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Estupidez

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Em junho deste ano meus ouvidos adoeceram. Fartos da balbúrdia do mundo que alimento. Não lhes basta o silêncio solitário da meditação, querem o meu silêncio no tiroteio verbal cotidiano. O silêncio. Necessário. Urgente. Produzi-lo. Falar menos. E menos. Até nada. Desviciar-me em falar. Desviciar-me em comandos, em comentários. Receber as provocações do mundo e calar. Não reagir, não rebater, não repicar. Calar. Produzir silêncio para o conforto do mundo. Abrir mão do status de máquina afiada de pensar e cuspir palavras. Deixar de dar feedback, de dar fé, de depor. Calar meus achismos e, se possível, nem chegar a achar nada sobre esta sua escolha, esta sua atitude, este seu novo amor. Só balançar a cabeça de leve e aceitar. Muda. Parar de tentar remediar o mundo com minha fala. Parar de terapeutizar o mundo. Aquietar nas coisas como são, na beleza do que é. Dar tempo aos olhos de encontrar a beleza que jaz antes que o pensamento borre tudo com suas expectativas e a fala contamine a ...

Dez trilhões de eu

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Conversa com tuas células.  Para tudo. Fecha os olhos. Fala com elas. Teu corpo são muitos corpos, muitas pequenas vidas associadas.  Agora mesmo, uma infinidade de processos estão em marcha movidos por uma inteligência maior que a da tua mente. Teu corpo, tua testemunha do tempo, teu mapa da caminhada, tua memória emocional espalhada da unha do pé à ponta do fio mais comprido do cabelo. Conversa com ele. Para tudo. Fecha os olhos. Escuta tua corrente sanguínea.  Sente o ar massageando internamente teus pulmões. Existe carícia mais deliciosa? Perceba: recebes carinhos oxigenados todo o tempo e jogas fora. Encosta uma mão na outra. Simples assim. Sente teu próprio calor: é isto que tu és, um ser quente, um ser que aquece. No calor das tuas mãos, o segredo do futuro dos homens. Que arma conheces mais poderosa que um abraço do corpo? Onde um ser humano se coloca mais inteiro, mais indefeso, senão na concha tépida dos teus braços?  Desliza tuas mãos pelos teus braços ...

O coxo dança

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Garrincha Na integridade do meu coxo, vou buscando o meu existo. Na verdade do meu manco, distribuo fartos esbarrões em gente querida. Sinto a culpa avançar sobre as pernas em contrações musculares, como sempre, na intenção de devolvê-las retas à correta e aprovável colagem de cacos de mim. Barro com o braço. Defendo meu coxo e seu incômodo. Peço desculpas inúteis: não mudam o que sou. Busco entender o novo e estranho caminhar: meu coxo, meu reto.  Avanço sobre o temido, o evitado, o que não cabe, o que me revela. E vejo minas explodirem levando os que iam ao meu lado. Não arrefeço o passo, não me desvio. Não quero mais fazer ciranda com meus mortos. A propulsão da alma desconhecida me empurrando para frente como um tanque cruzando a floresta. Sem conversa, sem interpretações, sem pena das plantas no caminho. Levando no peito os cipós do "não" que não entendo. Determinada a atravessar. Ciente dos buracos com estacas que eu mesma cavei pelo terreno e cobri com folhas. E n...

Ela é o cão

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Diana é o cão. Está se lixando para a superioridade humana. Faz o que lhe dá na telha. Imune a adestramentos. Comandos de voz? Palhaçada. Diana é quase um Bull Terrier não fossem os genes daquela mãe vira-lata. Tem algum traço muito mas muito sutil de Border Collie. Nada ligado à capacidade de ir pastorear uma ovelha para seu dono. Aliás, as vontades do seu dono não estão entre as prioridades dela. Baixinha, atarracada, invocada, Diana é um torpedo constantemente apontado para a rua. Mal o portão oferece uma primeira fresta e o míssil preto e branco cruza por ela em velocidade estonteante, inibindo toda e qualquer capacidade de reação do bípede evoluído que atende pelo nome de Homo Sapiens. Já era. O bípede implume está agora obrigado a desistir de adentrar seu domicílio para se lançar ao encalço de Diana. Usar sua pouca agilidade animal e exibir-se para os vizinhos atrás do bólido de pernas curtas mas força muscular ímpar, capaz de protagonizar dribles e escapadas sobrenaturais. Após...

Ela não está

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Procura-se autor da foto Hoje não tem mãe, não tem esposa, não me esperem pra jantar. Hoje declinei do cargo e vou tomar uma cerveja sozinha num botequim onde uma esposa e mãe não pisariam. Lembrar-me do quanto sempre adorei estar só. E eu sei que não convém: esposa e mãe precisam estar sempre a postos, com o auditório aberto, disponível ao público. Ainda que irritada e melancólica, ainda que transbordando excessos, sempre de prontidão, até no sono. Mas hoje, honestamente, procurei em mim de cima abaixo e não encontrei a que casou nem a que teve filhos. Então, para evitar embaraços maiores, não vou jantar em casa. Eu sei que vai ser chato pra vocês o lugar da mãe vago na mesa. Como é que, de repente, esta figura tão incensada pela mídia, tão cantada em verso e prosa, tão estigmatizada como santa, tão confiável, tão protagonista de cantiga de ninar, fura com todo mundo? Eu sei que, na minha posição, não cabem mais estas demonstrações de egoísmo. Eu sei que existe uma cláusula no me...

Morra de fome

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Catherine Deneuve Enquete do dia: o que sua vítima comeu hoje? A minha traçou um bom prato de tragédia alheia. Pegou a desgraça de um parente e passou o dia ruminando. Desgraça de parente é um pouco nossa: sempre sobra um espaço na longa régua da cruz pra gente enfiar as costas. Minha vítima já foi bem mais gulosa. Não dividia a cruz com ninguém. Tinha orgulho de arrastá-la sozinha, calvário acima, caindo várias vezes de joelhos no chão até ver o sangue escorrendo pelas pernas. Jesus? Um tímido perto da sua performance. Minha vítima comia pratadas e pratadas de sofrimento, arrotando gemidos com cara circunspecta e caçando, com o rabo do olho, algum espelho. Obesa de porradas. Salivando diante dos carrascos. Devoradora de desmerecimentos. Insaciável. Emagreceu com a idade. Hoje só come quando me distraio. Sei que não está morta nem se mudou para outro corpo. Vejo seu vulto molambento zanzando pela periferia de mim, a cata de algum comentário cruel que tenham me atirado. Ou sentada ...

Um beija-flor na varanda

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Meu coração não tem porta. Não é casa. É ponte. Não segura, não expulsa. Meu coração é passagem. Músculo cordial predisposto a amar os passantes. Não se apega: aprendeu a delícia das visitas... Este texto agora pode ser lido na íntegra no novo livro da Senhorita Safo.  Disponível a partir de 12/03/2016 no site das melhores livrarias.