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Dia bom

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Há dias bons. Sempre no meio dos dias cinzas, estragados, dos dias de tristeza olhando pra tudo aquilo que não muda... há dias bons: em que a gente se pega cantando baixinho uma musiquinha boba... esquentando as canelas num sol morno de inverno e puxando do céu um fiapo de vontade... Há dias bons... Em que as cobranças ficam caladinhas e podemos apenas deslizar sobre o piso ensaboado...  Fazer nada sobre tudo.  Dias de existir só feito uma folha, um vento, uma bobagem qualquer de plástico. Às vezes podem ser escassos, raros... mas existem, eles, os dias bons. Não avisam quando vêm, não fazem alarde e em geral ocupam bem menos a nossa memória que os dias maus. Dias em que a gente percebe que respira e isso é bom. Mas logo esquece porque respirar é uma bobagenzinha cotidiana. Eles existem apesar de tantos sustos pulando em nós a cada esquina. Dias que fluem e todos os semáforos estão abertos. Existem e a gente chega até a estranhar porque, diante de tanta tranqueira que inventam...

Acorda, princesa

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Atenção gatas borralheiras! Vocês docemente aquecidas pelo fogo do abandono. Atenção companheiras do rabo do fogão, do piso infinito do castelo que nunca brilha o suficiente, projetos de princesa esperando um sujeito com um sapato perdido na mão. Atenção amigas de borralho porque a notícia é quente. Não tem sapatinho de vidro. Já ouço vossos suspiros desesperados. ÓÓÓ! Não tem. Não adianta esticar o pé pra cada sujeito que passa. O pobre sequer está dando conta de pagar o capim do próprio cavalo. Não é prioridade dele enfiar nada no seu pé. Ele está focado em encontrar uma podóloga barata para si mesmo. Atenta, parceira do quartinho do fundo do castelo: o cara não vem! Te salvar, te acolher, te reconfortar, te inspirar, te amparar, te impulsionar, segurar a sua mão, te arrancar desta vida miserável em que você é vítima de um mundo madrasta. Não vem. Ele está agora na terapia entendendo que nunca foi príncipe. Descobrindo o peso da coroa masculina. E nós aqui, muitas de nós, amontoadas,...

O flamingo e o guarda-chuva

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No quarto fantasma, o ventilador de teto faz um ruído monótono de pás cortando o vento, a chuva tamborila na telha lá fora e minha mente-câmera novamente confere ao todo esta qualidade de filme. Paredes brancas estranhas do meu quarto das quais sempre desconfio. Boio, deitada na cama, num cenário surreal que insisto em desconhecer: minha casa. Tantas casas tive. Tantos quartos estranhos vivendo na memória. Eu sempre lá: flutuando uns centímetros acima do colchão e vendo os móveis virarem fotografia. Tentando com força voltar para o corpo, encaixar na matéria, no berço de fumaça. Vivendo com as unhas fincadas na cama: uma forma estúpida de viver. No quarto fantasma, na realidade que não me convence, sentindo o perfume de outras dimensões, talvez louca de pedra, boio acima do colchão duvidando da existência do ventilador. Eu: ser mal encarnado, mal ancorado ao corpo, mal iludido, fingido. Um guarda-chuva rosado no meio de um bando de flamingos.  Tentando mimetizar as aves e imprimir-...

Não saberá

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Não saberemos a resposta, amiga. Esta a realidade crua, incômoda e inescapável. Não saberemos a resposta. Somos autorizados, no máximo, a brincar de saber. É a condição para habitar neste playground humano. Só saber que nada sabe. Fuçar, fuçar, fuçar, cavar a terra até sangrar os dedos, até varar o mundo e não sair do lado de lá com uma mísera certeza, um vislumbre do que vem a ser esta existência. Por que é a dúvida que nos constitui na imensidão dos seres dramáticos e inquietos que somos. É o nosso barro.  Inescapável. Não saberemos a resposta. Então brinca de saber, renuncia ao susto. É o que resta. Cria ou adere a milhares de teorias certeiras e sólidas como as nuvens no céu. Enche o fosso do seu castelo de certezas e se abriga na torre alta feita de crenças. Lá, da torre, olha a vastidão das terras que em algum ponto se tornam desconhecidas. Uma válvula do seu coração irá tremular e descompassar ligeiramente tocada pelo sopro do medo. Lembra que é só um jogo, o fosso, a torre ...

Tudo bem assim

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Está tudo bem assim como está, assim como é, assim como dá. Reserva uns minutos na semana para se pegar no colo com doçura e repetir o mantra:  está tudo bem assim como está, assim como é, assim como dá. Cala a boca que acorda discordando, escrava da mente que nunca se satisfaz, e permite a si mesmo ser o que é. Larga a lapiseira que desliza compulsivamente em esboços do futuro, em projetos de realinhamento, de evolução, de preenchimento... Este saco de pedras que colocamos nas costas antes até de escovarmos os dentes e parecem raras, mas, se fossem, não pesariam tanto. Cascalho brilhante que nos soterra. Repete pra si mesmo neste instante como uma oração: está tudo bem assim como está, assim como é, assim como dá. Olha o todo e percebe o ser que luta, peleja, incansavelmente e mesmo assim nunca basta. Percebe seu direito de parar, de não corresponder, de não saber, de não conseguir. Para e reconhece a cenoura na ponta da vara à frente da carroça. Você nunca irá comê-la. Enxerga o ...

CARTA CRUEL

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D emorei a dizer da tua crueldade. Guardo em olhos de maré alta a forma como caminhaste rígida e cheia de ódio rumo à morte. Não era um momento de dor. Ias morrer naquele instante e não em outro porque te desautorizaram as reivindicações tirânicas e sem sentido. Nunca esquecerei as tuas passadas decididas a mostrar-nos do que eras capaz. E foste cruel como poucas criaturas se permitem ser. Deixaste uma carta fria, burocrática, bem cuidada demais para o tamanho da violência que pretendias arrematar. Uma carta sem a palavra “mãe”.   Demorei a erguer esta prece e te contar: foste de uma crueldade suprema ao matar a filha que tive. Me arrancaste um braço sem anestesia num susto daqueles que altera o código genético no interior da célula. Demorei a dizer desta tua soberba desprovida de amor porque suicidas ficam envoltos num silêncio apavorado como se fossem intocáveis. Não são. Seria eternizar esta crueldade, se eu não pudesse dizê-la. Segues sendo a minha filha e seguirei falando cont...

Let it be

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A gente sempre sabe, mas esquece. A odisseia nesse planetinha chamado Terra é viagem escolhida, preparada. Não tem sorte ou azar, é roteiro estudado. Tolice seguir temendo o impossível nada. O nada que é só vazio momentâneo de respostas. O nada que é logo ali onde a mente não dá conta. Eu sempre soube. Quando jovem esperneava demais... superei. Hoje, até quando me esborracho no chão, deslizo. Cair acontece muitas vezes. A gente sempre acha que está vendo, mas não está. Tudo é enviesado nesta vida de neblina e os olhos da carne são imprecisos. E cai mesmo. Melhor se entregar à flexibilidade quando os tombos são inevitáveis. Deixar o corpo se ajustar à queda. Quebra-se menos. Eu sempre soube, mas esqueço todas as manhãs para tocar o dia. Eu sei: de onde vim, para onde vou e porque estou. Eu sei até quando acaba. E há momentos que este saber escapole, vaza para a consciência em forma de intuição. Como disse a mãe do Beatle num sonho: deixa rolar que a resposta vem. Let it be. Eu deixo. Nã...