Postagens

Revoluçõezinhas

Imagem
Na era do excesso de comunicação vejo as grandes revoluções perdidas para manipuladores. Me socorro nas pequenas revoluções diárias: compartilhar conhecimento nas redes sociais, catar lixo no chão, cumprimentar com meu melhor sorriso o velho solitário que caminha pelo parque todas as manhãs, cuidar do outro, estar presente. Minhas micro-revoluções estão a salvo porque são anônimas, invisíveis. Ninguém quer comprá-las ou vendê-las ou colar lantejoulas nelas. Ainda são desinteressantes para o sistema. Não têm bandeira, nem porta voz, nem expectativa de mudar o mundo.  Se bastam na reinvenção pessoal diária, na sensação de integridade, na paz de cada abraço amoroso. No tempo da comunicação fria, vejo valores mortos em hipertextos e falatórios virtuais e me abrigo nos pequenos oásis plantados na realidade cotidiana: a risada inesperada do alto executivo, a história sábia contada pela atendente da padaria, os minutos forjados no caos da agenda para encontrar o amigo. Bolhas de sabão ...

Tempo de Lagarta

Imagem
Há respostas que só virão no seu tempo. Nem terapias, nem bolas de cristal, nem chás alucinógenos serão capazes de fazê-las nascer a fórceps. Teremos que suportar as indefinições ardendo enfiadas embaixo das costelas, agarrados a palavras soltas da frase que não se forma nunca. Perguntando mil vezes ao oráculo, esmurrando inutilmente as esfinges para que nos decifrem. Há entendimentos que, apesar de prontos no fundo da mala do universo, não serão entregues porque precisamos deles, porque os queremos. Chegaremos a tocá-los com a ponta dos dedos, como um sopro de premonição, um vislumbre do porvir, mas a compreensão escapará escorregadia e nos devolverá ao nevoeiro.  Por que há respostas que só nos arrebatam quando abdicamos da busca, quando queimamos os mapas e sentamos no silêncio. Quando nos entregamos à escrita do tempo e seus mistérios. Quando nos abandonamos na correnteza. Então, elas nos encontram.  Brotam do nada sobre a mesinha de centro da sala. E o absurdo total qu...

O Outro Planeta

Imagem
O velhinho cata os lixos do parque, Silenciosamente. Cata os lixos da alma do mundo, Sem alarde. Abre buracos na terra e enterra sementes, Anonimamente. Explica que é para os netinhos, Gigantesco. Eu, catadora de lixos no caminho, Encontro o velhinho. E conversamos flutuando em extase No plano sem linhas Da compaixão, do respeito, do cuidado. Onde a separação inexiste. Onde o lixo que tiramos da pele do planeta Deixa respirar nossa própria pele. Nosso planeta, meu e dele, onde há paz. Há tantos planetas coexistindo no aqui agora, A física me diz. Por que escolher o planeta dor e não o dele? * * *

Acorde

Imagem
Sua opinião é só um conceito herdado e transitório Não agrida por ela Sua boa ação é só uma inteligência na unidade do todo Não se vanglorie dela Seu ídolo é só uma projeção da sua vaidade Não se entregue ao fanatismo Seu mártir é só a casa da sua vítima Não o coloque num altar O poder é ilusório quando desestabiliza A inteligência é enfeite quando não tem amor A filosofia é oca quando não é vida O caminho é dor quando é separado E esta dor é o alarme da existência tocando num quarto enganoso criado pela sua mente. É só um jogo de pensar. Enxergue o jogo. Jogue sem dor. Acorde.

O Silêncio Dentro do Espelho

Imagem
O radicalismo é, antes de tudo, uma forma de chamar a atenção. A criança não é amada, não é percebida, e torna-se prisioneira de um narcisismo reverso. O narcisismo dos desamados. Bate a cabeça na parede, coloca fogo na mesinha da sala, para ser vista. O adulto radical explode bombas no shopping, usa palavras bomba nas redes sociais, ideias bomba em comícios. A mãe o vê, a mídia o vê, a sociedade trava seus holofotes sobre ele. Não existe som dentro do espelho, então radicais são surdos. Esqueça: toda conversa com um radical é inútil e ilusória. Treine o ser luminoso em você para mapear a fala estéril do narcisista e desvie-se dela. Tire o oxigênio da fogueira, não caia no jogo da guerra, lembre-se: faz parte do teatro do narciso radical ser estapeado, despedaçado. Cada tiro, facada, que você dá nele é sua atenção conquistada, é um orgasmo na dor. Não rebata a bolinha do radical, deixe cair no chão da sua quadra, não é uma derrota, é a sabedoria de não jogar o jogo do mal nem fora,...

Bilderberg

Imagem
Eu sou o gado que a economia toca Acho que decido, nada, eu sou a vontade que a economia gera Acho que voto, nada, eu tenho o candidato que a economia topa Eu sou o gado que a economia toca Faço a guerra com a mão que a economia arma Mato a Terra em nome do sonho que a economia cria Acordo pra equilibrar a bola no focinho todo dia Enquanto o planeta se esgota, a meta só duplica E cada dia a bola é mais pesada e é mais dificil ser foca Eu sou o gado que a economia toca Em troca recebo de vez em quando uma pílula de alegria Uma roupa nova, um carnaval, uns dias solta no pasto O AMOR, A FELICIDADE HUMANA, A COMPAIXÃO: EM QUE ESTA ECONOMIA FOCA? Eu sou a rês que desconfia. * * *

Perdendo Meu Tempo Com Você

Imagem
Existe um narcisismo nefasto por trás da sua rigidez. Vou te contar, compadre, no fundo desta boa intenção inabalável para com o país, o mundo, a humanidade, tem um narcisismo seu. Nascemos em lados diferentes do jogo, eu e você, e isso não me assusta. A diferença não me assusta. Me apavora essa paixão com a qual você se agarra à verdade e rosna. Esta arrogância, intelectual ou burra, de quem fala cuspindo sua crença. Esse radicalismo surdo dos encantados pelo espelho colado atrás de uma opinião. Há muito não se trata de encontrar solução mas de preservar um pedestal ideológico em cima do qual você dança. E isto sim me assusta compadre, porque esta postura é o colchão estúpido das guerras. E é estéril pra nós dois. Só serve a quem vende armas. E quero te dizer compadre amigo, porque com os que se consideram inimigos já não desperdiço verbo: cabe muita frustração numa receita de mundo ideal e frustração gera raiva e sua raiva não está ajudando, percebe? Pode até criar algum frisson n...