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Deste jeito, deste tamanho, nesta hora

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Está bom assim.... desse jeito, desse tamanho, nesta hora. Eu te digo: não precisa mais nada. Senta naquela nuvem e apenas seja  no breve espaço em que a nuvem se desmancha. Não existe de fato nada além desta incompletude. Falta o corpo perfeito, a grana do aluguel, o amor da vida, falta o filho, o tempo pra fazer tudo, a vontade, falta, falta, falta... Ela não foi criada para que a mente te torture: a falta. Ela deveria ser, no máximo, um convite ao movimento quando se sabe que faz parte o ficar parado. É seu direito ficar parado e bastar. Sem angústia. Desvestir a falta como quem descalça o sapato no final de um longo dia de trabalho.  Não se viciar nela. Não insistir cavando quando a pele dói. Está bom assim... desse jeito, deste tamanho, nesta hora. Está perfeito e aplausos soam nos infinitos cantos do universo. A vida te ama deste tamanho, nesta hora, deste jeito que você pode ser. E falta muito como sempre. Apenas não olhe por instantes para o que falta. Se afasta do qua...

Sem música

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Nada a fazer. Não sei ser esta pessoa inerte. Ficar parada, quieta, sem arrumar nada, sem varrer, costurar, ler, escrever, ligar a tela do celular... Nada. Não sei. Invento coisas pra encher minha cabeça completamente apavorada por este hiato sem movimento, sem gestos, sem palavras, sem propósito, sem conteúdo. Apavorada de me pegar assim: completamente inútil na ciranda do cosmos. O mundão lá fora rodando alheio ao meu silêncio imóvel. O mundão rodando antes e depois de mim. Então corro para o teclado e vou escrever, minha fuga conhecida. Escrevo para provar a mim mesma que existo, que importo. Alguém um dia precisará ler este texto e eu o terei escrito, invento. Bobagem. Devia ter ficado quieta e suportado o vazio mais um pouco. Deixado a ansiedade me comer até passar. E seguir para além dela... O que existe para além da minha voraz necessidade de agir, de consumir, de compartilhar? Não sei. Não sustento o corpo boiando no mar por mais de alguns segundos. Não deixo o nada me engolir....

Apenas mais um dia até que acabe

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Nunca esteve integralmente aqui. Registre-se. Sempre duvidou dos sólidos e das fórmulas. Quando criança, tentou por diversas vezes desmanchar-se no vento. Voltar ao ilimitado. Não pôde. Então inventou birras de ter nascido.  Afirmava, meio sem certeza, não ter feito a escolha. Teria sido empurrada de uma nuvem: registre-se. E como não tinha jeito, foi crescendo... Vendo o corpo crescendo. Aferrada à crença da inutilidade desse troço chamado vida. Muito mal conectada, deu pra ter umas morrenças. A alma se estranhando com a carne, fazendo ânsia de fugir. Não podendo. Tomou muitos remédios e assim ancorou melhor no planeta. Mal encaixada, registre-se, mas apta a caminhar.  Então deitou mãos às obras. O fazer: seu jeito de estar no mundo, suportá-lo. Esculpir demoradamente louva deuses em blocos de granito e assim distrair-se do humano. Fazer sem parar porque parando afundava no silêncio. E fez coisas de gente: um monte. Fez até outras gentes. Registre-se: sem nunca estar integral...

Tudo vai ficar bem

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Tudo vai ficar bem. Sopro da alma vem brincar no meu ouvido. Serás uma velha divertida mesmo que visitada por dores e esquecimentos. Carregarás tua história de voos e mergulhos profundos numa pequena bolsa de cetim bordada à mão junto da tua chave de casa e do teu batom cor de rosa. Saberás levar o prazer e a dor com o mesmo respeito e elegância pois terás conhecido a ti mesma no caminho e desmistificado teu pequeno e teu grande. Tudo vai ficar bem ainda que novas cicatrizes sejam desenhadas sobre  as muitas rugas que também virão. Entenderás a combinação mágica entre elas, cicatrizes e rugas, no registro poderoso chamado "o caminho" e não terás mais tanto medo. Irás pela estrada sem pressa pois saberás que não existe de fato um destino, só a caminhada. E, desobrigada da pressa de chegar, notarás mais flores nas frestas do asfalto, teimando em vivificar na aridez, e tantas outras pistas do que de fato é esta existência. Tudo vai ficar bem, a alma ecoa para antes de mim, para ...

Enquanto derretemos

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Minha caixa craniana parece que vai rachar como casca de ovo cozido tamanho o calor deste sol de inverno... outono?... primavera? Ninguém sabe mais. Estou largada sob o sofá extensível feito um jacaré à beira do rio. Alcanço o controle remoto da TV e assisto um filme... dois filmes... Preciso levantar e fazer algo útil, mas só consigo boiar feito um pedaço de carne numa sopa de legumes. O ventilador soprando firme na minha cara um ar cada vez mais quente. Não sigo para o terceiro filme, me iludo de que preciso checar as mensagens do whatsapp atrás de algo importante... é só um cacoete pra que eu divague para as redes sociais e passe mais uma hora babando enquanto vozes engraçadas dublam vídeos de bichinhos fofos ou crianças famélicas e machucadas surjam em apelos desesperados da Cruz Vermelha, dos Médicos sem Fronteira, da Acnur... Maldito algoritmo que sabe da minha terrível culpa em existir deitada neste sofá extensível enquanto crianças morrem. Uma hora empurrando a tela com o dedo ...

Auto-Acabados

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Saco cheio. Falta gritante de vontade de descer para o playground humano. Saco cheio de ser humano. Bicho cagado. Fazedor de guerra, triturador de crianças inocentes, animal corrosivo. Exterminador de outras espécies e da própria. Inventor de crenças que viram cruzes pra carregar como este capitalismo burro. Aposta todos os dias que um montão de gente na merda e um tiquinho com a grana toda vai funcionar. Colecionador de inutilidades premium num mundo cada vez mais violento. E meu saco inchado e vermelho querendo explodir. E o babaca desregulando o clima, destruindo floresta, jogando a desgraça da embalagem de plástico na rua, comendo a camada de ozônio. Não é um invasor alienígena do mal, é o Zé, meu irmão humano. Reflexo horroroso de mim mesma no espelho. Bichinho ganancioso, egoísta, cruel. Meu saco pulsa em espasmos como se quisesse vomitar o ser humano de dentro de mim. Não tenho como. Engulo o bicho com goladas de frustração. E meu saco, elástico, não sei como, vai se enchendo ma...

Enfim, só.

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Vem solidão sem disfarces. Estou abrindo mão das distrações...  do barulho que o outro faz, da solução que o outro não é. Sou um bicho exausto em busca de um oco. Outros carregam expectativas e promessas, eu ando vazia de entregas e esperas.  Vem solidão nesta maturidade calma. Vem  que iremos jogar cartas madrugada adentro. Vem que, enfim, tenho os braços abertos de te abraçar e deixar o outro ir. Já posso me acompanhar de palavras e cachorros e não dói a mais. Vem solidão experiente, imune à panaceia dos romantismos. Vamos tomar um chá quente ou um vinho frio catando histórias numa tela de LED luminosa. Vamos chorar as misérias humanas sentadas no sofá com todas as luzes da casa apagadas. Vamos dançar abraçadas e levemente bêbadas, desvendando a grande enganação que chamamos de realidade. Vem solidão sem fantasias de completitude, solidão pedra fundamental, solidão estruturante, original, celular. Vem que o tempo me ensinou a sua paz. Vem que já estou velha o suficiente...