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Simples

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Não combinamos que seria fácil. Porque fácil não era palavra importante. Tínhamos planos maiores. Combinamos de retornar-te ao simples que é muito além do fácil. O simples, lembra? Aquele avesso precioso do complexo? O complexo aceito, abraçado, digerido. Você estudou o jogo por muito tempo e elegeu nele suas escolas da vez. Olhamos juntas para a tela tridimensional chamada vida. Você projetou nos meus olhos o seu roteiro, fizemos ajustes, você partiu. Sem precisar do fácil que seria lembrar-se de quem você é. E brotou na tela tridimensional vinda do nada. Como se existisse nada. Segui o nosso roteiro e você, esquecida do antes, me odiou várias vezes. Enveredou numa sequência de complexos buscando um suposto fácil que te salvaria. Uma coisa que sabemos: não existe. Então, te vejo esmurrando as paredes do labirinto. Exausta de tentar saídas. E a saída não está no labirinto, não está na dificuldade que te distrai. Está no simples de que não existe o labirinto de fato. Ele é feito de átom...

Espera

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Há uma escada escondida num canto da sala. Desça até o último porão. Haverá um  longo corredor de luzes fracas, algumas queimadas. Siga até o fim onde uma porta espera semiaberta. Atravesse para o quarto onde ela tece. A senhora de dedos enrugados e tortos e cabelos brancos em desalinho. Tece e desfaz seu tricô: um mesmo sapatinho de menina. Tece e puxa o fio quando está quase pronto. Digam a ela que acabou. Que pode enfim deitar-se no chão e esfriar. Que pode seguir para o descanso na luz. Que pode correr para o infinito, para os olhos da filha. * * *

Acabou-se o fim

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A estrada acabada e eu andando em calma sobre o nada. Sobre o nada que eu sentia no caminho que inventava. No que dava. O passo firme sobre o abismo para o abraço da morte. E na morte do apego, o fim do medo. E, no sumiço do chão, minhas asas. E no vazio do coração, minha nova casa. O fim chegou e era mentira porque nunca acaba quando o pulmão vira alma e a alma respira. Nunca acaba de fato quando o amor não cabe e derrama. Pois amar é água que segue sua trama abrindo frestas, mergulhando poros, deitando leitos. Nunca acaba se não vira mágoa na estrada que não era. Acabou, mas sigo em frente carregada nos braços daquela que morre, se aduba e regenera. E sabe que a rota é sempre desconhecida. E corre de olhos fechados. E, mesmo quando achava, não estava perdida. * * *

A Nave

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Ame este corpo, mas não te distraias demais com ele. É só a nave que te empresto para a viagem na dimensão concreta. É teu escafandro e não tua prisão. Veste este corpo, mas desapega do teu nariz grande, teu seio pequeno, tua falta de bunda, tuas pernas assimétricas. Eu nada sei de padrões. Bela é a casca irregular da árvore, as patas peludas do inseto, a rachadura interrompendo o arredondado da montanha. E tu não és mais nem menos que aquela fissura. Então, não te distraias demais com os formatos únicos dos teus tecidos. São bordados que faço cada vez com um ponto diferente. São a prova da minha criatividade, nada mais. Desta vez, vieste com aparência de mulher, mas já vieste de tantas formas e virás de tantas outras. Não cobre tuas curvas de dor. São só uma brincadeira que combinamos de fazer juntos no tempo em que eras tudo. Cada corpo te propõe novas histórias para viver e para contar. É só isso. Não te deixes hipnotizar pela feira de corpos que teus irmãos criaram. Eles apenas ten...

Sentença de Vida

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Daqui até o fim serei a mãe torta, a mãe capenga, por conta do pedaço que me falta.  Mãe desalinhada, desenhada por Picasso, quase assustadora, com um buraco no meio. Daqui até o fim serei a mãe espatifada em muitos cacos, juntada e colada com cola colorida. Mãe mosaico com um caco faltando na beirada. Mãe manca, aleijada. Mas... daqui até o fim também serei outras, serei várias. Até a que é feliz. Serei assim apenas porque decido na minha qualidade de deus. E porque, neste buraco que me assombra, colocarei, todo dia, um punhado do amor com que piso na estrada mesmo com a perna amputada. * * *

Não mais

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Uma mulher, do alto de uma pedra, olha o mar. Ela não tem planos, ela não espera, ela não acredita mais em navios, nem em se atirar. Olha o mar porque ele existe, e só. Uma mulher, no topo de um rochedo, olha a linha do horizonte. Sabe que o oceano continua, e que, se avançar em linha reta, estará de volta a si mesma. Uma mulher navega parada sobre a pedra. Sem futuro, sem valor, sem ânsia.  Só tem de seu aquele corpo perecível recheado de alma. Um rochedo vazio olha o mar. A mulher? Dissipou-se no vento. * * *

O Sabiá e a Pitanga

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Veio a ventania e levou a menina. O vento abraçou, tirou do chão e levou rodopiando no céu feito uma valsa. Assim me contou um passarinho que viu. Quando cheguei, já ia longe, uma manchinha colorida no céu. A menina nos braços do vento. E eu, que tinha ido me buscar nalgum canto, quando voltei, outro pedaço de mim havia partido. Feito um dente de leão cheio de histórias, a alma da menina foi se replantar em outro plano. No começo, gritava ao vento que a devolvesse. E tive raiva dos dois porque sabia que ela havia consentido na dança. Magrinha que era, bem podia ter se agarrado em qualquer trem. Nada. Deu os braços pra ventania, passarinho me disse. Aqui nesse planeta, achava que os pés queimavam no concreto. Com o tempo, o chão esfria, eu falava no ouvido dela. Te levo um pouco no colo. Não quis.  Partiu, súbita, feito bexiga de gás escapulida da mão de criança. Pediu ao sabiá que me visitasse de vez em quando, mas de forma que ficasse explícita a presença dela. Passarinho se esfor...