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Let it be

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A gente sempre sabe, mas esquece. A odisseia nesse planetinha chamado Terra é viagem escolhida, preparada. Não tem sorte ou azar, é roteiro estudado. Tolice seguir temendo o impossível nada. O nada que é só vazio momentâneo de respostas. O nada que é logo ali onde a mente não dá conta. Eu sempre soube. Quando jovem esperneava demais... superei. Hoje, até quando me esborracho no chão, deslizo. Cair acontece muitas vezes. A gente sempre acha que está vendo, mas não está. Tudo é enviesado nesta vida de neblina e os olhos da carne são imprecisos. E cai mesmo. Melhor se entregar à flexibilidade quando os tombos são inevitáveis. Deixar o corpo se ajustar à queda. Quebra-se menos. Eu sempre soube, mas esqueço todas as manhãs para tocar o dia. Eu sei: de onde vim, para onde vou e porque estou. Eu sei até quando acaba. E há momentos que este saber escapole, vaza para a consciência em forma de intuição. Como disse a mãe do Beatle num sonho: deixa rolar que a resposta vem. Let it be. Eu deixo. Nã...

Texto para ninguém ler

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Não pude sobreviver ao suicídio de Celina. Dali em diante, interpretei minha existência. Tendo compreendido que não poderia, nem saberia segui-la, conformei-me em existir num estado de latência como aquele microrganismo que sobreviveu congelado por 24 anos num rio da Sibéria. Escolhi não falar sobre isto para não gerar desconfortos inúteis. O que vão fazer aqueles que me amam com o fato de que estou morta de pé no meio da cozinha? Aprendi que em nada suaviza compartilhar meu abismo. Este texto, por exemplo, vou publicar sem alarde, só os muito arqueólogos irão achá-lo. Aprendi também a distrair-me da minha morte entupindo as horas de afazeres, projetos, quebra-cabeças de mil peças, muitos pratos girando equilibrados na ponta de infinitas varetas... qualquer coisa que me libere do contato cortante com a memória, com a imagem nítida de estar lá enforcada ao lado de minha filha. Cena que nasce não do pavor, mas do desejo de não ter de caminhar com os pés feridos. Descansa em paz: promessa...

Como se fosse um grito

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  Não gosto de falar dela.  Mas não há truque, maquiagem ou photoshop capaz de disfarçar a cicatriz que divide meu corpo. Em cada sorriso que tento, sinto o corte no meio dos lábios a repuxar. Um rasgo centralizado nascendo na testa, cruzando o abdome, mergulhando no púbis e subindo pelas costas até o topo do crânio. Obra de uma tentativa desesperada da alma de deixar o corpo num dia em que este foi inundado pela dor. Não gosto de falar dela e, em geral, guio os olhos dos amigos para o humor irônico que me socorre nas porradas da existência. Ajeito o cabelo sobre a cicatriz, visto blusa colorida de gola alta e vou reduzindo os espaços que ela habita nos olhos dos que me amam. Por que não gosto de falar dela. Mas chega a hora do banho, quando estou só na caixa de azulejos, eu e meu corpo despido que às vezes vaza num pedaço do espelho sobre a pia... e então ela me engole como uma estrada sem fim ou começo desenhada na pele. Caminho onde vagará para sempre uma mãe que anda para ...

Meu filho, o cliente

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No restaurante, o jovem está sentado em frente à mãe com ar de tédio e olhos perdidos na tela de vidro do celular: absorto num papo de whatsapp elíptico e infinito. A progenitora se esforça em parecer interessante. Faz uma pergunta estúpida sobre o dia, os estudos, algum amigo, algum amor... O jovem retorce a boca num muxoxo cheio de enfado e responde com monossílabos sufocantes e aquela aura de superioridade blasé. Não soubesse que se trata de um filho e sua mãe e acreditaria tratar-se de um faraó egípcio sendo assediado pelo cotidiano desinteressante de uma serva. Eu, sentada na mesa ao lado, sinto o fígado latejar em espasmos biliares. Penso em me levantar num susto e dar um tapa coreográfico no telefone com força suficiente para que voe sobre as mesas indo se estilhaçar contra a parede mais próxima. Agarro com os dedos a xicrinha de café que há de manter-me como uma âncora resignada em minha mesa. Realizo que estou absolutamente identificada com aquela máquina de parir ...

É sobre "descer"

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Achei que era sobre ignorância, as eleições no Brasil. Ignorância irremediável. Não é. Para esta, que escreve, é sobre humildade. É sobre meu olhar de cima, irritado com o que ignora e não me escuta, e  prefere a frase fácil daquele que, ele sente, fala no mesmo nível. Não é sobre ignorância, é sobre minha superioridade do lado de lá do abismo. Eu intelectual, eu artista, eu ativista, eu militante. Eu de cima. E hoje sei porque já me senti neste abaixo: sob o olhar crítico dos meus irmãos sensíveis, informados, cheios de moral, éticos, iluminados. Como se eu pisasse com inadmissíveis patas sujas o nosso panteão de justiça e civilidade. Eu, que posso dar carteirada de intelectual e artista. Imagina aquela que vive há anos luz de distância mergulhada numa existência religiosa? Sei porque, sob este olhar de cima dos "meus", desejei mais o acolhimento dos ignorantes, dos pobres de espírito, do que mudar um país. Tão perto ouvir uma voz que me ecoa, tão longe estas palestras confu...

Devir

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A deusa arrancou-me o cabresto da cara, sem piedade. Eu, que ainda me agarrava a uns farrapos de certeza. Entrou imperiosa na minha tarde monótona e cortou as amarras dos meus arreios. E atirou minha auto piedade para o invisível. Acabou, ela disse. Nada mais de comprar expectativa pra alimentar queixa. Levanta e calça no pé as encruzilhadas,  a vida agora é devir. É acordar e entrar no rio, e sair sempre em outro lugar. Sem esperança de porto, sem medo de barranco. Acordar rio. Acabou, ela disse, o susto, as assombrações sob a cama, o mal à espreita, a dor de estimação. Agora, minha filha, a vida é devir. Acabou a morte, não tem mais perde e ganha. Tudo está perdido porque nada é seu. A deusa deu as costas, sem alarde, e mergulhou no meu peito. Acabou o drama, reforçou na profundidade da ausência: levanta e se veste de labirinto, e dança: a vida agora é devir. * * *

Precisamos falar sobre isto

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Parto, neste momento, da vontade de não viver. Sísifo, condenado, quer desistir de empurrar a maldita pedra até o topo da montanha de onde ela sempre rola.  A paisagem lá fora já está pálida e fria. Não me comove mais. Viver é enorme e pesado e morrer é simples. Sento-me na borda do abismo onde o vento, no vazio, me estende os braços e nele vejo um colo para descansar. Este é o momento precioso entre o ser e o não ser. Eu nada sei disso. Estou engolida pela descrença, crivada de pensamentos ruins que preciso calar. Este é o momento precioso entre o morrer e o acordar. Eu nada sei disso. Apenas aguardo o impulso final. Sou a mais translúcida das borboletas voando mar adentro. Só vejo paz em dissolver-me no todo. Então, percebo no horizonte, no encontro entre os topos dos prédios e o céu, uma fissura. Sutil, como se fosse um minúsculo defeito na paisagem. Sim, a abóbada celeste está rachando ali. Tento voltar para o meu abismo. Não posso. Há uma fissura no céu, um defeito na perfeiçã...