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O Lobo do Homem

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O amigo jogou a sua crença na mesa como se fosse um royal flush num jogo de poker: o homem é o lobo do homem. O amigo é uma autoridade acadêmica com muitos títulos, mas acima de tudo é alguém que amo. Não há como se contestar uma crença principalmente quando o seu dono também é dono de um conhecimento gigante. Saber demais pode ser a melhor armadilha para a ilusão de se estar certo. Mas a única possível e humilhante constatação é: seres humanos não têm certeza de nada. Ou será que existem uns cinco gênios em Harvard que sabem, que têm provas de quem somos, de onde viemos, para onde vamos? Eu não sei. Einstein dizia "a experiência mais bonita que podemos ter é o mistério.” E Sócrates, teria dito ao seu discípulo algo parecido com “só sei que nada sei.” Então, a minha crença é de que “o homem é o lobo do homem” não é uma certeza, é uma escolha do meu amigo. E esta incerteza que nos convida a escolhas me empurra de novo a olhar pra dentro, para o lobo e a ovelha que somos todos, cada...

No galope da manada

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Homens poderosos entraram na minha vila e roubaram o que cada um tinha de mais caro. Da casa da frente, onde uma bandeira verde-amarela rota ainda resiste discreta num canto da janela, levaram toda a esperança. E apesar de discordar das escolhas da vizinha, me doeu vê-la no outro dia soturna e robótica varrendo o piso de asfalto na sua porta. Na segunda casa à esquerda da minha, arrancaram um a um cada fio luminoso de dignidade e foram largando pelo chão um chorume azedo de cobiça e ganância ilimitada. Restou ao meu vizinho sentar-se exausto no desconforto das desilusões sucessivas e misturar-se ao chorume. Deprimiu-se. Nunca mais abriu a janela.  Na casa bem ao fundo, a crueldade foi quase indescritível: a vizinha, uma senhora aposentada, implorou pelos seus sonhos de cidadania e respeito enquanto os homens poderosos avançavam sobre os poucos recursos da sua aposentadoria. O mais triste, o que mais nos envergonha e nos abate: os homens poderosos entraram na minha vila usando a cha...

Apenas Um Chapéu

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Eu te desejo menos roupas pra escolher. 3 mudas dentro de um armário feliz. 3 mudas são mais do que suficientes para você viajar o mundo. Uma no corpo, uma lavando, uma na mala. Eu te desejo a paz de ter apenas 3 mudas de roupa. Eu te desejo menos pratos pra escolher. O prato do dia e uma versão sem carne. 2 tipos de prato bastam pra matar a fome da alma. Eu te desejo não ter o mundo a devorar e estar sempre com fome. Eu te desejo menos seguidores, menos admiradores e, por isso, menos grana.   Um abraço verdadeiramente amoroso é a conexão de vida mais rara que os metais raros e que te falta. Eu desejo uma vez por dia um olhar que te sustente em paz no vácuo das efemeridades com a infinitude do amor. Gratuito, imprecificável, onde toda humanidade te fará companhia. Eu te desejo menos pessoas para escolher. A coragem de baixar o cardápio humano e encarar sua solitude e o roteiro da existência onde os grandes encontros já estão marcados antes do existir. Eu te desejo a serenidade de e...

Comida do Sistema

ETERNAMENTE VIGILANTE ETERNAMENTE AMEAÇADA AFERRADA A UMA BALANÇA A TODO INSTANTE SERÁS MELHOR MANIPULADA PREGADA A UMA CONSTANTE IMPOSSÍVEL NUM UNIVERSO DE VARIÁVEIS QUE TE ARRASTAM SERÁS DOCE E CONSUMÍVEL E NO CONSUMO ADESTRADA ETERNAMENTE DISTRAÍDA PELO ESPELHO QUE TE MOSTRA SEMPRE A MULHER ERRADA QUE LÁ MORA OU ATRÁS TE ESPREITA SERÁS CARNE DA NOSSA SEITA ONDE O LUCRO NÃO FAZ DIETA E DEVORA TUA AUTOESTIMA COM AS SOBRAS DO TEU PLANETA PRA ALIMENTAR O DESAMOR   E SEJA COMO FOR EU TE GARANTO E TE CONDENO NÃO SERÁS NUNCA SUFICIENTEMENTE MAGRA TE LANÇO NO BERÇO ESTA PRAGA TE DIMINUO E TE VIOLENTO E FAÇO DA TUA DOR MEU ALIMENTO.

Meninos Gigantes

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Isso não é legal, cara. O menino de 16 anos puxou a frase do fundo trêmulo da garganta num gesto heroico que só outro menino entenderia. A roda de amigos se calou, um silêncio profundo e constrangido enquanto O cara, também um jovem como ele, com postura dominante, encarava perplexo. O menino arriscou mais um avanço com o olhar altivo, mas a voz ainda vacilante. Não é legal falar das meninas assim. Os demais se entreolharam como se ali uma nova ordem tentasse nascer para um triste mundo adoecido. Frágil, cambaleante, como um potro recém-nascido tentando um primeiro equilíbrio sobre as patas. O líder do grupo, surpreendido como um turista frente à erupção de um vulcão adormecido, sem repertório, só pôde estufar o peito e dar um passo à frente repetindo o cacoete desgastado de poder que conhecia. Um a um os amigos foram abaixando as cabeças, mergulhando o rosto novamente naquela verdade que também os machucava e não se lembravam de ter escolhido. Isso não é legal, cara. Outro moleque, ai...

Coberta Velha

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A crescida é invisível. O moleque devia ter seus 5 ou 6 anos quando sacou esta constatação filosófica, abismado com a marcação que a tia de Belo Horizonte fazia da sua altura no batente da porta e que ia mudando a cada férias. Por um longo tempo na viagem humana, o corpo cresce enquanto estamos distraídos. Grita um pouco na adolescência, mas seios e pelos seguem avançando a esmo e surpreendendo nossos olhos a cada manhã no espelho do banheiro. A crescida do corpo é invisível. A crescida da alma também é. Estive hoje me debatendo com minhas misérias muito revisitadas. Meu apego, minha necessidade de controle, meu comodismo em seguir querendo me enfiar na camiseta do passado que não serve mais. O calor e o conforto das faltas conhecidas. A crescida lá me puxando para a estrada. Eu querendo me enrolar feito um gato sobre a coberta velha e cheia de ácaros e dormir embalada pelo cheiro de sempre da casa. Eu, nesse aparente estagnar, invisivelmente crescendo. Entendendo na espera que o coraç...

Mães e Pais

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Este é para mães e pais que vão errar, quando vasculharem o quarto e quando deixarem de entrar, quando respeitarem o espaço e se faltar abraço na distância, quando trabalharem demais pra pagar a escola bacana e quando não conseguirem a grana pra comer. Este é para pais e mães que estão errados quando frustram, limitam e dizem não e quando dão demais. Este é para mães e pais. Este é pros malabaristas que caminham no fio da navalha do amadurecer sem traumatizar, do libertar sem adoecer, do amar sem enfraquecer, do bancar o menos tentando o mais. Este é para mães e pais. Pra quem tranca a porta pra chorar porque não pode não dar conta. Pra quem aponta o erro sem tirar o amor. E vai carregar pra sempre a dívida se tudo falhar e a dor se o filhote não sobreviver, e a dúvida de ter ou não falhado. Fadado a doer o tropeço do outro. Fadado a ter clareza quando é tudo fumaça. E jurar que passa sem nunca ter certeza. Este é para o ser que, dando a vida, dá a morte sem querer. E dando a morte ao ...