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Sem Perder a Elegância

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Me resta ajeitar a vida possível com alguma elegância. No final das contas, aprendi que é o que importa. Aquela sutil elegância preservada na trajetória acidentada, sobrevivente de tantos tombos. Está lá apesar da pele cada dia mais flácida e do excesso de peso que assumi perene. Uma calma diante da tragédia repetitiva que teima em voltar para a vida esfolada do pequeno cidadão brasileiro. Povo acostumado a quebrar a própria cara. Eu e a mania masoquista de estudar história. Mas esta condição de nascimento não me fará perdê-la: a sutil elegância, o delicado charme na dor. É o que me resta e devo cultivá-la. Nada de gritos, ataques de fúria, nada de revoltas que desalinham os cabelos. Não sou amadora na frustração, sou brasileira. Pego minha flauta e me junto à orquestra do Titanic e tocamos enquanto parece afundar eternamente. Moramos na distopia, nem sabemos o que é ter chão. Mas não importa. Preservo no rosto, com uma dedicação monástica, a expressão blasé dos desencantados. Às veze…

Abismo 6

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Hoje vamos falar sobre janelas. Sim, a aula seria sobre figuras de linguagem mas acontecimentos recentes na vida deste mestre tornaram urgente que eu falasse a vocês, nesta aula à distância, sobre janelas. Esta aqui é uma janela aberta no seu computador, no seu celular, um buraco no ciberespaço através do qual, aparentemente, um ser humano vivo diante de um outro aparelho te manda uma mensagem. Aparentemente por que as janelas virtuais podem ser imensamente mentirosas. Eu, por exemplo, tenho me sentido muito pouco humano e nada vivo atualmente. Mas voltemos às janelas. Elas são passagens, concordam? A janela atrás de mim, é uma passagem de luz, de ar, dos sons aborrecidos das crianças na quadra do meu prédio, dos ruídos monótonos do meu dia a dia que aparentemente não fazem diferença pra ninguém do outro lado... Quanta vida transita através deste buraco na realidade do prédio, já pensaram? Mas,  janela também pode ser uma passagem para a morte. Não pode? Se eu caminhasse agora, com f…

Platão e o Macaco Pelado

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Amiga, li sua postagem na rede social na qual você explicava seu prolongado e notado silêncio. Você, sempre tão generosa em palavras lúcidas, tinha jogado a toalha, desistido de piscar a bunda do seu vaga-lume. Eu, acostumada a me orientar pelas suas piscadas distantes, senti o golpe. E corri para o meu caderno onde, em momentos críticos, incorro no anacronismo de escrever a mão, e onde poetas de outra dimensão me socorrem com respostas. Queria ser capaz de escrever algo que te animasse a meter de novo o dedo no interruptor e reacender a lanterna vital neste imenso breu. A caneta, em modo psicográfico, escreveu no papel: Platão. Sabe o cara que viveu há mais de quatrocentos anos antes de Cristo, o grande filósofo que bebeu em Sócrates e ensinou a Aristóteles? Então, amiga, ele já  nos avisava da cegueira humana no seu texto “O Mito da Caverna”. A maior parte de nós, macacos pelados pensantes, nasce e morre dentro da caverna.  A maioria não conhecerá outra realidade. Nada de sol sobre …

Abismo 5

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Morrer é mais assustador lá na zona sul onde eu trabalho. Por que, quem tem grana, se desacostuma de lidar com  a morte. Quando um sujeito é morto naquelas casas grandes, naquelas ruas largas cheias de árvore, é um escarcéu. Ou deve ser. Na verdade, nos doze anos que trabalho lá nunca mataram ninguém. Do lado de cá, onde eu moro, cantiga de ninar é sirene, tiro, gritaria noite adentro. Daí que a morte não assusta tanto. Ontem foi a prima de um, anteontem o filho de outro. Até criança morre mais fácil aqui. Se tem escarcéu quando matam criança, não dura muito, porque a gente precisa tocar a vida dos que ficaram. Não pode ficar muito tempo parado chorando. A urgência da vida faz a morte ficar pequena. Então, quando a gente do lado de lá do abismo fala em risco de vida, eu dou risada. Já disse pra minha patroa: do lado de cá é difícil tomar susto. Agora estão falando do tal vírus. Todo dia morre gente a rodo, que nem mosca. Lá na zona sul onde eu trabalho, todo mundo quietinho dentro da…

