No galope da manada
Homens poderosos entraram na minha vila e roubaram o que
cada um tinha de mais caro. Da casa da frente, onde uma bandeira verde-amarela
rota ainda resiste discreta num canto da janela, levaram toda a esperança. E apesar
de discordar das escolhas da vizinha, me doeu vê-la no outro dia soturna e robótica
varrendo o piso de asfalto na sua porta. Na segunda casa à esquerda da minha,
arrancaram um a um cada fio luminoso de dignidade e foram largando pelo chão um
chorume azedo de cobiça e ganância ilimitada. Restou ao meu vizinho sentar-se
exausto no desconforto das desilusões sucessivas e misturar-se ao chorume. Deprimiu-se. Nunca mais abriu a janela. Na casa bem
ao fundo, a crueldade foi quase indescritível: a vizinha, uma senhora
aposentada, implorou pelos seus sonhos de cidadania e respeito enquanto os
homens poderosos avançavam sobre os poucos recursos da sua aposentadoria. O mais
triste, o que mais nos envergonha e nos abate: os homens poderosos entraram na
minha vila usando a chave do portão. Demos a chave a eles, confiantes de que eram os pais da nação e, como pais, seriam exemplos, e iriam nos conduzir enfim para a autoestima visceral de ser brasileiro. Não eram pais. Apesar de homens já muito adultos, eram
só imaturos pervertidos e viciados em ter e mandar. Curtos, medíocres,
mesquinhos, apenas hominhos obcecados pelos jogos do poder e do dinheiro. Da minha morada levaram temporariamente a
capacidade de discernir entre eles e os homens bons. A capacidade salvadora que
sempre carreguei de ver atrás da distração dos fogos de artifício onde seres
admiráveis seguem seu trabalho pequeno, consistente, transformador, para além dos heróis e dos mitos.
Levaram meu animo, minha alma. Deixaram esta perigosa sensação de que tanto faz,
de que nem vale mais fechar o portão pois a violência é inevitável. O plano é
claro: manter-me soterrada por avalanches de abuso e converter-me pelo
cansaço em uma peça ainda mais manipulável. Plano digno da limitação de homens que só conseguirão entrar pra história pela porta dos fundos. Mas, eles
não sabem, também estou mudando perigosamente por dentro e aprendendo a
enxergar-me no jogo, a entender as possibilidades de manobra e a encontrar meus
pares salpicados na manada. Assim que se
foram e deixaram minha vila arrasada, corri para buscar-me nos olhos deles e eu
estava lá, guardada no cofre mais seguro do mundo: a lucidez dos meus pares. E retorno a mim:
menos apegada aos meus sonhos e às minhas mágoas, mais comprometida com as pequenas manobras
possíveis dentro da dignidade que vamos inventando, para além dos heróis e dos mitos. Menos submetida aos pais inadequados que temos. Mais atenta às possibilidades de acordos sutis, mas decisivos, entre irmãos no galope da manada.
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