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Casca de Ovo

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De cima do salto

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Ela leva o inimigo consigo, preso ao sutiã, nem precisa empecilhos, também carrega vários na bolsa: não é tão boa, não é tão talentosa, não é suficientemente magra e aquele lugar quentinho e iluminado certamente não é pra ela. Levou muito a sério a parte do borralho na história da princesa e segue achando que um homem, com um sapato que lhe sirva, vai autorizar sua realeza. E quando o sapato serve, aquele troço desconfortável de vidro, nunca fica perfeito como devia, o que reforça sua certeza de ser a impostora do castelo. Foi inoculada na infância com o vírus da menos valia e, adoecida, se esforça infinitamente mais que os irmãos machos para merecer o mesmo quinhão. Não tem culpa. Foi educada para não chamar a atenção. Se entrar embaixo do facho brilhante do holofote, sabe lá Deus que desgraça irá autorizar. Guarda memórias ancestrais de irmãs curandeiras sendo queimadas vivas  e outras atacadas porque manifestaram alguma sensualidade ainda que inconsciente. Sofre do pavor de ser ...

Dia bom

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Há dias bons. Sempre no meio dos dias cinzas, estragados, dos dias de tristeza olhando pra tudo aquilo que não muda... há dias bons: em que a gente se pega cantando baixinho uma musiquinha boba... esquentando as canelas num sol morno de inverno e puxando do céu um fiapo de vontade... Há dias bons... Em que as cobranças ficam caladinhas e podemos apenas deslizar sobre o piso ensaboado...  Fazer nada sobre tudo.  Dias de existir só feito uma folha, um vento, uma bobagem qualquer de plástico. Às vezes podem ser escassos, raros... mas existem, eles, os dias bons. Não avisam quando vêm, não fazem alarde e em geral ocupam bem menos a nossa memória que os dias maus. Dias em que a gente percebe que respira e isso é bom. Mas logo esquece porque respirar é uma bobagenzinha cotidiana. Eles existem apesar de tantos sustos pulando em nós a cada esquina. Dias que fluem e todos os semáforos estão abertos. Existem e a gente chega até a estranhar porque, diante de tanta tranqueira que inventam...

Acorda, princesa

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Atenção gatas borralheiras! Vocês docemente aquecidas pelo fogo do abandono. Atenção companheiras do rabo do fogão, do piso infinito do castelo que nunca brilha o suficiente, projetos de princesa esperando um sujeito com um sapato perdido na mão. Atenção amigas de borralho porque a notícia é quente. Não tem sapatinho de vidro. Já ouço vossos suspiros desesperados. ÓÓÓ! Não tem. Não adianta esticar o pé pra cada sujeito que passa. O pobre sequer está dando conta de pagar o capim do próprio cavalo. Não é prioridade dele enfiar nada no seu pé. Ele está focado em encontrar uma podóloga barata para si mesmo. Atenta, parceira do quartinho do fundo do castelo: o cara não vem! Te salvar, te acolher, te reconfortar, te inspirar, te amparar, te impulsionar, segurar a sua mão, te arrancar desta vida miserável em que você é vítima de um mundo madrasta. Não vem. Ele está agora na terapia entendendo que nunca foi príncipe. Descobrindo o peso da coroa masculina. E nós aqui, muitas de nós, amontoadas,...

O flamingo e o guarda-chuva

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No quarto fantasma, o ventilador de teto faz um ruído monótono de pás cortando o vento, a chuva tamborila na telha lá fora e minha mente-câmera novamente confere ao todo esta qualidade de filme. Paredes brancas estranhas do meu quarto das quais sempre desconfio. Boio, deitada na cama, num cenário surreal que insisto em desconhecer: minha casa. Tantas casas tive. Tantos quartos estranhos vivendo na memória. Eu sempre lá: flutuando uns centímetros acima do colchão e vendo os móveis virarem fotografia. Tentando com força voltar para o corpo, encaixar na matéria, no berço de fumaça. Vivendo com as unhas fincadas na cama: uma forma estúpida de viver. No quarto fantasma, na realidade que não me convence, sentindo o perfume de outras dimensões, talvez louca de pedra, boio acima do colchão duvidando da existência do ventilador. Eu: ser mal encarnado, mal ancorado ao corpo, mal iludido, fingido. Um guarda-chuva rosado no meio de um bando de flamingos.  Tentando mimetizar as aves e imprimir-...

Não saberá

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Não saberemos a resposta, amiga. Esta a realidade crua, incômoda e inescapável. Não saberemos a resposta. Somos autorizados, no máximo, a brincar de saber. É a condição para habitar neste playground humano. Só saber que nada sabe. Fuçar, fuçar, fuçar, cavar a terra até sangrar os dedos, até varar o mundo e não sair do lado de lá com uma mísera certeza, um vislumbre do que vem a ser esta existência. Por que é a dúvida que nos constitui na imensidão dos seres dramáticos e inquietos que somos. É o nosso barro.  Inescapável. Não saberemos a resposta. Então brinca de saber, renuncia ao susto. É o que resta. Cria ou adere a milhares de teorias certeiras e sólidas como as nuvens no céu. Enche o fosso do seu castelo de certezas e se abriga na torre alta feita de crenças. Lá, da torre, olha a vastidão das terras que em algum ponto se tornam desconhecidas. Uma válvula do seu coração irá tremular e descompassar ligeiramente tocada pelo sopro do medo. Lembra que é só um jogo, o fosso, a torre ...

Tudo bem assim

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Está tudo bem assim como está, assim como é, assim como dá. Reserva uns minutos na semana para se pegar no colo com doçura e repetir o mantra:  está tudo bem assim como está, assim como é, assim como dá. Cala a boca que acorda discordando, escrava da mente que nunca se satisfaz, e permite a si mesmo ser o que é. Larga a lapiseira que desliza compulsivamente em esboços do futuro, em projetos de realinhamento, de evolução, de preenchimento... Este saco de pedras que colocamos nas costas antes até de escovarmos os dentes e parecem raras, mas, se fossem, não pesariam tanto. Cascalho brilhante que nos soterra. Repete pra si mesmo neste instante como uma oração: está tudo bem assim como está, assim como é, assim como dá. Olha o todo e percebe o ser que luta, peleja, incansavelmente e mesmo assim nunca basta. Percebe seu direito de parar, de não corresponder, de não saber, de não conseguir. Para e reconhece a cenoura na ponta da vara à frente da carroça. Você nunca irá comê-la. Enxerga o ...