Coberta Velha
A crescida é invisível. O moleque devia ter seus 5 ou 6 anos quando sacou esta constatação filosófica, abismado com a marcação que a tia de Belo Horizonte fazia da sua altura no batente da porta e que ia mudando a cada férias. Por um longo tempo na viagem humana, o corpo cresce enquanto estamos distraídos. Grita um pouco na adolescência, mas seios e pelos seguem avançando a esmo e surpreendendo nossos olhos a cada manhã no espelho do banheiro. A crescida do corpo é invisível. A crescida da alma também é. Estive hoje me debatendo com minhas misérias muito revisitadas. Meu apego, minha necessidade de controle, meu comodismo em seguir querendo me enfiar na camiseta do passado que não serve mais. O calor e o conforto das faltas conhecidas. A crescida lá me puxando para a estrada. Eu querendo me enrolar feito um gato sobre a coberta velha e cheia de ácaros e dormir embalada pelo cheiro de sempre da casa. Eu, nesse aparente estagnar, invisivelmente crescendo. Entendendo na espera que o coraç...