Postagens

O Ogro

Imagem
Ciruelo Cabral Acabo de sonhar com um homem feio e gordo e barbudo que nu, deitado em minha cama, abria os braços para mim. Um ogro que me queria, me olhava com olhos pedintes, e me fazia estranhamente compadecida. Acariciei de leve o homem e cogitei me entregar a ele num gesto de piedade. Mas o ogro feio e repulsivo queria ser amado e tinha estes olhos que imploravam amor boiando numa impensável doçura. Como amá-lo não podia, afastei-me dele cuidadosamente como quem abandona um cachorro na rua e dei-lhe as costas pesadas de dor. O gordo feio e suado baixou a cabeça, os olhos tristes, foi mergulhando em seu lar escuro e eu corri para a luz determinada a acordar. Acabo de acordar e te digo que, desgraçadamente, de nada me serviu. O gordo feio continua aqui pesando sobre meu corpo com sua desproporção incômoda e sua carência desconfortável. Posso senti-lo ao meu lado na cama vazia fazendo um vinco fundo no colchão para dentro do qual escorrego. É minha sombra obesa sacrificada ao si...

Com a Macaca

Imagem
Quem tá rindo é porque não entendeu nada. Vi outro dia numa faixa. É. Tá difícil rir e  pensar ao mesmo tempo.  Não estamos nos divertindo. Vamos levando. Falo de nós: a maioria.  Em matéria de discursos a sociedade nunca foi tão generosa, na real é o lixo.  A lógica é simples: quem pode mais come o outro, e esta frase pode ser interpretada em vários sentidos. Quem pode menos, favor procurar o incinerador mais próximo. No discurso a gente inclui todo mundo: cadeirante, cego, surdo, pobre, velho. É lindo. Mas na real o cara é o transtorno da performance.  E a performance é a alma do sistema.  E digamos que o sistema não foi assim uma puta invenção. Digamos, de uma forma bem simplória, que reeditamos os esquemas da selva primitiva botando grana no lugar dos músculos.  Tudo bem você não ser o macaco mais musculoso desde que você tenha alguns Porshes e Ferraris, um barco gigantesco que você não usa e alguns quadros do Monet, ou Manet, pra você tanto faz...

Ciência Menino

Imagem
Underwood&Underwood/CORBIS Camille Paglia, pensadora norte-americana, disse que a ciência é invenção do homem para se proteger do insondável feminino. Ciência é coisa de homem. Eu tenho certeza absoluta. Fosse coisa de mulher já teriam inventado uma pílula que acabasse instantaneamente com a TPM e não existiria esta máquina que espreme um seio até achatá-lo como uma lâmina, inspirada na tortura medieval de bruxas, para fazer uma mamografia. Nenhuma menina na doçura de seus doze, treze anos, conheceria a cólica menstrual, pois seriam todas vacinadas contra esta aberração da natureza ao nascerem.  Parto com dor também teria sido abolido há milênios e daríamos a luz num espasmo de prazer deitadas em colchões de macela cobertos com lençóis acetinados. E logo após o parto, seria aplicado na barriga da mulher um poderoso cosmético reparador que devolveria a ela o aspecto dos dezessete anos. A pílula para não engordar seria distribuída gratuitamente pelo Ministério da Saúde junt...

Está Escrito

Imagem
Hoje, não quero escrever. Estou de mal com a escrita. Estou com raiva da escrita. Hoje vou escrever desescrevendo. Eu que comecei a escrever crônicas aos onze anos e passei por poemas, contos, peças de teatro, filmes, hoje estou odiando tudo isso. Quero escapar da maldita folha branca que é meu destino. Estou achando ridícula, quase inútil, esta sina de escrever num blog. Uma amiga da minha irmã comentou negativamente impressionada: mas sua irmã tem três filhos e escreve num blog? É verdade: que monstro sou eu que três vezes mãe escrevo num blog apenas pelo prazer de escrever? Que gasto vários preciosos minutos do dia metendo os dedos nestas teclas atrás de frases redondas ou pontudas? Que faço e refaço um parágrafo diversas vezes como quem borda um pano de prato? Enquanto deveria estar fazendo algo realmente útil. Sim, a poesia é a mais inútil das criaturas, passatempo de irresponsáveis, reduto de preguiçosos que se dão ao desfrute de serem sensíveis demais para carregarem o piano...

Alguma coisa acontece no meu coração

Imagem
Helio Ishii Ir embora de São Paulo. Sonhamos eu e minha empregada.  Pobre cidade passagem, cidade grana, cidade sem filhos. Oásis de fartura obrigatório para nordestinos e mineiros como eu.  Onde tudo acontece. Chegamos e amamos São Paulo mas queremos deixá-la. Amamos a cidade canalhamente. Nosso lugar é lá de onde viemos. Lá a esposa. Aqui a amante excitada, barulhenta, colorida, imensa. Lá o berço quente. Aqui montanha-russa. Toco meu carro pelas veias acidentadas de São Paulo esbarrando na loucura coletiva dos motoristas. No trânsito de São Paulo, desacredito da civilização humana.  Somos o pior de nós. Prédios brotam feito erva daninha nas margens das ruas sufocando São Paulo. Ninguém se importa. Cidade especulação, todo mundo quer arrancar dela até o último centavo.  Já não aguenta, já não suporta, mas os homens querem mais. E ninguém a defende. Há tempos os prefeitos de São Paulo também estão de passagem. Abraçam a vitrine inigualável e evitam seu lado abe...

Esperando o assalto

Imagem
Esperamos o assalto. Eu, você, todo mundo. Estamos tensos, paranoicos, esperando o assalto. Virou feijão com arroz. Tem um monte de neguinho que trabalha e assalta nos dias de folga. Não, não é uma piada. Assaltar é legal, assaltar vale a pena. Cadeia não tem, justiça não tem. Assaltemos.  No meu bairro, levantam uma casa por semana. E parece que, graças a Deus, são profissionais. Ser assaltado por amador então é o requinte da desgraça. Arma na mão de um idiota nervoso  pode ser um tiro inútil na cara. Com sorte: na sua cara e não na do seu filho. Então, reze para que o seu assaltante esteja calmo e bem preparado, que ele tenha passado por um treinamento, que ele tenha ido à sessão de terapia naquela semana. Reze porque é o que resta. O país melhora economicamente mas o número de assaltos cresce. Porque crime aqui é instituição, tem hierarquia, tem produtividade, tem metas a cumprir, tem até criativos que bolam o esquema da vez. Crime é cultura. E va-le-a -pe-na.  Che...

Bipolar

Imagem
Estou meu lado A. Esta semana, estou a mil. Acordo com uma gana incontrolável de realizar todos os meus projetos e saio dando pernadas na vida. Tenho dezessete anos, no máximo. Posso tudo...