Homens Gigantes

Isso não é legal, cara. O menino de 16 anos puxou a frase do fundo trêmulo da garganta num gesto heroico que só outro menino entenderia. A roda de amigos se calou, um silêncio profundo e constrangido enquanto O cara, também um jovem como ele, com postura dominante, encarava perplexo. O menino arriscou mais um avanço com o olhar altivo, mas a voz ainda vacilante. Não é legal falar das meninas assim. Os demais se entreolharam como se ali uma nova ordem tentasse nascer para um triste mundo adoecido. Frágil, cambaleante, como um potro recém-nascido tentando um primeiro equilíbrio sobre as patas. O líder do grupo, surpreendido como um turista frente à erupção de um vulcão adormecido, sem repertório, só pôde estufar o peito e dar um passo à frente repetindo o cacoete desgastado de poder que conhecia. Um a um os amigos foram abaixando as cabeças, mergulhando o rosto novamente naquela verdade que também os machucava e não se lembravam de ter escolhido. Isso não é legal, cara. Outro moleque, ainda mais jovem que o primeiro, arrancou do fundo da alma cansada ecoando o primeiro menino. Juntos, num susto existencial, todos os jovens levantaram os olhos. Os meninos, que agora eram dois, se encararam amorosamente e foram saindo da roda. Sem fazer a mínima ideia do que tinham feito, dos homens gigantes que haviam se tornado, porque agora o silêncio desconcertante não podia mais deixar de ser ouvido.

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Para Rachel Ripani e as companheiras do Levante Mulheres Vivas.

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