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Escuta, Zé Ninguém

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Escuta, Zé Ninguém, vamos deixar combinado: não te diremos nunca a verdade. Vamos te enganar todos os dias da sua vida, para o seu bem. Por que você, Zé Ninguém, não sabe mesmo lidar com a verdade. Faltam na sua mala as ferramentas básicas para lapidar a verdade e transformá-la em diamante. Então, a verdade pra você, Zé Ninguém, é só uma pedra no sapato. E nós aprendemos a lidar contigo. Regra primeira e intocável: minta. Diga ao Zé Ninguém o que ele quer ouvir. Diga que existe o mal e o bem e ele está do lado certo. Diga o confortável. Nuances incomodam. Exigem pensar. Dê ao Zé Ninguém uma bola e dois times, diga que basta ganhar e deixem-no extravasar suas muitas frustrações neste jogo. Ele berra, chuta o torcedor adversário, cospe, picha a ciclovia... Enquanto isso, se distrai e nós andamos. Segunda regra: não seja autêntico. Invista numa bela fachada e finja por algum tempo em frente às câmeras, no palanque, diga o que ele quer ouvir, nunca o que ele precisa. Não é assim, Zé Ningu...

Inquebrável

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Minha autoestima é conquistada, pelejada, esculpida em alabastro, anos a fio. Minha autoestima não é fake, não é meu orgulho travestido, não é make-up do meu ego. Bate. Provoca. Minha autoestima não vai se retirar. Mesmo quando corre na espinha o calafrio imemorial do abandono, não solto mais minha mão. Não entro no jogo do desamor. Retorno a mim, ao meu farol intenso, onde trabalhei duro limpando engrenagens, lâmpadas, recuperando peças quebradas. Não me perco mais nas suas tempestades. Vejo seu Netuno colérico, surtado, surdo, esparramado sobre o palco. Cachorro ferido, impossível de ser tocado pelo amor. Repudiando com dentadas todo gesto de carinho. Retiro-me desta plateia. Saio sem alarde pelos fundos. Deixo seu espetáculo para aqueles que gozam nas suas porradas. E há muitos. Você sabe. Vivem à sua volta lambendo seu chicote e alimentando seu Deus criança que tudo quer e tudo pode.  Desfilam de torso nu para exibir os vergões avermelhados como prova de que desfrutam um lug...

Eu, você e o Cunha de noite

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Amigo, não vou facilitar as coisas pra você assim como não foi fácil pra mim escolher um lado. Então, se não quer provocar suas crenças, pare de ler já. Estou disposta a desestabilizar nossa amizade. Estou disposta a tudo. Para começar, vamos tirar os rótulos do coldre e colocar no chão. Nenhum de nós dois é vil. Isto você sabe: é o que mantem íntegro o nosso vínculo. Fizemos escolhas e teremos que justificá-las no futuro, ou podemos esquecê-las, o que tem sido mais comum neste país. Eu gosto de você porque sei que você dirá: escolhi a justiça, a correção, a mudança, a luz. E eu acredito. Mas não gosto de você quando parece que não posso escolher o mesmo sem estar do seu lado. Nesta hora te acho apenas infantil. Não diria isto a um inimigo. Não perderia este tempo. Isto supera a política: no dia a dia sua mãe, seu namorado, sua filha, estarão certos mesmo estando do outro lado e você não estará errado. A morte da maturidade acontece quando o fluxo se interrompe entre os dois lados c...

Não queira me mudar!

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Não queira me mudar. Disse o homem com firmeza. Sou quem sou. Também acho uma estupidez erguer qualquer relacionamento na expectativa de mudar o outro. O homem tem meia razão, embora eu não quisesse mudá-lo. Querer mudar o outro, para mim, está entre a absoluta falta de humildade e a total perda de tempo. Mudar o outro acontece, mas não como um propósito. Sei que serei um espelho e o homem talvez mude por vontade própria porque é natural das relações verdadeiras, transformar as pessoas. A mim, basta existir com integridade, com verdade, sem muitas querências em relação ao planeta insondável do outro.  Tive a chance de ser terapeuta e desisti. Não sou tão altruísta a ponto de me dedicar a mudar quem quer que seja. Mas tive vontade de dizer ao homem: vai mudar, criatura! Qual o problema? Pra que tanto apego ao que se é ou parece ser? Escolhemos pessoas espelho quando alguém em nós quer mudar. Escolhemos pessoas foscas quando queremos a paz da inércia. Pessoas espelhos devolvem a n...

Celina e Malala

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Estou lendo com minha filha de onze anos a história de Malala: menina paquistanesa que levou um tiro na cabeça por insistir que as mulheres tivessem o direito de ir à escola. No começo do livro ela está com a mesma idade de Celina. Vejo o rosto de minha filha endurecer enquanto os olhos deslizam pelas páginas. O lobo mau deixou de ser uma figura pictórica na imaginação: o nome dele é ser humano. Crueldades acontecem no mundo real. Somos nós que as promovemos. Pior, não nos achamos maus como o lobo, atiramos na cabeça de uma criança em nome de Deus. Respiro aliviada de que Celina não tenha nascido no vale do Swat sob a dominação do Talibã. É educada para ser livre, exigir respeito, ser tratada de forma igualitária. Nada no ser mulher a inferioriza ou autoriza contra si qualquer violência. Pode andar vestida como quiser. Pode brincar com meninos. Pode ler. Pode dizer não. Mas agora sabe que há outras Celinas no mundo escravizadas e violentadas pela estupidez dos homens. Meninas que tê...

Honestamente, amigos

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Eu aprendi esfolando os joelhos nas calçadas que para crescer é preciso olhar firmemente para o escuro. No começo o que vemos são nossos próprios fantasmas, com o tempo a vista se acostuma e podemos enxergar a nossa verdadeira alma. Ela não é branca, impoluta, ela não é correta, ela não é boa: porque ela abraçou cada cena da nossa história, até aquela onde furtamos um livro numa livraria chique. Não é poesia: eu já roubei um livro quando jovem. Não tinha grana para comprar e era um livro, o que torna o roubo meio romântico, mas não acho que deveria ter feito. Posso suportar o fato de que errei e não autorizo ninguém a me agredir por isso. Então, quero falar brevemente sobre nosso momento político, porque sempre fui um ser político e participei ativamente deste jogo, inclusive como publicitária. Sim, existia um jogo de poder e o jogamos: uns em nome da ganância, uns em nome de um ideal, uns em nome de uma extrema vaidade. E se erramos, e se provarem que erramos, devemos pagar. Julgar...

INSUPORTÁVEL

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Tenho procurado suportar pessoas no Facebook. Preciso delas para não perder a noção do mundo. Outro dia, sem querer, uma postagem minha ficou pública. Era sobre política. Não deu cinco minutos e alguém estava me desancando pelo que escrevi. Levei um choque. De onde saiu aquela criatura? Através de que fresta desguardada ela havia se metido no meu reino maravilhoso e perfeito das certezas do Facebook? Como aquele idiota, sem classe, sem nível, sem noção havia conseguido a chave do meu bunker? Onde vivo cercada de amigos que, vá lá, estão mais à esquerda, mais à direita, mas caminham dentro dos limites suportáveis da minha visão de mundo. De onde brotou aquela excrescência xiita? Aquilo não podia haver na realidade. A simples existência daquele idiota colocou um tremor desestabilizante no meu espaço virtual. Fiquei perplexa como se estivesse caminhando pela Paulista e tomasse um murro por estar usando uma camiseta de arco-íris. Rapidamente mudei o status da postagem para amigos. Amigo...