria como escola. Eu queria te contar que acaba mas não acaba, então o fim não é solução e a morte faz parte do jogo como a cor dos seus olhos. Vale a pena o ser humano? Vai se extinguir? Vai acabar? O planeta vai engolir? Vale a pena existir? Eu queria não te fazer pensar mas te fazer sentir. Tudo vale se você escolher o amor pela oportunidade de jogar e escrever a história com amor mesmo na hora de acabar. * * *

Eu e a Rosa

Imagem
Definitivamente eu não vim entender. Não me interessa, entender. De onde viemos, para onde vamos? Não me interessa. Estou só jogando o jogo. Acordo e jogo porque é tudo que há. O jogo. Mesmo quando questiono, quando desconfio, quando fuço, quando empaco, quando explico... é o jogo sendo jogado. E está bom pra mim que seja assim. Não perdi nada, de fato. Não vou levar nada. Não faço ideia realmente e não saberei realmente o que é. Está dado que funcione assim, seja você o gênio, o iluminado ou o tolo. A ignorância vai estar sempre lá nos convidando a uma realista humildade. E eu preciso mais de beijos na boca do que de algum poder e certezas temporárias. O momento, a experiência, a pele... aqui mora meu divino. Teorias? Só quero os pensadores que brincam de saber. Acordo meio atordoada e desço para o playground trágico da existência. Todos os dias. E vivo com o mínimo de pretensão possível, com o máximo de presença. Sem entender ou explicar porque escovei os dentes, cocei as costas, ves...

Riomar

Imagem
Estou ficando menor... cada dia menor... cada aprendizado menor... descascando pretensões, vaidades, ilusões, coisarada que catei no caminho de crescer. Tirando das costas o fardo pesado de encontrar a paz suprema, a felicidade suprema, o eu supremo.  Já quis ser grande, primeiro no mundo material dos bem sucedidos, depois no mundo espiritual dos iluminados, já medi com régua minha bondade, já contei minhas virtudes como se fossem joias, já me vendi demais no mercado de gente que vale a pena. E, quando me vi, eu era só um cabide de tudo aquilo que eu devia ser. E cada penduricalho era uma mentira me puxando para o chão. Reflexos do que faltava, remendos na roupa importante e salvadora que sequer existia. Estou ficando menor... cada dia menor... cada aprendizado menor... Só o personagem da vez nesta ficção e sua mala única. Talvez este dia me traga uma dor de cabeça, a indicação para um prêmio, um carro roubado, um grande amor... Serão tão bem vindos ou malditos quanto um rio que co...

Viagem

Imagem
Há dias em que todos os semáforos estão abertos: o carro flui magicamente. Os outros saem da frente e o mar se abre como se fossemos Moisés. Nada é pesado demais, nada é longe demais, nada é demais. Os fantasmas estão distraídos brincando no playground. Se sabem amados. Nada te arrasta, nem o medo, nem a esperança... porque amanhã não existe. Só esta rua e este destino próximo de uma coisa besta para fazer como chegar em casa. Nem mundo, nem gente pra consertar. Só o meu caminho único e seus desconhecidos. Nenhuma grandeza a buscar, nenhuma fragilidade da qual fugir. Apenas o carro andando e parando e andando de novo rumo a um lugar efêmero, um galho onde pousar. E esta imediata gratidão pela possibilidade do pouso, pelo acolhimento eterno do mundo estrada afora, pelas pousadas delicadas que muitas vezes escolhemos não ver. Hoje, todos os semáforos estavam abertos quando entendi que não estava indo a lugar nenhum. E, no vazio onde boiava, senti que nunca estive só. Uma preciosidade est...

Sem lodo

Imagem
Saiba você que eu também afundo. Eu, a mulher sorridente da foto nas redes sociais. Tenho olheiras. Você não as conhece porque aqui, nas redes sociais, sempre estou esterilizada por um corretivo. Tem dias que me arrasto, que ando feito um autômato, que me afogo em pensamentos ruins. Nestes dias não faço selfie. Nem suporto me ver na tela do celular. Os cabelos brancos aparecendo nas têmporas. As manchas na pele. Tudo grita em alta definição e mais megapixels do que minha autoestima suportaria. Mas quero que você saiba: eu também afundo. Eu, a mulher das palavras bonitas? Tem horas que estou tão muda que escuto o meu vazio. Tão assustada que me julgo incapaz de atravessar uma rua. Tão perdida que nem sei mais onde mora minha vontade. Nestas horas não gravo vídeo. Se pego o celular é pra me anestesiar com conteúdos banais e fugazes. Coisas que não tenham poder nenhum de resvalar numa ferida. Risadas ilusoriamente gratuitas que custam minha distração de mim e do que não posso mais. Mas pr...