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Velhos de Toga e Terno

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Hoje vou falar mal dos velhos. Não dos idosos, mas dos velhos que ganham idade sem amadurecer e apodrecem. Meu país é lamentavelmente conduzido por velhos. Velhos senhores do executivo, do legislativo e do judiciário com velhas ideias de poder pelo poder.  E cheira muito mal. Enquanto os evoluídos do planeta avançam rumo ao compartilhamento, à compaixão, à transparência, à divisão, à igualdade como caminho de sobrevivência, os velhos do meu país olham hipnotizados para o próprio rabo. Cegos ao que o mundo lá fora aprendeu custosamente: egoísmo mata... volta que nem bumerangue... é devorar a si mesmo com esgares de esperteza. Porque o outro não existe. Tudo é uma coisa só num equilíbrio sutil. A falta na África é minha. A borboleta que bate asas no meu jardim cria o tufão do outro lado do planeta. Não é poesia, é física, não é bondade, é inteligência emocional. E não é imediato mas é certo: a conta vem. Porém, velhos não amadurecidos pensam tudo separado. Acreditam nos limites qu...

O Próximo Ser

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Foto: Vesnaandjic Prepare as retinas. Tudo que estava no verso em reverso tornará. Porque é chegado o tempo de ver. Aquele que condenamos ao degredo está de volta ao palco. Todo fantasma que um dia morou na sombra agora dança em decomposição no baile. Intestinos do avesso decoram as telas dos celulares. E está certo, porque é tempo de ver. Tempo de purgar o veneno que o homem enterrou. Prepare o estômago para o banquete de vísceras. Gente estúpida atira em gente inocente e viraliza nas redes. Corpos abandonados sob a lama brotam, ano após ano, no nosso jardim e são novamente soterrados pelo silêncio. Prepare a alma, segure a mão do amigo, abasteça o escudo do amor. É tempo do universo vomitar o que não pode ser digerido. Todo mal virá a tona para ser expurgado e será um espetáculo dantesco, mas curativo. O sol se foi e a lua não veio. Prepare-se. Não se debata, não combata. Apenas jogue fora o que for postiço, o que for máscara, as muitas armas do ego, desarme-se, abrace sua nude...

Que Pais é Este?

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Estou no avião sobre o atlântico voltando para onde não sou mais. Para alguém que não sou mais. O avião avança no mapa luminoso em 3D na minha frente... de volta para o país que não tenho mais. Entra no céu brasileiro... e é cinza de novo. Meu trem de pouso encolhidinho de medo. No alto da tela, um número me conta que tenho só cinquenta minutos para renascer. Em menos de uma hora terei de me levantar da poltrona deixando nela, qual cigarra, a casca do que fui. Aquela mulher que mil vezes teve fé. E agora perdeu. Vejo da janela o chão lá embaixo, parece o mesmo chão de terras tão lindamente coloridas, não é, virou campo minado de intolerâncias. E eu tenho menos de uma hora para descobrir nas minhas costas pesadas de cansaço... asas. Porque no final da escadinha de metal meu país não mais existirá quando eu voltar... só um vácuo estranho. Um vácuo de humanidade, gentileza, compaixão... um vazio de valores, de respeito, de dignidade... O nada de boçalidades e egocentrismos diários. O v...

Intersecção

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Ontem não era você, cara, que gritava por tolerância? Que denunciava a agressividade vazia movida pela frustração? Não foi você que alimentou sua rede com posts lindos falando da necessidade de se colocar no lugar do outro? Do diferente? Não era você a vítima dos que atiram primeiro e perguntam depois? Não era você o grande arauto das publicações contra o preconceito? Sabe o que é preconceito, cara? Preconceito é rotular sem escutar. Preconceito é colocar todos os gatos: pardos, brancos, pretos, no mesmo saco só porque você é cachorro. Preconceito é achar que a sua régua é a única que existe e tudo tem que caber nela. Preconceito é enxergar em preto ou branco, sem tons de cinza. É eximir-se de praticar a compaixão porque segundo mensagens dos seus pares no whatsapp o outro é mal. É rotular os que não se encaixam no seu extremo de covardes, traidores. O teste maior dos valores é ter um inimigo no poder. Se então nossos valores se deformam, se a mágoa nos cega, se nos tornamos os defe...

A lama nossa de cada dia

A lama Novamente a lama Mais uma vez a lama A cena se repete exaustivamente como um episódio neurótico Como uma esfinge que perguntasse infinitas vezes a mesma pergunta E a quem respondêssemos exaustivamente a resposta errada A lama Novamente a lama Mais uma vez a lama Como um outdoor de beira de estrada cheio de corpos Que se repete a cada cem quilômetros Incomodo profundo, mas breve. A cada cem quilômetros, garantido, um novo susto A lama Novamente a lama Mais uma vez a lama Não é terremoto, não é incêndio, nem furacão, percebe? É a lama e sua tradução urgente E esfinges não desistem das respostas E neuroses não desistem da cura E ela não desistirá de nós A lama Novamente a lama Mais uma vez a lama Não é Macacos, Miraí, Mariana, Brumadinho É a barragem dentro do homem mal construída pra conter o egoísmo Não é um paredão num rio de Minas que se rompe É a boca aberta de poderosos sem luz Vomitando desamor sobre gente que n...

Torturante Dezembro

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Torturante dezembro de qualquer ano: mês de rituais festivos obrigatórios, compromissos, retrospectivas, expectativas, mês do fim das coisas e da minha chegada ao mundo. Família reunida, uva passa, peru com farofa, presentes... E eu emborcada no meu estranhamento. Sobrevivo ao Natal sem grandes performances: comporto-me bem à mesa falando futilidades, bebo vinho demais, como em excesso para me distrair numa overdose dos sentidos. Tento dormir cedo. Frustro minha filha que quer receber o presente à meia noite. Tenho a meu favor o fato de ter montado a árvore com seus enfeites e luzinhas, também comprei presentes para os mais amados e encomendei a ceia. Minha filha me perdoa e fujo para as profundezas do lençol. Venço a primeira etapa e sigo para o segundo round: meu aniversário. Que criatura abominável se esconderia no próprio aniversário? Sim, estarei na estrada como quase sempre ou em algum lugar simplesmente longe. Aquele climão de fim e eu com este encargo de renascer. Dou meia v...

Kafka Brasil

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Do livro "My First Kafka" Acordo no Brasil kafkanianamente transformada em uma barata ideológica. Não entendo como tudo aconteceu tão rápido e em uma noite apenas deixei de ser gente e virei um bicho tão i-mundo. De repente, minhas antenas não entendem mais os discursos saudáveis dos líderes do país. Capturo palavras soltas. Parece que falam de uma ameaça comunista. Esforço-me com meus ouvidos de barata para entender... não consigo. Tentam me alertar ainda de um perigo nas escolas... Depois de muito fustigar meu cérebro de inseto, entendo que tem a ver com sexo... Velhos de cabelo muito tingido mexem suas bocas buscando se comunicar com a barata ideológica que me tornei... as frases chegam até mim como zumbidos e chiados... Parece que Jesus está envolvido em algo... Jesus, comunismo, sexo, escola, ameaças... Faço um esforço supra-humano para juntar as palavras num contexto lógico. Não consigo.  Coloco minha cabeça de barata na janela e tento ver algo lá fora que faça alg...