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O Sonho

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No sonho estou sentada com minha bolsa no colo diante de um muro sem porta. Esperando uma compreensão que me liberte. Uma gestalt que se feche e me permita deixar esta cadeira dolorosa e seguir. Pessoas são escolas, o coração me diz. Aguardo o ensinamento que me traz esta pessoa calada do lado de lá da parede sem porta. Vez em quando jogo flores por sobre o muro na esperança de provocar uma resposta que alimente meu sim ou meu não. Nada. Minha lição é o silêncio irrespirável. A solidão crua sem paliativos. Me procuro dentro da bolsa, nos guardados que levei de cada partida quando finalmente pude deixar a espera diante de outros muros. Um “não” roto e encardido que recebi um dia no meio de uma pista de dança de um homem que eu amava, duas asas de papel machê que usei quando voei para longe do chão do abandono, agulha e linhas coloridas de costurar a alma despedaçada, a velha chave do sótão onde posso me arrastar no chão feito lagarta e me contorcer em paz até virar nova borboleta. Ol...

Não Magoado

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O não magoado é o novo sim. Tenho tentado dizer um não medicinal, um não maduro... Não consigo. Sai só um não magoado que não se sustenta. Um não raivoso com faca na mão. Não rejeitado, doido pra ser sim. Quero dizer um não pesado de autoestima mas sem ódio, não definitivo. Manifestação natural do fim de um embate interno. Não flor que finalmente desabrocha. Mas o que consigo é o não decorado, Calçado de racionalidades mas emocionalmente frouxo. Não volátil. Graveto no caminho da tromba dágua. Quem não suporta o não do universo não aprende a dizê-lo. Quero pousar o não amorosamente entre os meus seios. Sem rasgar a pele e sem ferir o coração. * Para Chica e Nany. Escudeiras. * *

Alada

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Carsten Witte Eu espero o voo... o próximo voo Nasci com asas invisíveis E o solo, no início, me incomodou Na crescida aprendi o ninho Onde cultivo amores-imperfeitos Mas o chão não é minha casa Moro onde os pés não têm apoio Onde as mãos alcançam o nada Moro no vento, naquele azul mais profundo, na solidão do vácuo Nasci com asas invisíveis E esta estranheza nas costas já me pesou muito E já morei em gaiolas tentando ser gente,  ser o outro de alguém Hoje estou casada com o céu E espero o voo... o próximo voo Até um dia ir alto demais E morrer nos braços do infinito. * * *

Tributo ao Amor Impossível

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Em que local mágico ficam guardados os amores impossíveis? No bolso da camisa azul do homem poderoso e sem tempo? Na caixa marchetada sobre o guarda-roupa da velhinha que amargou? Na bolsinha de fuxicos daquela menina que chora no ponto de ônibus? Atrás dos olhos castanhos de medo da mulher que não se lançou no abismo? Em cartas amareladas escondidas no fundo de gavetas em cidades diferentes? Onde o monumento dos amores que seguiram se amando distantes apartados por um oceano de “nãos”? Onde o jardim dos amores que brotam em pedras secas e vivem eternamente animados por raros raios de sol? Onde o pedestal do amor que chegou na hora errada: tarde ou cedo demais? Amor dos que disseram adeus e se foram sangrando eternidade adentro? Dos que não deram conta? Em que altar consagraremos os amores doídos que viveram no silêncio? Onde posso registrar meu tributo afetuoso ao seu amor sensível, amável mas impossível? * * Para um homem e uma mulher amados. *

Caçadora

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Venenosa a solidão que blefa Solidão travestida de amor Solidão que inventa marido, namorada Onde o abandono se repete Cara a solidão que usa o outro Como tampão de hemorragia Solidão surda que não escuta o “não” Nefasta a solidão dos que se precisam acompanhados Solidão que manipula falas e inventa olhares E rouba carinhos invisíveis Estúpida a solidão que não se abraça, não se assume Solidão que fabrica arapucas de pegar amor Nunca autorizada sempre gigantesca Ergo-me na sala dividida ao meio por um biombo Por tanto tempo jurei um outro do lado de lá Ergo-me com a coragem  dos exaustos e vou olhar... Ninguém. Desenhos de crianças espalhados pelas paredes, pelo chão Meu outro inventado O resto é solidão real, basal, inescapável Recolho minhas garras e vou finalmente caçar a paz em mim.

O Bólido e a Borboleta

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A seta incisiva, na placa verde, aponta São Paulo. Tentei encontrar companhia para a viagem de sete horas de carro, não foi possível: o universo havia escrito no livro que era a vez de viajar só. A estrada, e suas pistas deitadas na minha frente, não me levará a São Paulo. Sequer existe um carro, meu corpo está fundido à máquina. Viajo numa metáfora do meu destino e acelero... 160 quilômetros por hora no tapete de asfalto. A música bem alto e só a voz masculina do Waze vez ou outra me alertando sobre radares. Existe algo premonitório ali, algo a caminho que não é São Paulo. Enquanto o carro voa, eu me encolho devagar e me acomodo dentro de uma caverna interna. Escorrego cada vez mais sem lastros para dentro de mim, para o devir. Vou me desapegando da realidade e seu cheiro de passado. Já não me reconheço no que era. Uma borboleta cruza a rodovia atarantada e explode tola contra o meu parabrisa. Diáfana presença no curso do bólido que me leva a mim. E não tem chance contra a força do...

Amém

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Eu fui catequista. Tinha meus 12 anos. Ensinava a crianças menores o catecismo que eu mesma não conhecia muito bem. Ia sozinha à igreja, melhor quando ela estava vazia. O padre, os fiéis, a liturgia da missa, me incomodavam. Na igreja silenciosa sim, encontrava Deus. Sigo dispensando atravessadores e intérpretes entre mim e o divino. Pertenço a civilizações humanas arcaicas onde Deus estava em tudo o tempo todo. Deus era a água, a árvore, a pedra, o bicho. Então nasci misturada com Deus e não preciso de rituais para falar com ele, nem pontes. Deus é esta imensidão inexplicável aqui e agora, é o amor como guia, é minha união total com tudo que há. Dispensa rituais de conexão, cabines telefônicas de falar com Deus. Não marca comigo num local e horário da semana: está vinte e quatro horas online. Mas entendo os que se ajoelham no templo, os que juntam as palmas das mãos e rezam, os que cantam e dançam olhando para o céu, os que precisam de um pai na terra, menos metafísico, mais carne ...