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Nada lá fora, só corpos

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Filme "Ensaio sobre a cegueira" O mundo na minha janela converteu-se em uma foto surreal da normalidade perdida. Não fossem algumas pessoas passando de máscara na minha rua, nada, absolutamente nada na paisagem me causaria qualquer estranhamento. O Jasmim Manga segue sua toada quase sem folhas rumo ao inverno. Alheio às tragédias humanas. O outono chegou na hora combinada e com ele as tardes mais cinzas e as temperaturas mais frias e os pores de sol mais lindos. Minha janela mente para mim que a vida segue e seguirá a mesma, mas rumores chegam pelo noticiário e dão conta de que já somos mais de 4 mil mortos. Não há 4 mil corpos na minha rua, só um vento suave. E eu poderia escolher o vento e negar a pandemia. Ela não veio, é tudo um filme, um sonho mau. Eu poderia inventar minha verdade e seguir num mundo sem pandemia por algumas horas mais. Eu poderia me juntar às manifestações de rua pedindo a volta ao trabalho. Eu poderia me colocar sem máscara colada aos homens e mu...

Álcool 70

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Está decretado: eu odeio as compras de supermercado. Profundamente. Estou aqui isolada em minha casa a aguardá-las. Meu marido, soldado designado para cruzar o campo minado de vírus e retornar com os mantimentos, já avança no front com a enorme lista na mão. Somos cinco pessoas no auto-cativeiro e temos mais fome do que o normal. Efeito emocional da quarentena. Significa que, hoje, o soldado voltará com uma, duas, três, quem sabe quatro sacolas cheias. Malditas, desgraçadas. Todas carregadas de caixinhas, saquinhos, forminhas ameaçadoras. Estou aqui sentada na cozinha em estado de torpor a aguardá-las. Com um spray de álcool 70 graus na mão direita e no meio da cara uma expressão congelada de desânimo. O vírus talvez seja evitável, adiável... as hospedeiras compras de supermercado, não. Já as odiava antes, mas, levemente. A peregrinação entre os corredores labirínticos do supermercado, as prateleiras coloridas onde produtos e marcas se embaralhavam indecifráveis, a fila morta do ca...

O Imponderável

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Está difícil andar no fio da navalha entre a fé cega e o conhecimento que machuca. Há sempre um lugar no meio onde a temperança nos aguarda, mas há tempos vivemos em dramáticos extremos. Há gente que precisamos assustar para que se cuidem, pois há quem só enxergue quando a vida o estapeia. E para estas é preciso desenhar a tragédia em detalhes e repetir diariamente feito mantra. Portadores da perigosa cegueira da ignorância, há que esfregar-lhes a morte no fuço para que não saiam, não se arrisquem, não morram, não matem. Mas há também um excesso de saber que desestabiliza. Uma curiosidade mórbida da mente que quer ser alimentada com todos os ângulos possíveis da tragédia. Uma necessidade de negar o imponderável e ter certeza inabalável sobre o futuro. Por que a mente não quer que você sobreviva, ela apenas precisa saber tudo sobre a sua morte. Nada mais aterrorizante para a ela que o susto: o desastre fatal que pula de trás do muro num dia de sol. Tranquiliza-se mais na desgraça pre...

O que Piora o Mal

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Obrigada, Senhor, por não me serem dados poderes divinos. Por não me ser dado o dom de fazer pessoas explodirem. Hoje, eu teria feito merda. Teria sumido com milhões de brasileiros. Não tenho mais paciência para gente que, no Brasil de 2020, xinga alguém que está de máscara higiênica na rua de comunista. Não suporto mais quem ostenta essa burrice com o furor de quem tivesse sido indicado ao prêmio Nobel. E não é só a burrice de nada saber sobre a história e o comunismo e o vírus que me incita ao ódio: é a prepotência de ser estúpido com orgulho. Muitos brasileiros, nefastamente, se portam como ignorantes orgulhosos. São tão ignorantes que não sabem que são, tão xucros que ajeitam a própria peia no pescoço pra combinar com a camisa. Conheço vários. Batem no peito e arrotam teorias sem sentido sobre tudo. Sabem de tudo mais do que qualquer especialista que tenha se debruçado metade da vida sobre o tema. Gênios de mesa de boteco, repetem feito papagaios qualquer conteúdo mal ajambrado ...

Meu Epitáfio

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Escrevam no meu epitáfio: aqui jaz a que não foi. Não foi atriz, não foi psicóloga, não foi poeta, nem escritora, não foi consultora, nem roteirista, não foi do lar, não ficou com os filhos, não teve emprego, nem magra, nem gorda, pobre, rica. Por aqui se foi a que não escolheu nada, a que vagou entre nomenclaturas num currículo improvável, a que não pertenceu a nenhum grupo e sempre gaguejou quando lhe perguntaram “o que você faz”. Aqui jaz aquela que se chamava folha no rio abaixo. A que foi levada pelo fluxo, agarrando aqui e acolá nos ramos das margens em paradas breves, sendo lançada aos turbilhões selvagens das correntezas profundas, voltando à tona em paisagens novas, desconhecidas. Escrevam no meu epitáfio: aqui jaz a que não foi. Anônima ou famosa. A especialista em generalidades. Virou cinza e foi esparramada no céu bem por aqui. E, na despedida, não se soube dizer a que ela veio. Era pra morrer solteira, mas casou e teve filhos, era então para ser mãe, mas isolou-se na ...

Devorem-se a si mesmos

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No alto da Terra Brasilis, no meu coração e ao meu lado, duas palavras,  permissividade e tolerância, se debatem. Se combatem e se confundem nos corações cheios de ódio do meu povo. Porque fomos e somos permissivos. Porque toleramos o intolerável. É histórico. Toleramos violências, abusos, demais. Assim a tolerância deixa de ser civilizatória e torna-se permissividade barbarizante. Deixamos falar, deixamos roubar, deixamos bater e o elástico já foi esticado demais. Deformou-se. Perdemos a noção do inegociável. Desta dor, tristemente, nasceram carrascos da tolerância cheios de razão. E qualquer negociação com o lado de lá tornou-se criminosa. E qualquer palavra do inimigo tornou-se veneno. Tudo virou duelo e estamos autorizados pela mágoa a atirar primeiro ou atirar o mais rápido possível. Refletir virou luxo dentro da trincheira. E nós (todos nós) que fomos e somos permissivos historicamente com abusadores, estamos autorizados enquanto vítimas a alguma intolerância com o difere...

Filhos

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Foto Andrea Pasquini Os filhos chegam ao mundo com suas malas. Dentro delas muito mais do que a genética pode nos ajudar a prever. Filhos carregam uma história que não nos pertence. E é dolorosa esta impotência de ser mãe ou pai. Difícil abrir mão da ilusão de que podemos salvá-los sempre. Não podemos. A eles cabe salvarem-se no final das contas. Podemos ensiná-los a nadar, mas não há garantias de que não se afoguem. E ganhamos muitas ferramentas para medi-los, pesá-los, sondá-los, escaneá-los, o que aumentou nossa responsabilidade sobre suas naturais deficiências. Se algo neles falta, torna-se eterna responsabilidade nossa saneá-los. E neles falta muito. Mancam, sofrem, se desesperam, não dormem, não comem, não querem ir à escola. Filhos são a fronteira final da nossa ilusão de controle. Eles capengam e nós nos debatemos com a conclusão de que não somos deuses. Fazemos o melhor e ainda falta porque a resposta não está em nós. Somos só companheiros deste trecho da viagem. No antes...