Abismo 4

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Mais de cinquenta mil mortos. O número se liquefaz na paisagem do lado de lá da minha janela. Um pássaro voou rápido riscando o verde. Me distraio com o voo poético da ave e com o bambuzal ao fundo balançando docemente na coreografia do vento. Não. Não quero me distrair. Não posso. São mais de cinquenta mil mortos. E não chegou ao fim. Que som é esse que veio lá de fora? Serão milhares de gargantas chorando? Não, é só o riacho e sua toada monótona, os mesmos grilos e os sapos do entardecer. O número não tem som, não tem cheiro, nem olhos de medo, só algarismos mudos enfileirados e inertes como eu, acotovelada na janela de madeira, anestesiada pela poesia hipnótica do bambuzal. Deus! não é uma janela. Estou acotovelada sobre cinquenta mil corpos sem nome. Corro para fora da casa, morro acima, pra tentar, lá do topo, ver os mortos. O número não basta, o silêncio do meu isolamento não basta e a paz da paisagem, que nem sei se mereço, chega a me sufocar. Vou resfolegando na subida íngreme…

Abismo 3

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Eu gosto dela. Tem umas palavras que ela fala que eu não entendo. Mas eu gosto de ouvir a voz dela e dependendo do tom eu descubro se é bom ou ruim. Tem palavra que causa confusão... Anotei duas aqui: comunismo e fascismo. Eu não sei o que é mas acho que as coisas que terminam em “ismo” não são boas, deixam todo mundo nervoso. Linha de ônibus eu sei que não é. Já procurei, aqui perto de casa não passa “747 Comunismo-Fascismo”. Não passa. Mas quando ela mistura lá com outras palavras, eu gosto de ouvir. E me esforço pra ouvir certo. Outro dia ouvi errado, muito errado. Ela falou “feminicídio”, eu achei que era uma palavra forte: “feminicídio”. E coloquei um coraçãozinho na publicação dela. Ela botou uma interrogação embaixo. Minha nossa! Meu coração gelou. Até desliguei o celular de medo. Depois me contaram que a palavra bonita era “feminismo”. Mas o “ismo” não é mau? Eu não entendo. As palavras entram tortas nos meus ouvidos e saem faltando pedaço da minha boca. Da boca dela não... a…

Abismo 2

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Com licença, eu preciso desmaiar. Onde, na sua casa, seria um bom lugar para desmaiar? Sim, aquele sofá está ótimo. Seu cachorro sempre late pro sofá daquele jeito? Eu acho que cachorros veem espíritos. Mas eu preciso mesmo é desmaiar. Seu cachorro morde? Não se preocupe, eu já desmaiei antes. Acontece sempre. Quando fico muito cheia de mundo. Quando meu corpo não consegue mais conter o mundo. E ele arrebenta. Tá vendo aqui perto do calcanhar uma fissura. É batata, não dou cinco minutos e vou explodir em luz branca. É melhor estar deitada, da última vez bati com a testa no tríptico de vidro na parede da sala e cai sobre a mesinha de centro daquele designer famoso, aquele que não importa, definitivamente não importa o nome daquele designer famoso quando se vai explodir. Seu sofá é de algum designer famoso? Você não acha que o mundo tem andado over ultimamente? Pilha de mortos e manifestação de rua: em mim não cabe. Minha empregada me disse que morrer no bairro dela é mais normal do qu…