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Nonada

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Prazer no nada. Nonada é a minha casa. Casa de quarto e sala e um banheiro bem mínimo. Sem cargo, função, listas de ter e fazer. Sozinha boiando num silêncio indecente. Sem perspectivas que avancem para além de criar o jantar. Sem roupas na mala que durem para além de dois dias. Sem semana que vem. Prazer que sobe pelas pernas a cada casca morta despregada da alma. Prazer obsceno do corpo nu vestido só de essência. Sensação de estar pronta desde o começo, de bastar. Descoberta surpreendente do simples depois do nevoeiro das complexidades. Descoberta pacificante de que fui eu quem desenhou o labirinto que atravessei e sempre soube a rota a seguir. Fui eu quem planejou cada beco sem saída e concordou em esquecer o mapa em nome da aventura de viver.  Fui eu quem salpicou as minas terrestres, os cacos de vidro, os oásis, num projeto generoso de evolução. Eu criei a complexidade para sobreviver a ela, desmistifica-la e voltar leve, imaterial, imprevisível, para Nonada. * * *

O Sol está em casa

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O sol na casa da vida: a taróloga olhou com alguma esperança de que ela sobrevivesse àquele atropelamento existencial. Estava lá, apesar da noite escura da alma: o sol na casa da vida. Na cidade devastada pela bomba, uma mulher se ergue dos escombros, ferida mas de pé: o sol na casa da vida. Não esteve sempre lá, ela sabe. Foi um dia um sol desenhado a lápis numa folha de caderno, sem luz e sem cor, que ancorava uma vontade pálida de viver. Papel colado na cabeceira da cama para lembrar de uma eterna busca quando nenhum sol havia. Está lá agora, a mulher das cartas disse.  Grande e luminoso, mas feito de caquinhos: ela sabe. A vontade de viver inventada estrada afora na colagem de muitos pedacinhos que pareciam impossíveis de encaixar. O olhar anonimamente amoroso para o mundo, seus seres e suas histórias, conquistado. Está lá feito mosaico na carta do tarô e no meio do peito dela. É seu lastro na passagem do furacão que carregou quase tudo e lançou longe na impermanência. O sol na...

A Insuportável

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Ela está louca, concluiu a ciência, a família, os vizinhos. Falando coisa sem coisa. Contradizendo os sentidos, as bulas, as receitas, as fórmulas: chama tudo de invenção e propõe aos amigos que acordem. A realidade é uma ilusão, repete. Foi assaltada por esta constatação e deu pra enxergar tudo misturado. O indivíduo é uma mentira. Tudo é junto, é compartilhado. Está louca.  Afinal, o limite é visível, claro, inegável. Eu não sou a mesa que não é o cachorro que não é o vento que não é o homem negro que não é o judeu que não é o transexual que nada tem a ver com aquele aborígene da Nova Guiné. Fato. Ela está louca. Mas o pior não é isso. O insuportável é a gargalhada louca dela pairando acima da nossa dor cheia de limites. * * *

A minha história verdadeira

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Há 3 meses minha filha de dezesseis anos se matou. Eu estou aqui para dizer o que comecei a aprender antes dela partir. O que, hoje entendo, me foi ensinado para que eu soubesse fazer parte da história dela. Aprendi que você narra a sua vida, cria esta narrativa, seja ela qual for. Não existe A realidade, O fato. Existe a história que você conta... que você se conta. E vale para meninas que se matam e para tudo mais. Então, te conto agora o que escolhi me contar. Após um ultrassom, no terceiro mês de gravidez de trigêmeos, soube que um dos bebês tinha quase 70% de chance de ser portador de síndrome de down. E o fato deste bebê carregar uma deficiência poderia resultar no aborto espontâneo dos três. Uma das possibilidades, neste caso, para evitar riscos para todos, seria tentar uma redução: retirar apenas aquele feto. Mas, a redução também poderia resultar na perda da gravidez. Sem paz no conhecido fui bater na porta do mistério. À noite, na minha cama, conversei com a criatura no meu v...

O Resgate

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O Pequeno Príncipe e a Cobra

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Eu tenho 16 anos. Tinha. Estou morta. Enforquei-me no banheiro da casa dos meus pais. Escrevo aqui através dos dedos de minha mãe. Eu nunca escrevi bem, deu-me um trabalho grande minha carta de despedida que reescrevi muitas vezes e, mesmo assim, sei que ficaram erros perdidos em algumas linhas. Esperei que o coração de minha mãe se acalmasse um pouco, então pedi a ela que me emprestasse seu dom uma vez para que eu dissesse a todos vocês que choraram e choram, que se assustaram, que ficaram perplexos, que perderam o chão: morrer é um direito de quem nasce. Viver não é obrigatório. Viver não é para compreender, é para ser bom. E para ser suficientemente bom, em algum lugar tem que bastar estar vivo. Sem enfeites, penduricalhos, sem fazer nada, sem ter nada... Tirar tudo de cima, mergulhar no vazio, na solidão, no possível e encontrar o prazer de viver, de estar conectado. Quem fica é porque encontra. Morrer também não é para compreender. Muitas teorias sobre minha morte vão caber e nenh...

Abismo 11 - Espírito Grande

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