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Intersecção

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Ontem não era você, cara, que gritava por tolerância? Que denunciava a agressividade vazia movida pela frustração? Não foi você que alimentou sua rede com posts lindos falando da necessidade de se colocar no lugar do outro? Do diferente? Não era você a vítima dos que atiram primeiro e perguntam depois? Não era você o grande arauto das publicações contra o preconceito? Sabe o que é preconceito, cara? Preconceito é rotular sem escutar. Preconceito é colocar todos os gatos: pardos, brancos, pretos, no mesmo saco só porque você é cachorro. Preconceito é achar que a sua régua é a única que existe e tudo tem que caber nela. Preconceito é enxergar em preto ou branco, sem tons de cinza. É eximir-se de praticar a compaixão porque segundo mensagens dos seus pares no whatsapp o outro é mal. É rotular os que não se encaixam no seu extremo de covardes, traidores. O teste maior dos valores é ter um inimigo no poder. Se então nossos valores se deformam, se a mágoa nos cega, se nos tornamos os defe...

A lama nossa de cada dia

A lama Novamente a lama Mais uma vez a lama A cena se repete exaustivamente como um episódio neurótico Como uma esfinge que perguntasse infinitas vezes a mesma pergunta E a quem respondêssemos exaustivamente a resposta errada A lama Novamente a lama Mais uma vez a lama Como um outdoor de beira de estrada cheio de corpos Que se repete a cada cem quilômetros Incomodo profundo, mas breve. A cada cem quilômetros, garantido, um novo susto A lama Novamente a lama Mais uma vez a lama Não é terremoto, não é incêndio, nem furacão, percebe? É a lama e sua tradução urgente E esfinges não desistem das respostas E neuroses não desistem da cura E ela não desistirá de nós A lama Novamente a lama Mais uma vez a lama Não é Macacos, Miraí, Mariana, Brumadinho É a barragem dentro do homem mal construída pra conter o egoísmo Não é um paredão num rio de Minas que se rompe É a boca aberta de poderosos sem luz Vomitando desamor sobre gente que n...

Torturante Dezembro

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Torturante dezembro de qualquer ano: mês de rituais festivos obrigatórios, compromissos, retrospectivas, expectativas, mês do fim das coisas e da minha chegada ao mundo. Família reunida, uva passa, peru com farofa, presentes... E eu emborcada no meu estranhamento. Sobrevivo ao Natal sem grandes performances: comporto-me bem à mesa falando futilidades, bebo vinho demais, como em excesso para me distrair numa overdose dos sentidos. Tento dormir cedo. Frustro minha filha que quer receber o presente à meia noite. Tenho a meu favor o fato de ter montado a árvore com seus enfeites e luzinhas, também comprei presentes para os mais amados e encomendei a ceia. Minha filha me perdoa e fujo para as profundezas do lençol. Venço a primeira etapa e sigo para o segundo round: meu aniversário. Que criatura abominável se esconderia no próprio aniversário? Sim, estarei na estrada como quase sempre ou em algum lugar simplesmente longe. Aquele climão de fim e eu com este encargo de renascer. Dou meia v...

Kafka Brasil

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Do livro "My First Kafka" Acordo no Brasil kafkanianamente transformada em uma barata ideológica. Não entendo como tudo aconteceu tão rápido e em uma noite apenas deixei de ser gente e virei um bicho tão i-mundo. De repente, minhas antenas não entendem mais os discursos saudáveis dos líderes do país. Capturo palavras soltas. Parece que falam de uma ameaça comunista. Esforço-me com meus ouvidos de barata para entender... não consigo. Tentam me alertar ainda de um perigo nas escolas... Depois de muito fustigar meu cérebro de inseto, entendo que tem a ver com sexo... Velhos de cabelo muito tingido mexem suas bocas buscando se comunicar com a barata ideológica que me tornei... as frases chegam até mim como zumbidos e chiados... Parece que Jesus está envolvido em algo... Jesus, comunismo, sexo, escola, ameaças... Faço um esforço supra-humano para juntar as palavras num contexto lógico. Não consigo.  Coloco minha cabeça de barata na janela e tento ver algo lá fora que faça alg...

Ode ao Cão

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Carrego presa à coleira esta parte fundamental de mim: o cão. Nela encapsulada meu bicho esquecido. Face minha que apaguei para viver em suposta paz e abundância entre os da minha espécie. Cuidei de mantê-lo perto quando ainda era lobo. Cuidei de mantê-lo junto para nunca me esquecer de quem sou. Salvaguarda da minha natureza duramente domesticada.   E quanto mais me afastei de mim, maior se fez meu amor por ele.   Disfarcei-o em objeto dócil do meu lar, adaptado ao meu estilo, e projetei nele toda sorte de humanidades que ele suportou alegremente. Mas não é esta submissão que me fascina, pelo contrário, é a barriga sempre encostada ao solo, o olhar perdido de quem ainda sabe enxergar com os ouvidos, a contemplação meditativa do nada com a cabeça abandonada no chão, o despudor de rolar as costas brancas no barro e a capacidade superior de perseguir rastros invisíveis. É o que fui.  Ele é minha alma animal esparramada na grama, quarando ao sol, indiferente às catástrofe...

Meia Luz

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Neste momento de meia luz, meia clareza, meia vontade de prosseguir, embalo meu sonho no colo feito criança que acordou na madrugada de um pesadelo muito vívido. Meu sonho olha com as pupilas dilatadas nos meus olhos pedindo uma palavra de conforto. Desvio olhar e balanço o corpo resignada. Lá fora o ódio pulando de boca em boca numa corrente que resseca almas e disponibiliza de cada um o seu pior. Meu sonho, trêmulo em meus braços, nada entende. Quando foi que minha felicidade se atravessou no caminho da sua? Quando foi que, para você ser família, eu não pude mais ser livre? Quando foi que a minha arte, feita na peleja constante da falta de tudo, ameaçou a economia do seu país? Quando foi que o meu amor por alguém do mesmo sexo te impediu de amar quem quer que fosse com o amor ao próximo que seu Deus te pediu? Nesse momento, em que a chama da minha vela fraqueja exposta à ventania e meu sonho sente frio, eu te pergunto minha irmã, meu tio, meu vizinho, minha amiga, transeunte que ...

Brasil Outubro 2018

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Não me peça silêncio quando na casa vizinha um abuso se reedita. Não me peça silêncio quando, no palanque, se fala em nome do abuso. Não me peça que não te incomode quando na outra calçada alguém sofre um abuso. Não me peça silêncio quando o abuso mete seus dedos frios pelas frestas da janela determinado a entrar. Esta não sou eu. Perderei seu amor e me arriscarei no seu ódio. Não espere silêncio onde minha humanidade grita. * * *