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Coberta Velha

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A crescida é invisível. O moleque devia ter seus 5 ou 6 anos quando sacou esta constatação filosófica, abismado com a marcação que a tia de Belo Horizonte fazia da sua altura no batente da porta e que ia mudando a cada férias. Por um longo tempo na viagem humana, o corpo cresce enquanto estamos distraídos. Grita um pouco na adolescência, mas seios e pelos seguem avançando a esmo e surpreendendo nossos olhos a cada manhã no espelho do banheiro. A crescida do corpo é invisível. A crescida da alma também é. Estive hoje me debatendo com minhas misérias muito revisitadas. Meu apego, minha necessidade de controle, meu comodismo em seguir querendo me enfiar na camiseta do passado que não serve mais. O calor e o conforto das faltas conhecidas. A crescida lá me puxando para a estrada. Eu querendo me enrolar feito um gato sobre a coberta velha e cheia de ácaros e dormir embalada pelo cheiro de sempre da casa. Eu, nesse aparente estagnar, invisivelmente crescendo. Entendendo na espera que o coraç...

Mães e Pais

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Este é para mães e pais que vão errar, quando vasculharem o quarto e quando deixarem de entrar, quando respeitarem o espaço e se faltar abraço na distância, quando trabalharem demais pra pagar a escola bacana e quando não conseguirem a grana pra comer. Este é para pais e mães que estão errados quando frustram, limitam e dizem não e quando dão demais. Este é para mães e pais. Este é pros malabaristas que caminham no fio da navalha do amadurecer sem traumatizar, do libertar sem adoecer, do amar sem enfraquecer, do bancar o menos tentando o mais. Este é para mães e pais. Pra quem tranca a porta pra chorar porque não pode não dar conta. Pra quem aponta o erro sem tirar o amor. E vai carregar pra sempre a dívida se tudo falhar e a dor se o filhote não sobreviver, e a dúvida de ter ou não falhado. Fadado a doer o tropeço do outro. Fadado a ter clareza quando é tudo fumaça. E jurar que passa sem nunca ter certeza. Este é para o ser que, dando a vida, dá a morte sem querer. E dando a morte ao ...

O Macaco Nu

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O homem viu atrás do arbusto o que parecia muito ser uma possibilidade de crítica. Entendam, uma crítica pode ser um bicho pequeno, mas pode não ser e devorar a gente. A crítica no subterrâneo do homem não era um bicho pequeno. Ela estava ligada ao impossível pressuposto de que ele, talvez também um bicho muito pequeno, não podia ser fraco, não podia errar, não podia distrair-se, não podia tropicar, não podia rir de si mesmo sob pena cruel da retirada do amor. Então, o instinto de autossobrevivência do homem entrou em standby por segurança. Eriçou os pelos das costas, retesou os músculos e colocou seu hiper foco no bicho atrás do arbusto que sim, agora ele tinha absoluta convicção de que era uma crítica. Entendam, o homem não podia deixar que ela crescesse dentro do peito e desenvolvesse mandíbulas fortes e cheias de dentes e avançasse sobre o pequeno bicho indefeso que ele não podia ser.  O homem estava ameaçado. O homem precisava contra-atacar.  Li uma vez em um livro do bió...

Seu Céu

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Um dia minha filha me chamou e me disse que precisava ir morar numa estação de pesquisa no meio do Polo Norte. Sentia que se houvesse uma chance de ser feliz seria no meio do gelo, numa paisagem toda branca e vazia. Então ela me abraçou chorando e arrematou que naquele lugar, infelizmente, a comunicação era impossível, as visitas eram impossíveis e que só havia passagens de ida. Olhei o paredão da represa à minha frente segurando toneladas de dor e disse que ela devia ir aonde o coração mandasse.  Nunca teria dito outra coisa e ela sabia. Partiu com seus olhos castanhos e profundos e seus cílios enormes de boneca que emolduraram minha figura emudecida. Quando embarcou no navio em direção à um possível céu, vi atrás de mim a represa se romper. A dor me arrastou pra bem longe de quem eu era e lavou todas as minhas ilusões. A única que me atrevi a guardar como um mimo é a de que a menina está lá, no Polo Norte, no meio do nada, do gelo,  e agora é feliz. * * Amo você, Pituca.

Coragem cenográfica

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A coragem do extremista é cenográfica. Serve só ao espetáculo. Coragem de gritar ódio em direção à muralha da própria bolha que sempre vai devolver-lhe o eco. E até quando explode abraçado a uma bomba, ele é o que menos se arrisca, protegido pelo conforto de habitar um universo simplório dividido entre o bem e o mal. Poupado pela preguiça emocional de poder ser indiscutivelmente do bem. Preservado pela ideologia que ele transformou em redoma inexpugnável. O extremista nunca corre riscos de verdade porque nunca corre o risco de se expor à verdade do outro. É o mais assustado dos seres, onde o medo fez sua melhor obra. A coragem mesmo está naqueles que se arriscam na metade do caminho onde os mísseis dos dois lados caem e são capazes de parar de correr no meio do estouro da sua própria manada. E abrem mão do espetáculo para trabalhar no terreno mais anônimo, menos midiático, menos imediato, menos lucrativo da construção de pontes. * * Às vezes me falam pra descer do muro. Eu vim destruir...

Chega de Show

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Zé Cenoura montou seu cirquinho poderoso do mal. Movido pela cenoura gigante e pontuda que habita seu inconsciente, Zé Cenoura equipou o cirquinho do mal com coisas pontudas que ameaçam. Ele tem uma técnica infalível aprendida com o clã cenoura onde habitam os Zés da comunicação do cirquinho do mal: berrar atrocidades no alto-falante do mundo. Manter o ser humano assustado e distraído. Vender culpa pra quem está frustrado e achando a cenoura pequena. Tá frustrado? Tá sem grana? Tá sem emprego? A culpa é do vizinho, do preto, do gay, do latino, do chinês, do extraterrestre e Zé Cenoura tem sempre uma solução simples, drástica, miraculosa, que já foi tentada e não deu certo mas não importa desde que você acredite mais uma vez que existe  uma solução simples, drástica, miraculosa para os problemas. O que importa para Zé Cenoura é o show do cirquinho do mal, tirar do guarda-roupinha sua fantasia de herói e correr pela sala com o braço erguido e o punho levantado no ar,  super Zé C...

Pode Acabar

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Não é mais sobre a guerra. Nenhuma guerra. É sobre a Terra, toda a Terra. Por que não é mais sobre quem estava certo, quem ganhou, quem venceu. É sobre a espécie que sobreviveu. Não é mais sobre o dono da autoridade, quem tem o cargo pra mandar. É sobre assumir a autoria de pequenas   crueldades. É sobre a capacidade de autorizar essenciais alegrias. Não é mais sobre recursos a explorar. É sobre  a sabedoria de  recusar-se a explorar, mudar o curso. Nem é sobre a urgência de cada reciclagem. É sobre a inteligência de ouvir a mensagem vital e se curvar humildemente ao ciclo natural. Não é mais sobre o poder que nos trouxe até aqui. É sobre reinventar o poder pra seguir sem apodrecer. Não é sobre o crescer é sobre o parir. Nem sobre o ter, é sobre o sentir. É sobre consumir sem adoecer. É muito sobre o que virá e ao mesmo tempo é sobre o já, o agora. E não é sobre a dor que vem de fora, o inimigo que ameaça. É sobre se saber o predador e sempre a caça. E não é sobre ser sal...