Postagens

O flamingo e o guarda-chuva

Imagem
No quarto fantasma, o ventilador de teto faz um ruído monótono de pás cortando o vento, a chuva tamborila na telha lá fora e minha mente-câmera novamente confere ao todo esta qualidade de filme. Paredes brancas estranhas do meu quarto das quais sempre desconfio. Boio, deitada na cama, num cenário surreal que insisto em desconhecer: minha casa. Tantas casas tive. Tantos quartos estranhos vivendo na memória. Eu sempre lá: flutuando uns centímetros acima do colchão e vendo os móveis virarem fotografia. Tentando com força voltar para o corpo, encaixar na matéria, no berço de fumaça. Vivendo com as unhas fincadas na cama: uma forma estúpida de viver. No quarto fantasma, na realidade que não me convence, sentindo o perfume de outras dimensões, talvez louca de pedra, boio acima do colchão duvidando da existência do ventilador. Eu: ser mal encarnado, mal ancorado ao corpo, mal iludido, fingido. Um guarda-chuva rosado no meio de um bando de flamingos.  Tentando mimetizar as aves e imprimir-...

Não saberá

Imagem
Não saberemos a resposta, amiga. Esta a realidade crua, incômoda e inescapável. Não saberemos a resposta. Somos autorizados, no máximo, a brincar de saber. É a condição para habitar neste playground humano. Só saber que nada sabe. Fuçar, fuçar, fuçar, cavar a terra até sangrar os dedos, até varar o mundo e não sair do lado de lá com uma mísera certeza, um vislumbre do que vem a ser esta existência. Por que é a dúvida que nos constitui na imensidão dos seres dramáticos e inquietos que somos. É o nosso barro.  Inescapável. Não saberemos a resposta. Então brinca de saber, renuncia ao susto. É o que resta. Cria ou adere a milhares de teorias certeiras e sólidas como as nuvens no céu. Enche o fosso do seu castelo de certezas e se abriga na torre alta feita de crenças. Lá, da torre, olha a vastidão das terras que em algum ponto se tornam desconhecidas. Uma válvula do seu coração irá tremular e descompassar ligeiramente tocada pelo sopro do medo. Lembra que é só um jogo, o fosso, a torre ...

Tudo bem assim

Imagem
Está tudo bem assim como está, assim como é, assim como dá. Reserva uns minutos na semana para se pegar no colo com doçura e repetir o mantra:  está tudo bem assim como está, assim como é, assim como dá. Cala a boca que acorda discordando, escrava da mente que nunca se satisfaz, e permite a si mesmo ser o que é. Larga a lapiseira que desliza compulsivamente em esboços do futuro, em projetos de realinhamento, de evolução, de preenchimento... Este saco de pedras que colocamos nas costas antes até de escovarmos os dentes e parecem raras, mas, se fossem, não pesariam tanto. Cascalho brilhante que nos soterra. Repete pra si mesmo neste instante como uma oração: está tudo bem assim como está, assim como é, assim como dá. Olha o todo e percebe o ser que luta, peleja, incansavelmente e mesmo assim nunca basta. Percebe seu direito de parar, de não corresponder, de não saber, de não conseguir. Para e reconhece a cenoura na ponta da vara à frente da carroça. Você nunca irá comê-la. Enxerga o ...

CARTA CRUEL

Imagem
D emorei a dizer da tua crueldade. Guardo em olhos de maré alta a forma como caminhaste rígida e cheia de ódio rumo à morte. Não era um momento de dor. Ias morrer naquele instante e não em outro porque te desautorizaram as reivindicações tirânicas e sem sentido. Nunca esquecerei as tuas passadas decididas a mostrar-nos do que eras capaz. E foste cruel como poucas criaturas se permitem ser. Deixaste uma carta fria, burocrática, bem cuidada demais para o tamanho da violência que pretendias arrematar. Uma carta sem a palavra “mãe”.   Demorei a erguer esta prece e te contar: foste de uma crueldade suprema ao matar a filha que tive. Me arrancaste um braço sem anestesia num susto daqueles que altera o código genético no interior da célula. Demorei a dizer desta tua soberba desprovida de amor porque suicidas ficam envoltos num silêncio apavorado como se fossem intocáveis. Não são. Seria eternizar esta crueldade, se eu não pudesse dizê-la. Segues sendo a minha filha e seguirei falando cont...

Let it be

Imagem
A gente sempre sabe, mas esquece. A odisseia nesse planetinha chamado Terra é viagem escolhida, preparada. Não tem sorte ou azar, é roteiro estudado. Tolice seguir temendo o impossível nada. O nada que é só vazio momentâneo de respostas. O nada que é logo ali onde a mente não dá conta. Eu sempre soube. Quando jovem esperneava demais... superei. Hoje, até quando me esborracho no chão, deslizo. Cair acontece muitas vezes. A gente sempre acha que está vendo, mas não está. Tudo é enviesado nesta vida de neblina e os olhos da carne são imprecisos. E cai mesmo. Melhor se entregar à flexibilidade quando os tombos são inevitáveis. Deixar o corpo se ajustar à queda. Quebra-se menos. Eu sempre soube, mas esqueço todas as manhãs para tocar o dia. Eu sei: de onde vim, para onde vou e porque estou. Eu sei até quando acaba. E há momentos que este saber escapole, vaza para a consciência em forma de intuição. Como disse a mãe do Beatle num sonho: deixa rolar que a resposta vem. Let it be. Eu deixo. Nã...

Texto para ninguém ler

Imagem
Não pude sobreviver ao suicídio de Celina. Dali em diante, interpretei minha existência. Tendo compreendido que não poderia, nem saberia segui-la, conformei-me em existir num estado de latência como aquele microrganismo que sobreviveu congelado por 24 anos num rio da Sibéria. Escolhi não falar sobre isto para não gerar desconfortos inúteis. O que vão fazer aqueles que me amam com o fato de que estou morta de pé no meio da cozinha? Aprendi que em nada suaviza compartilhar meu abismo. Este texto, por exemplo, vou publicar sem alarde, só os muito arqueólogos irão achá-lo. Aprendi também a distrair-me da minha morte entupindo as horas de afazeres, projetos, quebra-cabeças de mil peças, muitos pratos girando equilibrados na ponta de infinitas varetas... qualquer coisa que me libere do contato cortante com a memória, com a imagem nítida de estar lá enforcada ao lado de minha filha. Cena que nasce não do pavor, mas do desejo de não ter de caminhar com os pés feridos. Descansa em paz: promessa...

Como se fosse um grito

Imagem
  Não gosto de falar dela.  Mas não há truque, maquiagem ou photoshop capaz de disfarçar a cicatriz que divide meu corpo. Em cada sorriso que tento, sinto o corte no meio dos lábios a repuxar. Um rasgo centralizado nascendo na testa, cruzando o abdome, mergulhando no púbis e subindo pelas costas até o topo do crânio. Obra de uma tentativa desesperada da alma de deixar o corpo num dia em que este foi inundado pela dor. Não gosto de falar dela e, em geral, guio os olhos dos amigos para o humor irônico que me socorre nas porradas da existência. Ajeito o cabelo sobre a cicatriz, visto blusa colorida de gola alta e vou reduzindo os espaços que ela habita nos olhos dos que me amam. Por que não gosto de falar dela. Mas chega a hora do banho, quando estou só na caixa de azulejos, eu e meu corpo despido que às vezes vaza num pedaço do espelho sobre a pia... e então ela me engole como uma estrada sem fim ou começo desenhada na pele. Caminho onde vagará para sempre uma mãe que anda para ...