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Pequenos Homens e Sua Obras

Nos acostumamos ao fedor. Pobre povo desprovido de indignação proativa. Povo manso, encabrestado. Dividimos entre nós a praga da baixa autoestima. No nosso jardim, todo mundo pode fazer coco. Olho pela janela: meu girassol cagado por um deputado, um senador, um ministro corrupto.  Dou um suspiro magoado e vou pegar minha pazinha de lixo, jogar aquela merda em outro lugar. Amanhã ou depois o nobre político virá baixar suas calças e deixar mais uma de suas obras em cima das minhas margaridas. No caminho, pisará nas delicadas sempre-vivas. E ele nem se dá mais ao trabalho de vir incógnito à noite. Porque para o filho da puta eu, meus filhos, minha casa, minha cidade, o tal público, existe para saciar seus instintos primitivos de macaco recente que são meter a mão, comer e botar pra fora. Depois de aliviado, como sempre, ele limpará o traseiro na minha apatia e seguirá feliz para o jardim do vizinho. Eu, para não passar atestado total de vaso sanitário, já que pertenço à elite intelect...

Aqui Jaz

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Hoje, de uma pedra, olhei o mar batendo no horizonte. Montão de água esparramada. Em silêncio, encarapitada na pedra, deixei o mar engolir minha cabeça. Eu tenho desde criança esse sonho: ser engolida pela natureza. Birutice. Nos momento de cansaço me controlo para não deitar na terra e me cobrir de folhas secas. Cheirar a terra feito cocaína. Eu sou tomada por estes delírios de fusão com o planeta. Só contemplá-lo, já me recodifica. Ficar olhando a copa da árvore no contra luz do sol, a dança dos galhos no vento, folhinha que despregou de lá e veio rodando forrar o chão. Pronto, o cordão umbilical entre o eu e a árvore foi reestabelecido e converso com ela sem palavras. Sim, os loucos falam com árvores e bichos e sabem que o mar está vivo, e nos observa. O mar olha a mulher de preto com sua mochila nas costas aboletada na pedra e sente saudades dela.   Sabe que está fugida do mundo civilizado e logo irá mergulhar no resort atrás de si rumo ao seu trabalho. É o que ela faz. O que f...

Pula

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Para criar é preciso descriar. Desmanchar o sólido do cotidiano. Colocar uma bomba no café da manhã, ou uma flor. Para criar é preciso jogar fora. Gente apegada não visita as camadas profundas do criativo. Aquela grande ideia pode ser uma boia enrolada nos tornozelos. Criar é buscar a pérola na fenda abissal do oceano. Criar é expor-se, resvalar no ridículo sem pudor. Estar aberto ao ridículo. É deixar sair: o banal, o chavão, a rima pobre, a obviedade. Suportá-los. Criar é dar conta do seu ruim.  Encará-lo. Desmistificá-lo. Na mesma fila das lâmpadas queimadas está a gestalt luminosa. Criar é ter paciência com o lago estático do inconsciente. Esperar o grande peixe morder. Criar é exercício. É engrossar a musculatura da imaginação e da técnica diariamente. Provocar o universo, cutucar a mesmice porque ela está ali feito casca escondendo o novo. O mundo urge criativos. Mas o mundo roda feito liquidificador de almas numa mesma toada monótona. E rodamos juntos em baias padronizadas c...

Operária

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Sou culpada por cada linha que escrevo. Bem no fundo, debaixo de todas as capas e véus de autora que me disfarçam, esconde-se a operária que precisa carregar sacos de batata no porto ou abastecer diariamente uma caldeira com carvão para sentir-se digna. Eu carrego bem talhados em minhas costas os mandamentos do proletariado onde nasci. Bíblia do eterno sacrifício, da conquista pela dor, da necessidade do esforço, preferencialmente o físico. Ostento, feito tiara de ouro, minha coroa de espinhos de mártir trabalhadora. Gosto de reclamar em voz alta que virei a noite na labuta ou liquidei mais um final de semana em nome do ofício. Na lida do quebra-pedra sinto-me em paz, irmã dos meus próximos. Mas, se me enfio no ócio salutar às mentes criativas, se me entrego uma manhã inteira à contemplação da paisagem para dela extrair um poema, corro feito louca dali para o açoite. Eu engrosso a horda dos inimigos sutis dos orgasmos existenciais. Gente que olha a fartura com preconceito e acha que a ...

Oco

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Estou branca como a folha virtual à minha frente. Desde domingo chamando, e o texto não vem. Espero em vão a poeta que está entocada em algum buraco do profundo.  Saiu pra comprar cigarro, picou a mula.  Ela que é livre e tem lá suas razões para se afastar de mim. Eu que nem sempre a amo incondicionalmente como devia.  Já é quarta-feira. Melhor me entregar. Escrever sobre o nada, o buraco negro, a ausência. O nada que às vezes me apavora. Medo de olhar o meu vazio. Tudo que eu quis e quiseram de mim e não é. O que não serei, não tenho para dar, não consigo. É o que faço agora debruçada na cisterna seca. Lá embaixo, só o breu mudo. Nem tristeza vejo. Só um oco. Deve ser nesta hora que alguns se atiram da janela. Quando nem a dor te prega neste mundo. Mas eu não. Intuo que algo está sendo gestado no escuro e me acomodo no vácuo.  E curto o vácuo, o precioso não ser. Espero. É uma espécie de meditação imposta pelo universo. Um entreato entre ser esta e a que virá. ...

Jacarés e jibóias

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Corro. Melhor na esteira porque ela não me deixa mentir. Ela não negocia, não ralenta. Suo mais na esteira do que entregue à minha própria força de vontade pelas ruas. Calibro para seis quilômetros por hora. E corro. Os primeiros cinco minutos são em direção à lava fumegante do Krakatoa. A morte. O que é que eu estou fazendo ali?? Tô looouca??? Que se dane a silhueta, estou com quarenta e quatro, eu mereço ser gorda, eu quero ser gorda, pronto. Sinto-me com oito toneladas dando pernadas na maldita esteira. Vou parar, é isso, vou parar agora, já... não!... mais um minuto... só mais um. E, de um em um, supero a barreira dos cinco. Tempo para o cérebro me aplicar uma dose de endorfina e começar a ser bom. Quase posso sentir os goles de endorfina sempre que a corrida vai ficando pesada ou sem sentido. E corro  anestesiada. O cansaço vai virando uma leve euforia e as ideias boas brotam dos cafundós da mente. Bendita química. Quero chegar aos trinta minutos mas me peço apenas mais cinco....

Dory

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Gosto de desenhos animados. Gosto da esperteza de alguns criadores geniais em travestir de infância conteúdos tão profundos e significantes. Não falo de mensagens politicamente corretas em defesa do meio ambiente. Isso já virou cacoete. Falo de ir ao encontro da complexidade humana sem firulas, sem criancice, sem subestimar os pequenos com mensagens babonas e retardadas.  Tenho pensado muito em Dory, a peixinha azul do filme Procurando Nemo.  Vem à minha cabeça a cena em que ela e o peixe-palhaço foram engolidos pela baleia. Sem saída. Tantas vezes me sinto sem saída. Vejo Dory rolando divertida dentro da boca da baleia enquanto o peixe-palhaço resmunga sua tragédia, sua falta de sorte, seu fim eminente e se debate furioso contra a parede de dentes. Eu sou tantas vezes o peixe-palhaço e queria tanto ser Dory. Então as coisas pioram, claro. Não para Dory que está entregue ao desconhecido, mas para Marlin, o peixe-palhaço descrente. A água em que eles nadam começa baixar, vai se...