O Lobo do Homem

O amigo jogou a sua crença na mesa como se fosse um royal flush num jogo de poker: o homem é o lobo do homem. O amigo é uma autoridade acadêmica com muitos títulos, mas acima de tudo é alguém que amo. Não há como se contestar uma crença principalmente quando o seu dono também é dono de um conhecimento gigante. Saber demais pode ser a melhor armadilha para a ilusão de se estar certo. Mas a única possível e humilhante constatação é: seres humanos não têm certeza de nada. Ou será que existem uns cinco gênios em Harvard que sabem, que têm provas de quem somos, de onde viemos, para onde vamos? Eu não sei. Einstein dizia "a experiência mais bonita que podemos ter é o mistério.” E Sócrates, teria dito ao seu discípulo algo parecido com “só sei que nada sei.” Então, a minha crença é de que “o homem é o lobo do homem” não é uma certeza, é uma escolha do meu amigo. E esta incerteza que nos convida a escolhas me empurra de novo a olhar pra dentro, para o lobo e a ovelha que somos todos, cada um de nós. Mas, antes de seguir, façamos um trato: a partir daqui vamos nos permitir brincar com os nossos saberes. "A experiência mais bonita que podemos ter é o mistério.” Somos essencialmente bons, essencialmente maus? Não quero ter esta resposta. Escolho uma terceira resposta onde certamente existem infinitas opções que brotam no nada de acordo com aquele que pergunta. Eu me respondo assim todos os dias: carrego o lobo e a ovelha, mas me sinto melhor morrendo como ovelha. E não é uma questão de bondade intrínseca. Simplesmente não sou capaz de experimentar o prazer da vitória do lobo do homem. Acho o lobo humano ridículo, patético, equivocado, pequeno. Uma comparação ofensiva ao bicho. Vejo ovelhas humanas sendo abatidas todos os dias na lógica estúpida de auto extinção da alcateia do parvo lobo humano: como posso não admirá-las? E meu amigo tão pouco é lobo do homem. Na prática cotidiana, enquanto fenômeno existencial singular, contradiz com atitudes sensíveis e generosas a própria premissa. Mas sinto, com os meus óculos de ovelha, que parecem ingênuos e inúteis, que ele só empodera os lobos em sua obstinação de vencê-los. O planeta em que o homem é o lobo do homem é uma ficção humana onde, infelizmente, ovelhas morrem de formas terríveis. Mas não sabemos, como Sócrates não sabia, se é a realidade final. Então, escolho acreditar, que existo temporariamente numa realidade que me convida, incessantemente, a validar o lobo apenas para testar a promessa que fiz a mim mesma, numa realidade maior, de escolher a ovelha. O homem é o homem. As ovelhas são imortais.

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