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O Casaco Morto

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Photo of freediver Hanli Prinsloo by Annelie Pompe É final de ano e tenho comichões de me livrar de coisas. Elas me assombram dentro do meu closet. Um casaco de couro que nunca usei vive ali morto em um cabide. Lindo, não posso doá-lo. Um dia será usado com certeza, numa ocasião especial, meu apego repete apavorado sempre que decido livrar-me dele. Nunca será usado! Berra minha alma incomodada com as dezenas de cabides pairando sobre as seis prateleiras de sapatos. Quantos pentes, escovas, quantas presilhas de cabelo, quantos frascos de perfume, quantos brincos, lingeries, bolsas, echarpes coloridas preciso para não ser? Que me dizem estes objetos sem propósito do meu propósito disperso em objetos? Coisas pra guardar, coisas pra limpar, coisas pra cuidar, tecidos, metais, borrachas, inertes, mortos, que me dizem? Falam da minha essência perdida no excesso de nada, da minha falta de básico e da minha insistência em chamar espaço de buraco. Esta ausência de mim que enfeito e um di...

Fala

O mundo é muito grande Pra gente não se trombar Você pode ir cantando Sem precisar me calar Se eu tiro a roupa no palco E você usa saia comprida Se vão à peça ou ao culto Deixa que cada um decida Esse país é tão grande Cabe sua fala e a minha Todo amor é generoso Fé não pode ser mesquinha No espaço que é público Tem que caber todos nós E principalmente aqueles Que raramente tem voz O conservador evangélico O umbandista liberal O político e o artista A mãe do transexual Aquele que é igualzinho Ou totalmente diferente Porque este espaço se paga Com a grana de toda a gente O mundo é muito grande O nosso país também Quem espalha o amor que tem Quem fala em nome do bem Fala sem calar ninguém. * * *

O Menino e o Abismo

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O moleque era um fenômeno. Desde que começou a dar passinhos na sociedade era assim: quase perfeito. Bom em tudo. Aos cinco já era expert no dominó. Um arremedo de gente e já sabia dizer a marca de qualquer automóvel que você apontasse na rua. Eleito, nos primeiros anos da educação infantil, o menino simpatia de quem a maioria queria ser amigo. Nos desafios acadêmicos: um trator. Nem as piruetas da história, nem os labirintos matemáticos, nem os mistérios da ciência, nem as complexidades da língua portuguesa, nada era páreo pra ele. Sempre dez ou quase, sempre entre os melhores da sala. Nos esportes também não se acanhava. Observá-lo, aos dez anos, acertando uma sequencia implacável de jabs num saco de pancada, numa aula de boxe cercado de adultos, era hipnótico. Nem precisava ser engraçado, espirituoso, mas era. Por onde passasse, as mães dos coleguinhas retornavam elogios. Educado, divertido, carinhoso com as crianças menores, eterno convidado para a casa de amigos nos finais de ...

Você Cidadão Vira-Lata

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Não é sobre José ou João, é sobre nossa autoestima baleada e cambaleante. Entenda que José e João já ocuparam demais o seu espelho. Com eles na frente, você simplesmente não se enxerga. Se enxergue. Difícil de acreditar, depois de tantos atropelamentos cívicos, mas você merece ser respeitado. Você cidadão vira-lata do planeta acostumado a ser enxotado da porta do boteco do primeiro mundo. Você que inventou até um certo charme para ser torto. Que um dia achou bonito uma leve malandragem no proceder. Você que criou um comercial de TV enaltecendo o jeitinho brasileiro. É. Faz tempo... mas é a sua história. Então não vamos mais falar de José e de João. Poupe-me desta cantilena do quanto João era ladrão pra justificar que hoje você vai ao baile com José que é um grande e visível escroto. Nada nesta retórica te dignifica. Poupe-me das suas justificativas enfeitadas para tolerar o abuso. Não é sobre José ou João, é sobre você, é sobre mim. É sobre respeitar-se. Entenda que a autoestima não...

Miserável

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Eu carrego em mim, embutida, misturada à carne, as carências da minha infância. A necessidade de negociar tudo, sempre, quase como um cacoete. O olhar que corre para a coluna do preço no cardápio do restaurante. Reflexos distantes da filha do motorista de caminhão que muito raramente foi a um restaurante. Eu carrego guardada, talvez com excesso de zelo, a imagem da geladeira vazia e a história dos meus irmãos vendendo anáguas na vizinhança para poder comprar carne. Eu carrego com cuidado, não largo, tenho por elas um amor vital que aguou minha raiz. Ancorada nas pelejas da minha família grande e seus improvisos na sobrevivência, desenvolvi uma alergia ao luxo, uma incapacidade de entrar numa loja cara e comprar sem olhar o preço. O gesto não me dignifica, não me engrandece, não me dá orgulho. E trai a criança que eu fui. E eu entendo que cresci e não preciso mais viver com ela na boleia do caminhão do pai. Tem sido longo e exaustivo o esforço de fazer esta menina calçar salto e ...

Alguma Possivel Esquerda

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Eu costumava ser de esquerda. Parece que não sou mais. Parece que não sou mais suficientemente de esquerda. Parece que minha carteirinha foi cancelada. Acabou. Os sintomas do fim começaram leves, pensei que eram só rebotes da minha irritação generalizada, a menopausa chegando. Comecei a me irritar com discursos de esquerda. Alguns que eu mesma havia pronunciado à exaustão em eras não tão remotas. Começaram a não soar mais a “olha como somos legais”.  Mas eram só ruídos ao longe no começo: uma sensação genérica desconectada de qualquer racionalidade visível. Achei que iria passar. Artista, formada em Humanas, politizada, crítica, eu só podia ser de esquerda. Mas a história do meu país foi nos levando para uma estrada apertada demais e, de repente, só havia duas mãos. E eu tinha que caber numa esquerda que eu não cabia. Quando os discursos se acirraram, meu deslocamento ficou nítido e começou a me incomodar mais. Fui percebendo em mim e nos arredores a arrogância dos sens...

Linikers

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Se é moço ou moça Se o moço é moça Se é ponte ou fosso Se a lua cabe na poça Se a moça é ele Se tem namorada Se ela é amada Se o moço é ela Se é vice-versa Se é broto ou poda O que te interessa? Por que te incomoda? Se o cravo é flor Se o menino é doce Se é por amor Se é felicidade Se ela é menino No fundo da alma Se no próprio corpo Ela se afoga E ela se salva O que te interessa? Que maldade é essa? Por que te incomoda? * * *