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Você Cidadão Vira-Lata

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Não é sobre José ou João, é sobre nossa autoestima baleada e cambaleante. Entenda que José e João já ocuparam demais o seu espelho. Com eles na frente, você simplesmente não se enxerga. Se enxergue. Difícil de acreditar, depois de tantos atropelamentos cívicos, mas você merece ser respeitado. Você cidadão vira-lata do planeta acostumado a ser enxotado da porta do boteco do primeiro mundo. Você que inventou até um certo charme para ser torto. Que um dia achou bonito uma leve malandragem no proceder. Você que criou um comercial de TV enaltecendo o jeitinho brasileiro. É. Faz tempo... mas é a sua história. Então não vamos mais falar de José e de João. Poupe-me desta cantilena do quanto João era ladrão pra justificar que hoje você vai ao baile com José que é um grande e visível escroto. Nada nesta retórica te dignifica. Poupe-me das suas justificativas enfeitadas para tolerar o abuso. Não é sobre José ou João, é sobre você, é sobre mim. É sobre respeitar-se. Entenda que a autoestima não...

Miserável

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Eu carrego em mim, embutida, misturada à carne, as carências da minha infância. A necessidade de negociar tudo, sempre, quase como um cacoete. O olhar que corre para a coluna do preço no cardápio do restaurante. Reflexos distantes da filha do motorista de caminhão que muito raramente foi a um restaurante. Eu carrego guardada, talvez com excesso de zelo, a imagem da geladeira vazia e a história dos meus irmãos vendendo anáguas na vizinhança para poder comprar carne. Eu carrego com cuidado, não largo, tenho por elas um amor vital que aguou minha raiz. Ancorada nas pelejas da minha família grande e seus improvisos na sobrevivência, desenvolvi uma alergia ao luxo, uma incapacidade de entrar numa loja cara e comprar sem olhar o preço. O gesto não me dignifica, não me engrandece, não me dá orgulho. E trai a criança que eu fui. E eu entendo que cresci e não preciso mais viver com ela na boleia do caminhão do pai. Tem sido longo e exaustivo o esforço de fazer esta menina calçar salto e ...

Alguma Possivel Esquerda

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Eu costumava ser de esquerda. Parece que não sou mais. Parece que não sou mais suficientemente de esquerda. Parece que minha carteirinha foi cancelada. Acabou. Os sintomas do fim começaram leves, pensei que eram só rebotes da minha irritação generalizada, a menopausa chegando. Comecei a me irritar com discursos de esquerda. Alguns que eu mesma havia pronunciado à exaustão em eras não tão remotas. Começaram a não soar mais a “olha como somos legais”.  Mas eram só ruídos ao longe no começo: uma sensação genérica desconectada de qualquer racionalidade visível. Achei que iria passar. Artista, formada em Humanas, politizada, crítica, eu só podia ser de esquerda. Mas a história do meu país foi nos levando para uma estrada apertada demais e, de repente, só havia duas mãos. E eu tinha que caber numa esquerda que eu não cabia. Quando os discursos se acirraram, meu deslocamento ficou nítido e começou a me incomodar mais. Fui percebendo em mim e nos arredores a arrogância dos sens...

Linikers

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Se é moço ou moça Se o moço é moça Se é ponte ou fosso Se a lua cabe na poça Se a moça é ele Se tem namorada Se ela é amada Se o moço é ela Se é vice-versa Se é broto ou poda O que te interessa? Por que te incomoda? Se o cravo é flor Se o menino é doce Se é por amor Se é felicidade Se ela é menino No fundo da alma Se no próprio corpo Ela se afoga E ela se salva O que te interessa? Que maldade é essa? Por que te incomoda? * * *

Gente Sem Educação

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A economia, a economia, a economia: toda a atenção e glória à economia. Viva o poder de consumo, viva o mercado de ações, viva o dólar baixo. A economia é a panaceia contemporânea, mãe e bálsamo de todos os males. É o eterno agora, o urgente, o café da manhã, o almoço, a água saindo no chuveiro, a aspirina pra dor de cabeça de todo dia. Só a economia interessa: o resto que se exploda. No resto, sempre incluída, com conivência minha e sua, a educação. A educação que se exploda feito terrorista dentro do meu ônibus lotado. A educação que se dane. Economize-se o futuro desde que seja economia. Vamos economizar bem economizado na possibilidade daquele menino pensar. Vamos fabricar adultos inaptos e profissionais limitados e importar lideranças de países desenvolvidos. Vamos investir em líderes políticos de merda: montados na burrice do eterno curto prazo. Vamos economizar pensadores, pesquisadores, inventores, empreendedores... vamos economizar economistas. A educação que se ferre. Vam...

Velhos de Toga e Terno

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Hoje vou falar mal dos velhos. Não dos idosos, mas dos velhos que ganham idade sem amadurecer e apodrecem. Meu país é lamentavelmente conduzido por velhos. Velhos senhores do executivo, do legislativo e do judiciário com velhas ideias de poder pelo poder.  E cheira muito mal. Enquanto os evoluídos do planeta avançam rumo ao compartilhamento, à compaixão, à transparência, à divisão, à igualdade como caminho de sobrevivência, os velhos do meu país olham hipnotizados para o próprio rabo. Cegos ao que o mundo lá fora aprendeu custosamente: egoísmo mata... volta que nem bumerangue... é devorar a si mesmo com esgares de esperteza. Porque o outro não existe. Tudo é uma coisa só num equilíbrio sutil. A falta na África é minha. A borboleta que bate asas no meu jardim cria o tufão do outro lado do planeta. Não é poesia, é física, não é bondade, é inteligência emocional. E não é imediato mas é certo: a conta vem. Porém, velhos não amadurecidos pensam tudo separado. Acreditam nos limites qu...

O Próximo Ser

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Foto: Vesnaandjic Prepare as retinas. Tudo que estava no verso em reverso tornará. Porque é chegado o tempo de ver. Aquele que condenamos ao degredo está de volta ao palco. Todo fantasma que um dia morou na sombra agora dança em decomposição no baile. Intestinos do avesso decoram as telas dos celulares. E está certo, porque é tempo de ver. Tempo de purgar o veneno que o homem enterrou. Prepare o estômago para o banquete de vísceras. Gente estúpida atira em gente inocente e viraliza nas redes. Corpos abandonados sob a lama brotam, ano após ano, no nosso jardim e são novamente soterrados pelo silêncio. Prepare a alma, segure a mão do amigo, abasteça o escudo do amor. É tempo do universo vomitar o que não pode ser digerido. Todo mal virá a tona para ser expurgado e será um espetáculo dantesco, mas curativo. O sol se foi e a lua não veio. Prepare-se. Não se debata, não combata. Apenas jogue fora o que for postiço, o que for máscara, as muitas armas do ego, desarme-se, abrace sua nude...